O mais interessante é que Deus, seja lá o que for que se entenda por este nome, não criou nenhuma religião. Da mesma forma, o cristianismo não foi criado por Cristo, o islamismo não foi criado por Muhammad (Maomé) e o budismo não foi criado por Buda. Foram os homens (em sentido literal) que criaram as religiões. O feminino não está presente, ou tem um papel diminuto, nas chamadas religiões reveladas. O mesmo não acontece com muitas das religiões pagãs.
Foram também os homens que criaram a imagem de Deus, algo parecido com eles, uma figura com que se pudessem identificar e pudessem usar para domínio dos outros homens. Portanto, este conceito de Deus é uma criação puramente humana e tem muito pouco a ver com a verdade. Isto já foi devidamente explicado à antiga Sociedade Teosófica que, apesar de toda a inspiração recebida, caiu no entendimento comum do conceito de Deus.
A ideia de alguma maçonaria e de algum martinismo de substituir o conceito de Deus pelo do Grande Arquitecto do Universo é mais correcta mas peca ainda por imperfeita. Procura-se aqui, com o abstracto, dar uma ideia mais inteligente do conceito, mas é em função dele que essa ideia é criada.
A ideia do budismo sobre Deus, ou a divindade, embora não reconhecendo Deus como tal, e a divindade como um ser, apesar do culto de numerosas divindades, é uma ideia semelhante à da Cabala, principalmente à da sua “Árvore Sefirótica” onde, acima de “Kether” (A Coroa) não existe nada, é o imanifestado, o incognoscível. Esta ideia cabalística coloca a questão sobre a existência de Deus em parâmetros mais correctos, quer dizer, que ninguém pode conceber Deus pois Ele é o inominável, o incognoscível.
O budismo fala do vazio, ou vacuidade, como origem de tudo o que foi e é criado. Embora parecida com a ideia do “Ein Soft”, onde nada é dito acerca de vazio, mas de imanifestado, no budismo diz-se que é vazio, e que do vazio tudo foi e é criado.
Mas o vazio ou vacuidade entende-se como ausência de tudo, inclusive de qualquer forma de energia. Ora se nada ali existe, como é que pode ser criada alguma coisa? Os rosacruzes sabem isto e conhecem muito bem a parte de um ritual em que é dito que das trevas nada pode ser criado, que é precisa a luz para que a criação aconteça.
Pode haver uma religião sem Deus? Claro que não, porque o conceito de religião, apesar do seu significado de “religar”, está intimamente associado ao da divindade, seja ela um deus único ou um panteão de deuses – a ideia é sempre a mesma.
Uma das coisas mais difíceis que existem na actualidade é fazer com que as pessoas, quando falam de Deus ou o imaginam, entendam que a ideia desse Deus é um arquétipo muito poderoso que domina as suas mentes e controla as suas vidas. Destruir esse arquétipo é uma tarefa impossível, uma vez que está tão arraigado na sociedade e cimentado em inúmeros séculos até um passado remoto. Tarefa tão impossível que, em algumas ordens iniciáticas, apesar de se afirmar que o entendimento de Deus está no interior de cada um, o arquétipo permanece ligado à imagem arquetípica. Aqueles que conseguem libertar-se dessa imagem, libertam-se de um peso que carregam há muitos milénios, desde a época em que os deuses e os homens habitavam a mesma Terra.
Ad rosen!
(Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h45 de 15 de Março de 2012, sob a inspiração de Mestre K.)
Crónicas Avulsas
Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Quinta-feira, 8 de Março de 2012
Cartas do meu Sanctum - Ignorância
Todos nós somos ignorantes, porque se não fossemos não estaríamos aqui a fazer nada.
A ignorância é o motor do nosso desenvolvimento, tanto material como espiritual. Sem ignorância não haveria ciência, tecnologia; não haveria descobertas que tornaram a nossa vida mais cómoda e confortável; ainda estaríamos provavelmente no nosso estado inicial quando começámos a viver na Terra. Sem ignorância não pode haver evolução, pois é ela que nos empurra para tentarmos sabe um pouco mais acerca de nós mesmos, da nossa vida, do que estamos aqui a fazer, qual o propósito e muito mais. Por isso somos buscadores, reconhecemos a nossa ignorância e vamos à procura, vamos em busca de uma sabedoria, de um conhecimento que sentimos existir no nosso interior, provavelmente um conhecimento primordial do qual temos apenas uma leve suspeita.
Há quem ache que sabe mais que todos os outros, que não sofre dessa coisa chamada ignorância. É aquele professor que acha que os alunos não passam de um bando de ignorantes e que ele faz o supremo sacrifício de os ensinar. Só que, como todos os pretensiosos, incorre num grande equívoco: ele não pode ensinar nada a ninguém, as pessoas aprendem se quiserem e se puderem – ele apenas fornece pistas, explicações, material para que as pessoas possam aprender.
As últimas conquistas tecnológicas a nível de informação vieram trazer uma nova abordagem da questão educativa assim como da organização social. Com o desenvolvimento da internet as pessoas recebem a informação em casa, sem censura (por enquanto), e podem aprender de forma muito mais rápida do que frequentando uma escola. As pessoas podem passar a ser menos ignorantes, ainda que exista muita desinformação na internet. Por esse motivo, alguns governos querem estabelecer uma forma de censura sobre o que ali se publica e querem também controlar o seu acesso.
Em termos espirituais a nossa ignorância impele-nos para uma religião, uma escola iniciática, uma escola esotérica, para grupos “new age” para associações de vária ordem, inclusive maçónicas (só algumas). Buscamos a resposta ou o esclarecimento para a nossa ignorância. Mas descobrimos com alguma frustração que ali não há respostas – ali há apenas caminhos pelos quais podemos encontrar-nos com o nosso mestre interior, se tivermos coragem e abrirmos a nossa mente. Tudo quanto buscamos está ali, no nosso mestre interior.
É preciso coragem para poder resistir à manipulação de consciências, tão usada pelas religiões, sem excepção, através da qual procuram dominar as populações a elas sujeitas, incutindo-lhes dogmas e doutrinações. Conseguem-no com bastante sucesso, pois usam técnicas bastante desenvolvidas para esse fim e não explicam a verdade porque como alguém disse, a verdade liberta.
Mal avisados são aqueles que se consideram a si mesmos mestres, gurus, professores, orientadores, julgando-se donos da verdade e senhores do conhecimento das coisas, como se o resto dos seres humanos não passe de um conjunto de ignorantes. Considerar outros ignorantes, só porque têm ideias diferentes das suas, é no mínimo falta de educação, falta de respeito pelo próximo, prepotência, falta de senso, falta de sentido ético e mais grave ainda, falta de compaixão, onde o amor não tem lugar.
Mas felizmente que nem tudo é assim. Apesar da confusão dos tempos que estamos vivendo, da desorientação que parece ter tomado conta de tudo, há muita gente que não se importa nem dá importância às luzes da fama, e se dedica de corpo e espírito ao bem dos outros, sem pedir nada em troca.
Na última carta publicada, subordinada ao tema “Espiritualidade”, recebi vários comentários elogiosos por e-mail, pelo “blog” e pelo “facebook”. A todos o meu agradecimento sincero e meu abraço fraterno.
Ad rosen!
Birigui, 8 de Março de 2012
A ignorância é o motor do nosso desenvolvimento, tanto material como espiritual. Sem ignorância não haveria ciência, tecnologia; não haveria descobertas que tornaram a nossa vida mais cómoda e confortável; ainda estaríamos provavelmente no nosso estado inicial quando começámos a viver na Terra. Sem ignorância não pode haver evolução, pois é ela que nos empurra para tentarmos sabe um pouco mais acerca de nós mesmos, da nossa vida, do que estamos aqui a fazer, qual o propósito e muito mais. Por isso somos buscadores, reconhecemos a nossa ignorância e vamos à procura, vamos em busca de uma sabedoria, de um conhecimento que sentimos existir no nosso interior, provavelmente um conhecimento primordial do qual temos apenas uma leve suspeita.
Há quem ache que sabe mais que todos os outros, que não sofre dessa coisa chamada ignorância. É aquele professor que acha que os alunos não passam de um bando de ignorantes e que ele faz o supremo sacrifício de os ensinar. Só que, como todos os pretensiosos, incorre num grande equívoco: ele não pode ensinar nada a ninguém, as pessoas aprendem se quiserem e se puderem – ele apenas fornece pistas, explicações, material para que as pessoas possam aprender.
As últimas conquistas tecnológicas a nível de informação vieram trazer uma nova abordagem da questão educativa assim como da organização social. Com o desenvolvimento da internet as pessoas recebem a informação em casa, sem censura (por enquanto), e podem aprender de forma muito mais rápida do que frequentando uma escola. As pessoas podem passar a ser menos ignorantes, ainda que exista muita desinformação na internet. Por esse motivo, alguns governos querem estabelecer uma forma de censura sobre o que ali se publica e querem também controlar o seu acesso.
Em termos espirituais a nossa ignorância impele-nos para uma religião, uma escola iniciática, uma escola esotérica, para grupos “new age” para associações de vária ordem, inclusive maçónicas (só algumas). Buscamos a resposta ou o esclarecimento para a nossa ignorância. Mas descobrimos com alguma frustração que ali não há respostas – ali há apenas caminhos pelos quais podemos encontrar-nos com o nosso mestre interior, se tivermos coragem e abrirmos a nossa mente. Tudo quanto buscamos está ali, no nosso mestre interior.
É preciso coragem para poder resistir à manipulação de consciências, tão usada pelas religiões, sem excepção, através da qual procuram dominar as populações a elas sujeitas, incutindo-lhes dogmas e doutrinações. Conseguem-no com bastante sucesso, pois usam técnicas bastante desenvolvidas para esse fim e não explicam a verdade porque como alguém disse, a verdade liberta.
Mal avisados são aqueles que se consideram a si mesmos mestres, gurus, professores, orientadores, julgando-se donos da verdade e senhores do conhecimento das coisas, como se o resto dos seres humanos não passe de um conjunto de ignorantes. Considerar outros ignorantes, só porque têm ideias diferentes das suas, é no mínimo falta de educação, falta de respeito pelo próximo, prepotência, falta de senso, falta de sentido ético e mais grave ainda, falta de compaixão, onde o amor não tem lugar.
Mas felizmente que nem tudo é assim. Apesar da confusão dos tempos que estamos vivendo, da desorientação que parece ter tomado conta de tudo, há muita gente que não se importa nem dá importância às luzes da fama, e se dedica de corpo e espírito ao bem dos outros, sem pedir nada em troca.
Na última carta publicada, subordinada ao tema “Espiritualidade”, recebi vários comentários elogiosos por e-mail, pelo “blog” e pelo “facebook”. A todos o meu agradecimento sincero e meu abraço fraterno.
Ad rosen!
Birigui, 8 de Março de 2012
Quarta-feira, 7 de Março de 2012
Cartas do meu Sanctum
ESPIRITUALIDADE
Esta é uma palavra que deixou as paredes dos templos, das igrejas, dos conventos, como tem vindo a ser usada há muitos e muitos séculos, e passou a fazer parte do dia-a-dia corrente, sendo aplicada a inúmeras situações e sendo utilizada arbitrariamente na execução de milhares de livros, na realização de convenções, palestras “workshops” (seja lá o que for que isto queira dizer), e cursos, supostamente dirigidos ao despertar da espiritualidade que, dizem, reside no interior de cada um.
Pode-se aprender espiritualidade em livros? Julgo que não, apesar de haver muita gente que tem ganho autênticas fortunas editando livros dedicados ao tema. Pode-se aprender espiritualidade em convenções, palestras e “workshops”? Penso também que não, que é um grande equívoco. Pode-se aprender espiritualidade em cursos de meditação ou algo semelhante? A minha resposta continua a ser negativa. Pode-se aprender espiritualidade nos templos, nas igrejas e nos conventos? Também não. Pode alguém ensinar espiritualidade a alguém? Não. Porque ninguém ensina nada a ninguém e a espiritualidade não se aprende.
O ser humano é um espírito experimentando a vida num corpo físico, logo, a espiritualidade é uma condição natural. Ele nasce espírito e morre espírito, embora esta designação de espírito tenha vários significados, alguns bem diferentes, consoante as escolas que a usam.
Não importa o nome por que é conhecido, espírito, alma, personalidade-alma ou outro qualquer. Trata-se de algo transcendente que engloba o nosso ser por inteiro e que nos faz saber que somos mais do que o corpo físico, que nos faz sonhar com lugares especiais, que nos faz desejar voltar para casa, ainda que não saibamos onde é que a casa é.
O ser humano nasceu espírito e em espírito cumpre o longo caminho das encarnações. Desde a mais remota antiguidade que ele sente que é um pouco mais do que o corpo. Começou por adorar as forças da Natureza, que o aterrorizavam. Estabeleceu vários cultos a vários deuses e assim foi subindo na escala evolutiva, até desembocar nas actuais religiões, supostamente detentoras de espiritualidade.
Mas pode haver espiritualidade numa igreja que criou a inquisição e se estabeleceu durante muitos séculos como um império governando o mundo? Poderá haver espiritualidade no mundo muçulmano, que propõe a “guerra santa” contra os infiéis, só que os infiéis são todos os que não são muçulmanos? Poderá haver espiritualidade entre o judaísmo, com toda a sabedoria dos seus livros sagrados e da Cabala, mas agarrado a formas de vingança corporizadas no “olho por olho, dente por dente”? Poderá haver espiritualidade no hinduísmo, no panteão dos 300 mil deuses, apesar da trindade original e superior, mas insistindo em costumes atávicos de verdadeira miséria? Poderá haver espiritualidade no budismo, cujos monges criadores das mandalas e cantores de inúmeros mantras, mas que prosseguem numa religião que alguém já chamou de “religião sem Deus”?
Evidentemente que sim, que pode haver espiritualidade dentro de todas essas religiões, pois a espiritualidade não reside na religião, mas em cada um dos seres que constituem os seus membros. Enquanto religiões e estabelecendo rituais e mediadores (sacerdotes, pastores, etc.) entre o membro e a divindade ou as divindades, perseguem interesses materiais pouco condizentes com a doutrina que apregoam.
Quem se debruça um pouco sobre a história das religiões verifica que se trata, na verdade, de uma história de sangue e de domínio e exploração por uma elite auto-constituída que se assume detentora da verdade e da salvação dos pobres súbditos. O próprio budismo, apesar das pretensões de alguns, não foge à regra. Nascido na Índia, onde é muito pouco apreciado, atingiu a sua mais forte expressão no Tibete, onde se estabeleceu um reino governado por monges, cujo principal responsável tomou o nome de Dalai lama, que não significa nenhuma atribuição espiritual, mas designa apenas o rei do Tibete. O que é que os monges fizeram pela população pagã durante séculos? Nada, absolutamente nada, mantiveram essa população nas condições da idade medieval europeia. Quando os chineses invadiram o Tibete em 1950, foram recebidos em festa pela maior parte da população.
Apesar de se considerar geralmente que a espiritualidade está ligada à religião, em muitos casos as coisas se confundem de tal modo que há quem ache que é a mesma coisa, de facto não está. A espiritualidade faz parte de todo o ser humano, só precisando de condições e oportunidade para se manifestar, o que pode levar várias vidas. As religiões e todas as formas de culto, as ordens iniciáticas e de cavalaria, os costumes tradicionais ritualizados nas sociedades mais antigas, são apenas caminhos ou meios através dos quais se pode evoluir e expressar a espiritualidade.
Aquele ou aquela que consegue expressar a espiritualidade de forma plena, está num grau de evolução superior e a espiritualidade passa a fazer parte de todo o seu ser, reflectindo-se nos seus actos, pensamentos e na vida do ser como um todo. Não há espiritualidade a meio tempo, tem que ser a tempo inteiro.
Ad rosen!
(A partir do 4º parágrafo, texto recebido por inspiração de Mestre K. no dia 6 de Março, cerca das 21h30 horas de Birigui.)
Esta é uma palavra que deixou as paredes dos templos, das igrejas, dos conventos, como tem vindo a ser usada há muitos e muitos séculos, e passou a fazer parte do dia-a-dia corrente, sendo aplicada a inúmeras situações e sendo utilizada arbitrariamente na execução de milhares de livros, na realização de convenções, palestras “workshops” (seja lá o que for que isto queira dizer), e cursos, supostamente dirigidos ao despertar da espiritualidade que, dizem, reside no interior de cada um.
Pode-se aprender espiritualidade em livros? Julgo que não, apesar de haver muita gente que tem ganho autênticas fortunas editando livros dedicados ao tema. Pode-se aprender espiritualidade em convenções, palestras e “workshops”? Penso também que não, que é um grande equívoco. Pode-se aprender espiritualidade em cursos de meditação ou algo semelhante? A minha resposta continua a ser negativa. Pode-se aprender espiritualidade nos templos, nas igrejas e nos conventos? Também não. Pode alguém ensinar espiritualidade a alguém? Não. Porque ninguém ensina nada a ninguém e a espiritualidade não se aprende.
O ser humano é um espírito experimentando a vida num corpo físico, logo, a espiritualidade é uma condição natural. Ele nasce espírito e morre espírito, embora esta designação de espírito tenha vários significados, alguns bem diferentes, consoante as escolas que a usam.
Não importa o nome por que é conhecido, espírito, alma, personalidade-alma ou outro qualquer. Trata-se de algo transcendente que engloba o nosso ser por inteiro e que nos faz saber que somos mais do que o corpo físico, que nos faz sonhar com lugares especiais, que nos faz desejar voltar para casa, ainda que não saibamos onde é que a casa é.
O ser humano nasceu espírito e em espírito cumpre o longo caminho das encarnações. Desde a mais remota antiguidade que ele sente que é um pouco mais do que o corpo. Começou por adorar as forças da Natureza, que o aterrorizavam. Estabeleceu vários cultos a vários deuses e assim foi subindo na escala evolutiva, até desembocar nas actuais religiões, supostamente detentoras de espiritualidade.
Mas pode haver espiritualidade numa igreja que criou a inquisição e se estabeleceu durante muitos séculos como um império governando o mundo? Poderá haver espiritualidade no mundo muçulmano, que propõe a “guerra santa” contra os infiéis, só que os infiéis são todos os que não são muçulmanos? Poderá haver espiritualidade entre o judaísmo, com toda a sabedoria dos seus livros sagrados e da Cabala, mas agarrado a formas de vingança corporizadas no “olho por olho, dente por dente”? Poderá haver espiritualidade no hinduísmo, no panteão dos 300 mil deuses, apesar da trindade original e superior, mas insistindo em costumes atávicos de verdadeira miséria? Poderá haver espiritualidade no budismo, cujos monges criadores das mandalas e cantores de inúmeros mantras, mas que prosseguem numa religião que alguém já chamou de “religião sem Deus”?
Evidentemente que sim, que pode haver espiritualidade dentro de todas essas religiões, pois a espiritualidade não reside na religião, mas em cada um dos seres que constituem os seus membros. Enquanto religiões e estabelecendo rituais e mediadores (sacerdotes, pastores, etc.) entre o membro e a divindade ou as divindades, perseguem interesses materiais pouco condizentes com a doutrina que apregoam.
Quem se debruça um pouco sobre a história das religiões verifica que se trata, na verdade, de uma história de sangue e de domínio e exploração por uma elite auto-constituída que se assume detentora da verdade e da salvação dos pobres súbditos. O próprio budismo, apesar das pretensões de alguns, não foge à regra. Nascido na Índia, onde é muito pouco apreciado, atingiu a sua mais forte expressão no Tibete, onde se estabeleceu um reino governado por monges, cujo principal responsável tomou o nome de Dalai lama, que não significa nenhuma atribuição espiritual, mas designa apenas o rei do Tibete. O que é que os monges fizeram pela população pagã durante séculos? Nada, absolutamente nada, mantiveram essa população nas condições da idade medieval europeia. Quando os chineses invadiram o Tibete em 1950, foram recebidos em festa pela maior parte da população.
Apesar de se considerar geralmente que a espiritualidade está ligada à religião, em muitos casos as coisas se confundem de tal modo que há quem ache que é a mesma coisa, de facto não está. A espiritualidade faz parte de todo o ser humano, só precisando de condições e oportunidade para se manifestar, o que pode levar várias vidas. As religiões e todas as formas de culto, as ordens iniciáticas e de cavalaria, os costumes tradicionais ritualizados nas sociedades mais antigas, são apenas caminhos ou meios através dos quais se pode evoluir e expressar a espiritualidade.
Aquele ou aquela que consegue expressar a espiritualidade de forma plena, está num grau de evolução superior e a espiritualidade passa a fazer parte de todo o seu ser, reflectindo-se nos seus actos, pensamentos e na vida do ser como um todo. Não há espiritualidade a meio tempo, tem que ser a tempo inteiro.
Ad rosen!
(A partir do 4º parágrafo, texto recebido por inspiração de Mestre K. no dia 6 de Março, cerca das 21h30 horas de Birigui.)
Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
Em Busca de um Propósito
Crónicas Avulsas
por: Manuel Pina
EM BUSCA DE UM PROPÓSITO
Um filósofo zen do século XX, Bhagwan Shree Rajneesh, mais conhecido no mundo ocidental como Osho, ainda que este não seja um nome, mas um título equivalente a “mestre” dentro da filosofia zen, dizia que a vida não tem propósito, que a vida é alegria, contentamento, diversão, riso – sem qualquer propósito. Que a vida é a própria meta de cada um, que não há mais nenhuma meta.
Entendido no sentido literal, significa que para ele, Osho, as pessoas deviam portar-se como crianças, deviam sentir-se com a inocência das crianças, ou seja, sem qualquer sentido de responsabilidade que advém do facto de entendermos a vida com um propósito. Porque sem um propósito, e enquanto seres humanos, a vida deixaria de ter qualquer sentido. Sem um propósito não teríamos civilização, viveríamos ainda como simples animais, como era, aparentemente, a situação da Eva (ou das Evas) e do Adão (ou dos Adãos) descrita no Génesis da Bíblia, tendo assumido a liberdade e a condução do seu destino após comerem do fruto proibido. Na verdade, Adão e Eva, quando no Paraíso, deviam ser mais uma espécie de “flores de estufa”, ou os melhores espécimes de um jardim zoológico para distracção dos “deuses”, do que seres inteligentes e responsáveis.
Na Natureza e no Universo parece que tudo conspira para desacreditar a teoria das crianças inocentes, parece que existe sempre um propósito em todo o movimento permanente que faz com que tudo seja impermanente. O ouro já foi chumbo num passado remoto; o diamante já foi um pedaço de árvore; muitos isótopos radioactivos se vão transformando, perdendo a sua instabilidade e adquirindo cada vez mais a estabilidade de uma matéria qualquer.
A natureza humana precisa de um propósito para sobreviver, sem o qual deixaria de ser humana. Da natureza humana fazem parte as emoções, os sentimentos, os sonhos, a inteligência, a força de vontade, muitas virtudes, mas também muitos defeitos, e o propósito, se não houver mais nenhum, é o de equilibrar na vida essas duas forças antagónicas, essa dualidade que muitos chamam de luz e sombra. Ao contrário de algumas ideias acerca da transformação da sombra em luz, ou de superação da sombra, o que temos de fazer é aprender a lidar com a nossa sombra, trazê-la para o consciente e compreendê-la, para a podermos dominar, já que não a podemos eliminar. A sombra é necessária para o nosso equilíbrio psíquico.
A necessidade de um propósito constitui também a essência das religiões, pois elas oferecem sempre um caminho, um objectivo a alcançar, justificando assim as duras penas a que estamos sujeitos na vida. Ganhar o céu, ou pelo menos o purgatório, é o grande propósito do cristianismo e islamismo, já que ninguém quer ganhar o inferno. As religiões orientais propõem o renascimento ou reencarnação sendo o propósito a evolução através das inúmeras vidas. Para a tradição esotérica o propósito será o retorno à origem através de várias encarnações, um retorno ao nosso estado primordial.
Podemos não saber qual o propósito da vida, o que não quer dizer que, pelo facto de não o sabermos, possamos concluir que a vida é sem propósito. Por intuição, e não por inteligência, ainda que esta faça também parte daquela, sabemos que esse propósito existe. No coração de alguns de nós, talvez dos mais sensíveis ou sensitivos, como agora se usa dizer, bate de quando em vez uma espécie de saudade, uma ânsia de voltar a um estado que não sabemos explicar mas que representa a casa, o “Nosso Lar” como diz uma obra de Francisco Xavier, um lugar a que sabemos pertencer, sem contudo sabermos explicar esse sentimento. Talvez seja por não pertencermos a esta Terra, por estarmos aqui de passagem, de visita ou, para resgatar os nossos pecados acontecidos em outros mundos. De facto, como já vi escrito algures, o ser humano é o único animal que não se encontra adaptado aos vários climas da Terra: enrola-se em peles e agasalhos nos climas frios e despe-se quase totalmente nos climas quentes; procura aquecer-se no inverno e refrescar-se no verão. Será essa “Volta a Casa”, como tão bem está demonstrado na parábola do “Filho Pródigo” do Novo Testamento o propósito da nossa vida, ou das inúmeras vidas por que temos de passar?
por: Manuel Pina
EM BUSCA DE UM PROPÓSITO
Um filósofo zen do século XX, Bhagwan Shree Rajneesh, mais conhecido no mundo ocidental como Osho, ainda que este não seja um nome, mas um título equivalente a “mestre” dentro da filosofia zen, dizia que a vida não tem propósito, que a vida é alegria, contentamento, diversão, riso – sem qualquer propósito. Que a vida é a própria meta de cada um, que não há mais nenhuma meta.
Entendido no sentido literal, significa que para ele, Osho, as pessoas deviam portar-se como crianças, deviam sentir-se com a inocência das crianças, ou seja, sem qualquer sentido de responsabilidade que advém do facto de entendermos a vida com um propósito. Porque sem um propósito, e enquanto seres humanos, a vida deixaria de ter qualquer sentido. Sem um propósito não teríamos civilização, viveríamos ainda como simples animais, como era, aparentemente, a situação da Eva (ou das Evas) e do Adão (ou dos Adãos) descrita no Génesis da Bíblia, tendo assumido a liberdade e a condução do seu destino após comerem do fruto proibido. Na verdade, Adão e Eva, quando no Paraíso, deviam ser mais uma espécie de “flores de estufa”, ou os melhores espécimes de um jardim zoológico para distracção dos “deuses”, do que seres inteligentes e responsáveis.
Na Natureza e no Universo parece que tudo conspira para desacreditar a teoria das crianças inocentes, parece que existe sempre um propósito em todo o movimento permanente que faz com que tudo seja impermanente. O ouro já foi chumbo num passado remoto; o diamante já foi um pedaço de árvore; muitos isótopos radioactivos se vão transformando, perdendo a sua instabilidade e adquirindo cada vez mais a estabilidade de uma matéria qualquer.
A natureza humana precisa de um propósito para sobreviver, sem o qual deixaria de ser humana. Da natureza humana fazem parte as emoções, os sentimentos, os sonhos, a inteligência, a força de vontade, muitas virtudes, mas também muitos defeitos, e o propósito, se não houver mais nenhum, é o de equilibrar na vida essas duas forças antagónicas, essa dualidade que muitos chamam de luz e sombra. Ao contrário de algumas ideias acerca da transformação da sombra em luz, ou de superação da sombra, o que temos de fazer é aprender a lidar com a nossa sombra, trazê-la para o consciente e compreendê-la, para a podermos dominar, já que não a podemos eliminar. A sombra é necessária para o nosso equilíbrio psíquico.
A necessidade de um propósito constitui também a essência das religiões, pois elas oferecem sempre um caminho, um objectivo a alcançar, justificando assim as duras penas a que estamos sujeitos na vida. Ganhar o céu, ou pelo menos o purgatório, é o grande propósito do cristianismo e islamismo, já que ninguém quer ganhar o inferno. As religiões orientais propõem o renascimento ou reencarnação sendo o propósito a evolução através das inúmeras vidas. Para a tradição esotérica o propósito será o retorno à origem através de várias encarnações, um retorno ao nosso estado primordial.
Podemos não saber qual o propósito da vida, o que não quer dizer que, pelo facto de não o sabermos, possamos concluir que a vida é sem propósito. Por intuição, e não por inteligência, ainda que esta faça também parte daquela, sabemos que esse propósito existe. No coração de alguns de nós, talvez dos mais sensíveis ou sensitivos, como agora se usa dizer, bate de quando em vez uma espécie de saudade, uma ânsia de voltar a um estado que não sabemos explicar mas que representa a casa, o “Nosso Lar” como diz uma obra de Francisco Xavier, um lugar a que sabemos pertencer, sem contudo sabermos explicar esse sentimento. Talvez seja por não pertencermos a esta Terra, por estarmos aqui de passagem, de visita ou, para resgatar os nossos pecados acontecidos em outros mundos. De facto, como já vi escrito algures, o ser humano é o único animal que não se encontra adaptado aos vários climas da Terra: enrola-se em peles e agasalhos nos climas frios e despe-se quase totalmente nos climas quentes; procura aquecer-se no inverno e refrescar-se no verão. Será essa “Volta a Casa”, como tão bem está demonstrado na parábola do “Filho Pródigo” do Novo Testamento o propósito da nossa vida, ou das inúmeras vidas por que temos de passar?
Sábado, 17 de Dezembro de 2011
A IMPERMANÊNCIA E O PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO
É conhecido o axioma atribuído ao químico francês Lavoisier de que, “na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Apesar das experiências com bombas nucleares terem dado indícios de que uma parte minúscula de matéria se perde durante uma explosão atómica, a regra continua válida, em meu entender, para todas as situações envolvendo a matéria. Até porque essa perda de matéria em explosões nucleares precisa de ser comprovada, coisa que parece não ter acontecido ainda. Se houver perda de matéria, ela vai para onde? Simplesmente desaparece? Vai para outra dimensão? Vai para um universo paralelo, como muitas das teorias actuais falam?
A pouco e pouco a ciência tem vindo a comprovar, cada vez com maiores evidências, o que os Antigos sabiam e que foi sendo transmitido de boca a ouvido ao longo dos séculos: tudo é vibração, tudo é energia. Depois da Física Quântica ter demonstrado que a matéria é um vastíssimo campo de energia onde acontecem as coisas mais extraordinárias, veio agora a “Teoria das Cordas” defender que a origem da matéria está justamente nessas pequeníssimas fontes de energia. Assim, parece já não haver nenhuma dúvida hoje de que tudo está em permanente transformação. Mesmo os materiais mais duros e que nos parecem indestrutíveis, estão em transformação resultante da vibração dos seus átomos, os quais vibram em frequências originadas pela sua constituição atómica. Isto aplica-se a toda a matéria e a todos os seres vivos, inclusive aos seres humanos, cujo corpo sofre também essa permanente transformação.
Devido a essa permanente vibração, tendo como consequência a permanente transformação, a impermanência surge como o estado natural de toda a Criação, seja no macrocosmos ou no microcosmos. Nada permanece igual por mais de um milionésimo de segundo. Esta é uma lei universal que temos muita dificuldade em compreender e aceitar – vejam-se os esforços desesperados contra o envelhecimento através de cirurgias e outras aplicações plásticas.
As religiões têm tido um papel importante no sentido de trazer algum conforto a essa angústia prometendo várias coisas depois da morte, situação que a generalidade das pessoas teme acima de tudo. A ressurreição dos mortos, a reencarnação (em termos espíritas), a entrada no “reino dos céus” ou no paraíso como recompensa para actos praticados em vida (cristianismo e islamismo), são algumas das promessas em que as pessoas tendem em acreditar. No entanto, apesar de tudo, o medo da morte persiste.
O medo da morte é um sentimento que garante a sobrevivência da espécie, pois se não houvesse esse medo não sei como seria o comportamento geral das pessoas. Há quem não tenha medo da morte, nomeadamente os iniciados, pois sabem que a morte é apenas a passagem de um estado para outro estado, por isso lhe chamam transição. Em termos actuais, de acordo com as últimas teorias científicas de que já falámos acima, será a passagem para uma outra dimensão, onde não sabemos se a impermanência permanece.
Um sentimento que procura atenuar essa angústia da morte é a esperança. Esperança em dias melhores que façam esquecer a incapacidade de aceitar a impermanência; esperança numa outra vida onde não haja sofrimento; esperança de que afinal, as coisas vão sempre melhorar. Sabemos que nem sempre acontece assim, ou quase nunca acontece assim – a esperança acaba por se revelar uma grande e enganadora ilusão. Para os gregos da antiguidade a esperança era algo de ruim, pois a esperança fora a única coisa que ficara no fundo da “Caixa de Pandora” quando esta a abriu e espalhou todos os males pelo mundo. Se a “Caixa” continha todos os males e não há ideia de que contivesse outras coisas além dos males, então a esperança também era um mal. Porque a esperança induz à ilusão de um futuro melhor, quando na verdade esse futuro será sempre o resultado do que fizermos agora.
A impermanência é a única permanência a que estamos sujeitos. Será que não existe nada permanente? Ignorando uma eventual resposta de que Deus é permanente, esta pergunta é um desafio que aqui deixo para quem quiser responder e comentar.
A pouco e pouco a ciência tem vindo a comprovar, cada vez com maiores evidências, o que os Antigos sabiam e que foi sendo transmitido de boca a ouvido ao longo dos séculos: tudo é vibração, tudo é energia. Depois da Física Quântica ter demonstrado que a matéria é um vastíssimo campo de energia onde acontecem as coisas mais extraordinárias, veio agora a “Teoria das Cordas” defender que a origem da matéria está justamente nessas pequeníssimas fontes de energia. Assim, parece já não haver nenhuma dúvida hoje de que tudo está em permanente transformação. Mesmo os materiais mais duros e que nos parecem indestrutíveis, estão em transformação resultante da vibração dos seus átomos, os quais vibram em frequências originadas pela sua constituição atómica. Isto aplica-se a toda a matéria e a todos os seres vivos, inclusive aos seres humanos, cujo corpo sofre também essa permanente transformação.
Devido a essa permanente vibração, tendo como consequência a permanente transformação, a impermanência surge como o estado natural de toda a Criação, seja no macrocosmos ou no microcosmos. Nada permanece igual por mais de um milionésimo de segundo. Esta é uma lei universal que temos muita dificuldade em compreender e aceitar – vejam-se os esforços desesperados contra o envelhecimento através de cirurgias e outras aplicações plásticas.
As religiões têm tido um papel importante no sentido de trazer algum conforto a essa angústia prometendo várias coisas depois da morte, situação que a generalidade das pessoas teme acima de tudo. A ressurreição dos mortos, a reencarnação (em termos espíritas), a entrada no “reino dos céus” ou no paraíso como recompensa para actos praticados em vida (cristianismo e islamismo), são algumas das promessas em que as pessoas tendem em acreditar. No entanto, apesar de tudo, o medo da morte persiste.
O medo da morte é um sentimento que garante a sobrevivência da espécie, pois se não houvesse esse medo não sei como seria o comportamento geral das pessoas. Há quem não tenha medo da morte, nomeadamente os iniciados, pois sabem que a morte é apenas a passagem de um estado para outro estado, por isso lhe chamam transição. Em termos actuais, de acordo com as últimas teorias científicas de que já falámos acima, será a passagem para uma outra dimensão, onde não sabemos se a impermanência permanece.
Um sentimento que procura atenuar essa angústia da morte é a esperança. Esperança em dias melhores que façam esquecer a incapacidade de aceitar a impermanência; esperança numa outra vida onde não haja sofrimento; esperança de que afinal, as coisas vão sempre melhorar. Sabemos que nem sempre acontece assim, ou quase nunca acontece assim – a esperança acaba por se revelar uma grande e enganadora ilusão. Para os gregos da antiguidade a esperança era algo de ruim, pois a esperança fora a única coisa que ficara no fundo da “Caixa de Pandora” quando esta a abriu e espalhou todos os males pelo mundo. Se a “Caixa” continha todos os males e não há ideia de que contivesse outras coisas além dos males, então a esperança também era um mal. Porque a esperança induz à ilusão de um futuro melhor, quando na verdade esse futuro será sempre o resultado do que fizermos agora.
A impermanência é a única permanência a que estamos sujeitos. Será que não existe nada permanente? Ignorando uma eventual resposta de que Deus é permanente, esta pergunta é um desafio que aqui deixo para quem quiser responder e comentar.
Domingo, 2 de Outubro de 2011
Cadernos Esotéricos
Conversas com Samuel Dalatando
II – Maria Madalena – 2ª Parte
Samuel estava sentado numa das escadas, chapéu na cabeça por causa do Sol e olhava a pequena multidão que passava em grande algazarra com um sorriso onde se notava uma certa ironia.
- Divertindo-se com o que vê? – Perguntei.
- Um pouco. Estava tentando imaginar o que trouxe a maior parte desta gente aqui a Compostela.
- Fé! – Respondi.
- Fé? Pode ser que haja alguma. Existe muita curiosidade, talvez alguma crença e muita esperança de que algo de extraordinário aconteça. Talvez esperem ver, por alguma espécie de milagre, o Santiago passeando-se por estas bandas.
- Não foi por aqui que ele andou? – Perguntei sorrindo.
- Não sei. Parece que o Tiago que aqui é venerado nunca saiu de Jerusalém.
- Mas toda essa história do cadáver ter aparecido na ria coberto de vieiras, junto de um barco que teria aqui chegado à deriva…
- Pois é. O cadáver devia ser daquele bispo herege, como se chamava ele?
- Não me lembro do nome, mas sei de quem está a falar. Então esta história toda do Santiago é uma fraude…
- Sim. A história como é contada é sem dúvida falsa. Este “Caminho” é muito anterior à chegada do cristianismo a estas paragens. Mas você sabe isto.
- É verdade. Figo imaginando o que esses “peregrinos”, se lhes podemos chamar assim, procuravam no “Caminho”, e o que eles buscavam no cabo Finisterra.
- Mistérios, meu amigo. Mistérios.
Sentei-me junto dele olhando as pessoas que passavam e pareciam divertir-se tirando fotos uns aos outros.
- Santiago é um nome estranho – disse eu, – parece que é a contracção de Santo com Iago ou Yago, mas esse nome não tem correspondência nas outras línguas e muito menos no hebraico, de onde suponho ele tenha sido originado. Por exemplo, segundo alguns linguistas, Tiago e Jaime têm origem indirecta no latim “Iacobus”, que é o Jacob em hebraico e o nosso Jacó. Como é que Jacó deu Tiago? Em inglês é James, que é o mesmo que o nosso Jaime, mas em francês, outra coisa estranha, é Jacques.
- De facto é estranho, concordo. Mas não é Santiago o patrono dos alquimistas? Portanto, em alquimia tudo se transforma, não é verdade?
Percebi que ele estava a brincar, mas era verdade, Santiago é o patrono dos alquimistas, entre outras coisas.
- Ele é geralmente mostrado em estátuas e pinturas com um livro nas mãos, o que quer dizer que, além de ser o patrono dos alquimistas, é o símbolo do conhecimento, não é verdade? – Disse eu.
- Assim parece. – Concordou Samuel. – Por isso este “Caminho” foi percorrido por peregrinos desde a mais remota antiguidade. Antes da cristianização, o que é que os caminhantes buscavam? Conhecimento? Se era isso, quem eram os mestres? Os Iago? Aqueles que foram chamados para construir o Templo de Salomão, segundo a lenda maçónica? Os hebreus eram um povo nómada, viviam em tendas, pastoreavam rebanhos, não sabiam trabalhar a pedra. Mas os Iago sabiam, eram mestres no tratamento da pedra.
Ficámos ali sentados durante algum tempo olhando o vaivém das pessoas que não paravam de caminhar nas ruas ao redor da catedral, como se de um ritual mágico inconsciente se tratasse. Olhei aquelas lajes da calçada, onde não era permitido o trânsito de carros, apenas para cargas e descargas, e pensei em quanto de história aquelas velhas pedras não teriam sido testemunhas. Quantos bruxos e bruxas não teriam sido perseguidos pela Igreja omnipotente, de cujo poder ressaltava o esplendor da catedral. Gostava de passear naquelas ruas estreitas olhando as velhas pedras e as lojas de recordações com as suas bruxas montadas em vassouras voando sobre fios de corda e rostos amigáveis atrás dos balcões, espreitar para o interior escuro das tabernas e ouvir o som das gaitas de foles, da música tradicional galega, herança celta presente nas tradições pagãs ainda vivas, apesar da hegemonia de séculos da Igreja Católica.
Eu não sabia na altura que bem próximo da catedral havia uma igreja dedicada a Maria Madalena, só o soube bem mais tarde. Não sei se estaria aberta ao público ou se conteria no seu interior alguma coisa interessante, julgo que não. Seria uma das quarenta e seis igrejas existentes em Santiago de Compostela.
Samuel propôs irmos petiscar o polvo à galega num local que ele conhecia e que não era longe, umas ruas adiante e que, segundo ele, servia o melhor polvo da Galiza. Exagero dele, mas na verdade o polvo estava delicioso. Foi nessa altura, depois de também saborearmos um vinho tinto da casa, que encetei a conversa sobre Maria Madalena.
- Você acha que há alguma verdade nessa história de Maria Madalena e do grupo que a acompanhava desde Jerusalém e que terá desembarcado no sul de França? Haverá alguma verdade dela ter sido casada com Jesus e ter dado origem à chamada “Linhagem Sagrada”, a dinastia Merovíngia?
Samuel olhou-me com uma espécie de sorriso trocista, dando a entender que a minha pergunta trazia “água no bico”.
- Você quer saber o que é que eu penso ou quer que eu confirme o que já sabe?
- Depende do que disser… - respondi sorrindo também.
- Sim, acho que há alguma verdade nessa história toda, e há ainda muita coisa oculta que ainda não conseguimos desvendar. Por outro lado, acho também que há muito de imaginário em livros que têm sido publicados a respeito deste assunto. Era isto que estava à espera que eu dissesse?
- Sim, mais ou menos isso, porque sei que o Samuel se interessa há algum tempo por essa história. Mas disse que ainda há muita coisa oculta. O quê, por exemplo?
- O quê? Ora vamos ver… Quem é que acha que era José de Arimateia?
Fiquei surpreso com a pergunta. Ora quem é que seria José de Arimateia, uma figura algo enigmática, mas mesmo assim perfeitamente identificado no Novo Testamento.
- Penso que era um membro do Sinédrio, discípulo oculto de Jesus, rico e proprietário do túmulo para onde terão levado o corpo de Jesus e de onde ressuscitou conforme os Evangelhos. – Respondi.
- Muito bem. Ele chamar-se-ia José de Arimateia porque se supõe que era de Arimateia, talvez uma aldeia da Judeia da altura. Mas acho que ninguém sabe onde ficava essa tal de Arimateia. Por outro lado, como é que alguém podia ser um discípulo oculto de Jesus? Já pensou nisso?
- De facto devia ser muito difícil na altura manter-se oculto, se é que era realmente um discípulo…
- Pois bem, segundo algumas interpretações, José não era o nome de uma pessoa, mas uma espécie de título nobiliário.
- Como? – Estranhei.
- Parece que José era um título patriarcal que indicava o herdeiro directo da Casa de David.
- Mas esse herdeiro não era Jesus?
- Sim, e José seria o herdeiro directo dele.
- Então quem era, na verdade, José de Arimateia? – Perguntei, não muito convencido desta teoria, inteiramente nova para mim.
- José de Arimateia seria então Tiago, irmão de Jesus.
- Qual Tiago? O Maior, o Menor ou o Justo?
- Julgo que seria o Maior.
- Então o Santiago daqui, de Compostela, seria o José de Arimateia, que teria levado o Santo Graal para Inglaterra, depois de ter passado pela Ibéria?
- Pois é! Não é estranha toda esta história?
- E há alguma confirmação dela?
- É claro que não. Nós estamos aqui em Compostela, e no que é que esta gente toda acredita? Que o túmulo de Tiago está ali debaixo do altar-mor, que ele andou por aqui a doutrinar as gentes da Galiza e que o Caminho é uma criação da Igreja. Por outro lado, os cépticos dizem que nada disso é verdade, que Tiago foi decapitado em Jerusalém por Herodes.
- Então onde é que está a verdade?
- Você sabe que a verdade é algo muito difícil de estabelecer. Porque as visões mudam conforme os interesses em jogo. Para a Igreja, Tiago andou por aqui, e isso é o que importa; para os historiadores não há muitos documentos, e os que existem também não são muito fiáveis, pois passámos séculos a adulterar e a criar documentos falsos. Restam-nos os mitos, que muitas vezes, por incrível que pareça, podem conter mais verdade do que todas as outras situações, porque os mitos, geralmente, baseiam-se em factos verdadeiros.
- De acordo. Mas também é verdade que os mitos foram muitas vezes utilizados para justificar determinadas situações, ou para apoiar outras.
- Sem dúvida. Mas os mitos nunca são fraudes – são sempre relatos mais ou menos fantásticos de determinados eventos que efectivamente aconteceram. Podem ser modificados ao longo do tempo pelo imaginário de cada um, que lhe vai acrescentando mais do que retirando pormenores, e pode acontecer que fique completamente desvirtuado em relação à sua origem, mas nunca será uma fraude. Fraude á o que a arqueologia, a religião e a política têm criado ao longo dos séculos, para servir apenas interesses próprios.
- A arqueologia também?
- Sim, também a arqueologia. Basta olhar para o que a arqueologia criou acerca do Egipto Antigo. Os chamados “egiptólogos” especializaram-se em criar teorias cuja comprovação nunca conseguiram, no entanto são-lhes creditadas essas teorias como se fossem descobertas notáveis. Na verdade não passam de fraudes.
- Voltando aos mitos… Esse mito de Maria Madalena…
- Para mim há uma verdade fundamental em toda essa história. Há muita coisa que a Igreja tem tentado ocultar, às vezes com bastante sucesso, mas essa ocultação não resiste a um estudo sério e desapaixonado. Primeiro que tudo não é nada provável que Jesus não fosse casado, pois para as leis judaicas da altura um homem da idade dele não seria visto com bons olhos se se mantivesse solteiro. João informa-nos do seu casamento no episódio das “Bodas de Canaan”, em que Jesus transforma a água em vinho.
- Mas o Evangelho de João diz que Jesus e sua mãe, Maria, eram convidados nesse casamento.
- É verdade. Mas esse episódio é o primeiro milagre relatado por João. Ora bem, se Jesus era convidado porque é que Maria, sua mãe, lhe diz que faltou o vinho? Ela já sabia que ele podia fazer um milagre, ou Jesus era o anfitrião, portanto o noivo, e cabia a ele providenciar o vinho para os convidados?
- Bem visto. Eu também já tinha pensado nisso.
- Não tenho dúvidas de que esse casamento era o do próprio Jesus, e a noiva seria, como tudo leva a crer, Maria Madalena, uma vez que era a discípula mais próxima do Mestre, uma situação que nem a própria Igreja hoje se atreve a contestar.
- De acordo, Jesus e Madalena eram casados. Julgo que a vinda para a Europa de vários membros ligados a ele se prende com todo um drama que se desenrolou em Jerusalém, cujo relato só conhecemos pelos Evangelhos, mas que na verdade não sabemos o que realmente aconteceu.
- É bem provável que José de Arimateia fosse o irmão de Jesus, Tiago, que de acordo com a tradição terá ido para Inglaterra, onde teria fundado uma abadia em Glastonbury, onde estaria também escondido o Santo Graal.
- Mas o Santo Graal não era o ventre grávido de Madalena?
- Essa é uma das interpretações. Se era um cálice, é interessante verificar que no fresco “A Última Ceia” de Leonardo Da Vinci não se vê um único cálice sobre a mesa. Mas saber o que era realmente o Santo Graal não importa muito. Sei que Maria Madalena veio para a Europa e sei onde estão os seus restos mortais.
- Quer dizer que o seu túmulo foi descoberto realmente pelo padre Saunière em Rennes-le-Château?
- Sim. O padre Saunière foi obrigado a calar-se por imposição da Igreja e não correu mais riscos porque na época a Igreja e a classe política em França não se entendiam e eram mesmo inimigos. Os vários governos republicanos foram diminuindo drasticamente o poder da Igreja e isso talvez tenha salvo a vida de Saunière.
Nesta altura já íamos no terceiro prato de polvo à galega e no segundo jarro de vinho. Samuel acabara de me dizer que sabia onde estavam os restos mortais de Madalena. Sei que Samuel mantinha relações de amizade com alguns dos mais proeminentes membros de governos franceses, principalmente do tempo de François Miterrand. O túmulo descoberto por Saunière fora guardado pelo governo francês e mantido algures como segredo de Estado, até que Miterrand resolvera dar-lhe um destino mais digno. Dan Brown, apesar da polémica gerada pelo livro, dá-nos uma clara pista da localização dos restos mortais de Madalena em “O Código Da Vinci”. Não é por acaso que ele termina esse livro dizendo: “A demanda do Santo Graal é literalmente uma demanda para ajoelhar diante dos ossos de Maria Madalena. Uma jornada para rezar aos pés da ostracizada”.
Muito antes de Dan Brown, Samuel revelou-me em segredo a localização exacta do túmulo de Madalena. Faltava-me ainda falar de Pierre Plantard e de toda a história do Priorado do Sião, supostamente uma organização secreta para preservar e defender a descendência de Jesus e Madalena. Mas, para surpresa daqueles que queriam acreditar que o Priorado do Sião era uma organização secreta que vinha desde os primórdios de cristianismo defendendo a presumível descendência de Jesus e Madalena, eis que os documentos depositados na Biblioteca de Paris se revelaram falsos e Plantard acabou por confessar que inventara tudo, pois o próprio Priorado do Sião fora registado em França por alturas dos anos 50 do século passado.
Mas teria existido, ou existiria ainda, esse Priorado do Sião, por este ou qualquer outro nome, Ordem secreta que teria dado origem à Ordem do Templo? Neste momento recordo as palavras de Raymond Bernard no seu livro “As Mansões Secretas da Rosacruz”:
“É assim que, a mando das onze altas esferas e, em ocasiões de importância excepcional, a mando geral das onze altas esferas, missionados foram enviados ao mundo e a certas organizações para trazer os perdidos de volta ao bom caminho. Foi também das onze altas esferas secretas que partiram os grandes movimentos cujo fim era reunir o que estava disperso ou dar novamente corpo a um egrégoro para o qual era chegado o momento de reviver, de ressurgir ao serviço da humanidade.
Foi nesta alta esfera secreta onde agora estamos , nesta cripta ferrata, que foi decidida a constituição da Ordem do Templo. Vejo a vossa estupefacção, mas esta revelação tinha que ser feita, tinha que ser feita hoje, esta noite e aqui, pois os tempos são vindos”.
Estas foram as palavras daquele que Bernard designa como “Cardeal Branco” e que para ele era o mais alto dignitário secreto da Ordem do Templo.
A noite aproximava-se com o Sol a tombar para ocidente, para o lugar que os peregrinos de antanho buscavam, talvez na esperança de receber alguma luz desse conhecimento antigo que repousava há milénios no fundo do Atlântico. Para a tradição esotérica esse conhecimento tinha sido preservado e guardado nas Escolas de Mistérios do Egipto antigo, transmitido mais tarde para grupos gnósticos e destes, para a essência do cristianismo.
Resolvemos pedir mais um jarro de vinho, enquanto eu pensava na forma de abordar a questão do Priorado do Sião.
- O que é que acha da história do Priorado do Sião e de Pierre Plantard? – Perguntei por fim.
Samuel olhou-me com curiosidade, tentando talvez adivinhar onde é que eu queria chegar.
- Você sabe que tudo não passou de uma fraude. – Respondeu.
- De acordo, mas será quer tudo se limitou a essa fraude perpetrada por Pierre Plantard?
- É claro que não, só os ingénuos podem acreditar que tudo se limitou à expressão exacerbada do ego desse senhor, que se dizia herdeiro legítimo do trono da França pela linha merovíngia.
- Eu tenho uma teoria sobre esse assunto, pois sempre achei que há qualquer coisa de errado com toda essa história.
- Uma teoria? Vamos ouvi-la. – Disse Samuel.
- Plantard era um homem inteligente, esteve sempre ligado à publicação de revistas, portanto era alguém também com bastante cultura. Sendo assim, não faz muito sentido que ele tenha falsificado todos aqueles documentos que depositou na Biblioteca de Paris, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, a falsificação iria ser descoberta.
- Sim, concordo. Realmente não faz muito sentido.
- Plantard era católico, ligado ao catolicismo mais conservador da França. Pela mesma razão era também simpatizante do nazismo, com que terá colaborado quando da invasão da França.
- Hum… estou a ver onde quer chegar…
- Qual a melhor maneira de denegrir e fazer cair no ridículo uma história?
Os olhos de Samuel brilharam ao responder.
- Criar uma história, cuja falsidade possa ser facilmente verificada. Faz todo o sentido. A Igreja era a grande interessada em fazer cair o assunto no ridículo, que foi o que aconteceu, pois houve logo uma montanha de críticas que se abateram sobre Plantard e sobre toda essa questão de Maria Madalena, mais o Priorado do Sião. Sim, meu amigo, acho que você não deverá estar muito longe da verdade.
A noite tinha caído sobre as velhas ruas de Santiago de Compostela. Saímos do pequeno restaurante e mergulhámos na multidão que continuava a apinhar as cercanias da catedral. Caminhámos em direcção ao hotel em que ambos estávamos hospedados e que distava uns bons dois quilómetros. Uma brisa fresca batia-nos no rosto e era agradável senti-la para desanuviar um pouco os vapores do álcool ingerido na forma de vinho galego. Esta foi a última vez que encontrei Samuel em Santiago de Compostela.
II – Maria Madalena – 2ª Parte
Samuel estava sentado numa das escadas, chapéu na cabeça por causa do Sol e olhava a pequena multidão que passava em grande algazarra com um sorriso onde se notava uma certa ironia.
- Divertindo-se com o que vê? – Perguntei.
- Um pouco. Estava tentando imaginar o que trouxe a maior parte desta gente aqui a Compostela.
- Fé! – Respondi.
- Fé? Pode ser que haja alguma. Existe muita curiosidade, talvez alguma crença e muita esperança de que algo de extraordinário aconteça. Talvez esperem ver, por alguma espécie de milagre, o Santiago passeando-se por estas bandas.
- Não foi por aqui que ele andou? – Perguntei sorrindo.
- Não sei. Parece que o Tiago que aqui é venerado nunca saiu de Jerusalém.
- Mas toda essa história do cadáver ter aparecido na ria coberto de vieiras, junto de um barco que teria aqui chegado à deriva…
- Pois é. O cadáver devia ser daquele bispo herege, como se chamava ele?
- Não me lembro do nome, mas sei de quem está a falar. Então esta história toda do Santiago é uma fraude…
- Sim. A história como é contada é sem dúvida falsa. Este “Caminho” é muito anterior à chegada do cristianismo a estas paragens. Mas você sabe isto.
- É verdade. Figo imaginando o que esses “peregrinos”, se lhes podemos chamar assim, procuravam no “Caminho”, e o que eles buscavam no cabo Finisterra.
- Mistérios, meu amigo. Mistérios.
Sentei-me junto dele olhando as pessoas que passavam e pareciam divertir-se tirando fotos uns aos outros.
- Santiago é um nome estranho – disse eu, – parece que é a contracção de Santo com Iago ou Yago, mas esse nome não tem correspondência nas outras línguas e muito menos no hebraico, de onde suponho ele tenha sido originado. Por exemplo, segundo alguns linguistas, Tiago e Jaime têm origem indirecta no latim “Iacobus”, que é o Jacob em hebraico e o nosso Jacó. Como é que Jacó deu Tiago? Em inglês é James, que é o mesmo que o nosso Jaime, mas em francês, outra coisa estranha, é Jacques.
- De facto é estranho, concordo. Mas não é Santiago o patrono dos alquimistas? Portanto, em alquimia tudo se transforma, não é verdade?
Percebi que ele estava a brincar, mas era verdade, Santiago é o patrono dos alquimistas, entre outras coisas.
- Ele é geralmente mostrado em estátuas e pinturas com um livro nas mãos, o que quer dizer que, além de ser o patrono dos alquimistas, é o símbolo do conhecimento, não é verdade? – Disse eu.
- Assim parece. – Concordou Samuel. – Por isso este “Caminho” foi percorrido por peregrinos desde a mais remota antiguidade. Antes da cristianização, o que é que os caminhantes buscavam? Conhecimento? Se era isso, quem eram os mestres? Os Iago? Aqueles que foram chamados para construir o Templo de Salomão, segundo a lenda maçónica? Os hebreus eram um povo nómada, viviam em tendas, pastoreavam rebanhos, não sabiam trabalhar a pedra. Mas os Iago sabiam, eram mestres no tratamento da pedra.
Ficámos ali sentados durante algum tempo olhando o vaivém das pessoas que não paravam de caminhar nas ruas ao redor da catedral, como se de um ritual mágico inconsciente se tratasse. Olhei aquelas lajes da calçada, onde não era permitido o trânsito de carros, apenas para cargas e descargas, e pensei em quanto de história aquelas velhas pedras não teriam sido testemunhas. Quantos bruxos e bruxas não teriam sido perseguidos pela Igreja omnipotente, de cujo poder ressaltava o esplendor da catedral. Gostava de passear naquelas ruas estreitas olhando as velhas pedras e as lojas de recordações com as suas bruxas montadas em vassouras voando sobre fios de corda e rostos amigáveis atrás dos balcões, espreitar para o interior escuro das tabernas e ouvir o som das gaitas de foles, da música tradicional galega, herança celta presente nas tradições pagãs ainda vivas, apesar da hegemonia de séculos da Igreja Católica.
Eu não sabia na altura que bem próximo da catedral havia uma igreja dedicada a Maria Madalena, só o soube bem mais tarde. Não sei se estaria aberta ao público ou se conteria no seu interior alguma coisa interessante, julgo que não. Seria uma das quarenta e seis igrejas existentes em Santiago de Compostela.
Samuel propôs irmos petiscar o polvo à galega num local que ele conhecia e que não era longe, umas ruas adiante e que, segundo ele, servia o melhor polvo da Galiza. Exagero dele, mas na verdade o polvo estava delicioso. Foi nessa altura, depois de também saborearmos um vinho tinto da casa, que encetei a conversa sobre Maria Madalena.
- Você acha que há alguma verdade nessa história de Maria Madalena e do grupo que a acompanhava desde Jerusalém e que terá desembarcado no sul de França? Haverá alguma verdade dela ter sido casada com Jesus e ter dado origem à chamada “Linhagem Sagrada”, a dinastia Merovíngia?
Samuel olhou-me com uma espécie de sorriso trocista, dando a entender que a minha pergunta trazia “água no bico”.
- Você quer saber o que é que eu penso ou quer que eu confirme o que já sabe?
- Depende do que disser… - respondi sorrindo também.
- Sim, acho que há alguma verdade nessa história toda, e há ainda muita coisa oculta que ainda não conseguimos desvendar. Por outro lado, acho também que há muito de imaginário em livros que têm sido publicados a respeito deste assunto. Era isto que estava à espera que eu dissesse?
- Sim, mais ou menos isso, porque sei que o Samuel se interessa há algum tempo por essa história. Mas disse que ainda há muita coisa oculta. O quê, por exemplo?
- O quê? Ora vamos ver… Quem é que acha que era José de Arimateia?
Fiquei surpreso com a pergunta. Ora quem é que seria José de Arimateia, uma figura algo enigmática, mas mesmo assim perfeitamente identificado no Novo Testamento.
- Penso que era um membro do Sinédrio, discípulo oculto de Jesus, rico e proprietário do túmulo para onde terão levado o corpo de Jesus e de onde ressuscitou conforme os Evangelhos. – Respondi.
- Muito bem. Ele chamar-se-ia José de Arimateia porque se supõe que era de Arimateia, talvez uma aldeia da Judeia da altura. Mas acho que ninguém sabe onde ficava essa tal de Arimateia. Por outro lado, como é que alguém podia ser um discípulo oculto de Jesus? Já pensou nisso?
- De facto devia ser muito difícil na altura manter-se oculto, se é que era realmente um discípulo…
- Pois bem, segundo algumas interpretações, José não era o nome de uma pessoa, mas uma espécie de título nobiliário.
- Como? – Estranhei.
- Parece que José era um título patriarcal que indicava o herdeiro directo da Casa de David.
- Mas esse herdeiro não era Jesus?
- Sim, e José seria o herdeiro directo dele.
- Então quem era, na verdade, José de Arimateia? – Perguntei, não muito convencido desta teoria, inteiramente nova para mim.
- José de Arimateia seria então Tiago, irmão de Jesus.
- Qual Tiago? O Maior, o Menor ou o Justo?
- Julgo que seria o Maior.
- Então o Santiago daqui, de Compostela, seria o José de Arimateia, que teria levado o Santo Graal para Inglaterra, depois de ter passado pela Ibéria?
- Pois é! Não é estranha toda esta história?
- E há alguma confirmação dela?
- É claro que não. Nós estamos aqui em Compostela, e no que é que esta gente toda acredita? Que o túmulo de Tiago está ali debaixo do altar-mor, que ele andou por aqui a doutrinar as gentes da Galiza e que o Caminho é uma criação da Igreja. Por outro lado, os cépticos dizem que nada disso é verdade, que Tiago foi decapitado em Jerusalém por Herodes.
- Então onde é que está a verdade?
- Você sabe que a verdade é algo muito difícil de estabelecer. Porque as visões mudam conforme os interesses em jogo. Para a Igreja, Tiago andou por aqui, e isso é o que importa; para os historiadores não há muitos documentos, e os que existem também não são muito fiáveis, pois passámos séculos a adulterar e a criar documentos falsos. Restam-nos os mitos, que muitas vezes, por incrível que pareça, podem conter mais verdade do que todas as outras situações, porque os mitos, geralmente, baseiam-se em factos verdadeiros.
- De acordo. Mas também é verdade que os mitos foram muitas vezes utilizados para justificar determinadas situações, ou para apoiar outras.
- Sem dúvida. Mas os mitos nunca são fraudes – são sempre relatos mais ou menos fantásticos de determinados eventos que efectivamente aconteceram. Podem ser modificados ao longo do tempo pelo imaginário de cada um, que lhe vai acrescentando mais do que retirando pormenores, e pode acontecer que fique completamente desvirtuado em relação à sua origem, mas nunca será uma fraude. Fraude á o que a arqueologia, a religião e a política têm criado ao longo dos séculos, para servir apenas interesses próprios.
- A arqueologia também?
- Sim, também a arqueologia. Basta olhar para o que a arqueologia criou acerca do Egipto Antigo. Os chamados “egiptólogos” especializaram-se em criar teorias cuja comprovação nunca conseguiram, no entanto são-lhes creditadas essas teorias como se fossem descobertas notáveis. Na verdade não passam de fraudes.
- Voltando aos mitos… Esse mito de Maria Madalena…
- Para mim há uma verdade fundamental em toda essa história. Há muita coisa que a Igreja tem tentado ocultar, às vezes com bastante sucesso, mas essa ocultação não resiste a um estudo sério e desapaixonado. Primeiro que tudo não é nada provável que Jesus não fosse casado, pois para as leis judaicas da altura um homem da idade dele não seria visto com bons olhos se se mantivesse solteiro. João informa-nos do seu casamento no episódio das “Bodas de Canaan”, em que Jesus transforma a água em vinho.
- Mas o Evangelho de João diz que Jesus e sua mãe, Maria, eram convidados nesse casamento.
- É verdade. Mas esse episódio é o primeiro milagre relatado por João. Ora bem, se Jesus era convidado porque é que Maria, sua mãe, lhe diz que faltou o vinho? Ela já sabia que ele podia fazer um milagre, ou Jesus era o anfitrião, portanto o noivo, e cabia a ele providenciar o vinho para os convidados?
- Bem visto. Eu também já tinha pensado nisso.
- Não tenho dúvidas de que esse casamento era o do próprio Jesus, e a noiva seria, como tudo leva a crer, Maria Madalena, uma vez que era a discípula mais próxima do Mestre, uma situação que nem a própria Igreja hoje se atreve a contestar.
- De acordo, Jesus e Madalena eram casados. Julgo que a vinda para a Europa de vários membros ligados a ele se prende com todo um drama que se desenrolou em Jerusalém, cujo relato só conhecemos pelos Evangelhos, mas que na verdade não sabemos o que realmente aconteceu.
- É bem provável que José de Arimateia fosse o irmão de Jesus, Tiago, que de acordo com a tradição terá ido para Inglaterra, onde teria fundado uma abadia em Glastonbury, onde estaria também escondido o Santo Graal.
- Mas o Santo Graal não era o ventre grávido de Madalena?
- Essa é uma das interpretações. Se era um cálice, é interessante verificar que no fresco “A Última Ceia” de Leonardo Da Vinci não se vê um único cálice sobre a mesa. Mas saber o que era realmente o Santo Graal não importa muito. Sei que Maria Madalena veio para a Europa e sei onde estão os seus restos mortais.
- Quer dizer que o seu túmulo foi descoberto realmente pelo padre Saunière em Rennes-le-Château?
- Sim. O padre Saunière foi obrigado a calar-se por imposição da Igreja e não correu mais riscos porque na época a Igreja e a classe política em França não se entendiam e eram mesmo inimigos. Os vários governos republicanos foram diminuindo drasticamente o poder da Igreja e isso talvez tenha salvo a vida de Saunière.
Nesta altura já íamos no terceiro prato de polvo à galega e no segundo jarro de vinho. Samuel acabara de me dizer que sabia onde estavam os restos mortais de Madalena. Sei que Samuel mantinha relações de amizade com alguns dos mais proeminentes membros de governos franceses, principalmente do tempo de François Miterrand. O túmulo descoberto por Saunière fora guardado pelo governo francês e mantido algures como segredo de Estado, até que Miterrand resolvera dar-lhe um destino mais digno. Dan Brown, apesar da polémica gerada pelo livro, dá-nos uma clara pista da localização dos restos mortais de Madalena em “O Código Da Vinci”. Não é por acaso que ele termina esse livro dizendo: “A demanda do Santo Graal é literalmente uma demanda para ajoelhar diante dos ossos de Maria Madalena. Uma jornada para rezar aos pés da ostracizada”.
Muito antes de Dan Brown, Samuel revelou-me em segredo a localização exacta do túmulo de Madalena. Faltava-me ainda falar de Pierre Plantard e de toda a história do Priorado do Sião, supostamente uma organização secreta para preservar e defender a descendência de Jesus e Madalena. Mas, para surpresa daqueles que queriam acreditar que o Priorado do Sião era uma organização secreta que vinha desde os primórdios de cristianismo defendendo a presumível descendência de Jesus e Madalena, eis que os documentos depositados na Biblioteca de Paris se revelaram falsos e Plantard acabou por confessar que inventara tudo, pois o próprio Priorado do Sião fora registado em França por alturas dos anos 50 do século passado.
Mas teria existido, ou existiria ainda, esse Priorado do Sião, por este ou qualquer outro nome, Ordem secreta que teria dado origem à Ordem do Templo? Neste momento recordo as palavras de Raymond Bernard no seu livro “As Mansões Secretas da Rosacruz”:
“É assim que, a mando das onze altas esferas e, em ocasiões de importância excepcional, a mando geral das onze altas esferas, missionados foram enviados ao mundo e a certas organizações para trazer os perdidos de volta ao bom caminho. Foi também das onze altas esferas secretas que partiram os grandes movimentos cujo fim era reunir o que estava disperso ou dar novamente corpo a um egrégoro para o qual era chegado o momento de reviver, de ressurgir ao serviço da humanidade.
Foi nesta alta esfera secreta onde agora estamos , nesta cripta ferrata, que foi decidida a constituição da Ordem do Templo. Vejo a vossa estupefacção, mas esta revelação tinha que ser feita, tinha que ser feita hoje, esta noite e aqui, pois os tempos são vindos”.
Estas foram as palavras daquele que Bernard designa como “Cardeal Branco” e que para ele era o mais alto dignitário secreto da Ordem do Templo.
A noite aproximava-se com o Sol a tombar para ocidente, para o lugar que os peregrinos de antanho buscavam, talvez na esperança de receber alguma luz desse conhecimento antigo que repousava há milénios no fundo do Atlântico. Para a tradição esotérica esse conhecimento tinha sido preservado e guardado nas Escolas de Mistérios do Egipto antigo, transmitido mais tarde para grupos gnósticos e destes, para a essência do cristianismo.
Resolvemos pedir mais um jarro de vinho, enquanto eu pensava na forma de abordar a questão do Priorado do Sião.
- O que é que acha da história do Priorado do Sião e de Pierre Plantard? – Perguntei por fim.
Samuel olhou-me com curiosidade, tentando talvez adivinhar onde é que eu queria chegar.
- Você sabe que tudo não passou de uma fraude. – Respondeu.
- De acordo, mas será quer tudo se limitou a essa fraude perpetrada por Pierre Plantard?
- É claro que não, só os ingénuos podem acreditar que tudo se limitou à expressão exacerbada do ego desse senhor, que se dizia herdeiro legítimo do trono da França pela linha merovíngia.
- Eu tenho uma teoria sobre esse assunto, pois sempre achei que há qualquer coisa de errado com toda essa história.
- Uma teoria? Vamos ouvi-la. – Disse Samuel.
- Plantard era um homem inteligente, esteve sempre ligado à publicação de revistas, portanto era alguém também com bastante cultura. Sendo assim, não faz muito sentido que ele tenha falsificado todos aqueles documentos que depositou na Biblioteca de Paris, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, a falsificação iria ser descoberta.
- Sim, concordo. Realmente não faz muito sentido.
- Plantard era católico, ligado ao catolicismo mais conservador da França. Pela mesma razão era também simpatizante do nazismo, com que terá colaborado quando da invasão da França.
- Hum… estou a ver onde quer chegar…
- Qual a melhor maneira de denegrir e fazer cair no ridículo uma história?
Os olhos de Samuel brilharam ao responder.
- Criar uma história, cuja falsidade possa ser facilmente verificada. Faz todo o sentido. A Igreja era a grande interessada em fazer cair o assunto no ridículo, que foi o que aconteceu, pois houve logo uma montanha de críticas que se abateram sobre Plantard e sobre toda essa questão de Maria Madalena, mais o Priorado do Sião. Sim, meu amigo, acho que você não deverá estar muito longe da verdade.
A noite tinha caído sobre as velhas ruas de Santiago de Compostela. Saímos do pequeno restaurante e mergulhámos na multidão que continuava a apinhar as cercanias da catedral. Caminhámos em direcção ao hotel em que ambos estávamos hospedados e que distava uns bons dois quilómetros. Uma brisa fresca batia-nos no rosto e era agradável senti-la para desanuviar um pouco os vapores do álcool ingerido na forma de vinho galego. Esta foi a última vez que encontrei Samuel em Santiago de Compostela.
Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Cadernos Esotéricos
Conversas com Samuel Dalatando
II – Maria Madalena – 1ª Parte
Encontrei Samuel em Santiago de Compostela, numa tarde quente de Junho, aguardando-me sentado na escadaria da entrada lateral da Catedral, aquela entrada que dá para uma pequena praça cujo nome não me lembro. Não era a primeira vez que nos encontrávamos em Santiago, pois tanto ele como eu éramos visitantes assíduos. Durante anos fui assistindo a um certo esmorecimento da tradição de Santiago que, a pouco e pouco se foi transformando numa espécie de feira turística, em que o que mais contava eram as recordações que se compravam nas inúmeras lojas para esse fim, e as fotos que se tiravam fora e dentro da catedral. O “Caminho” era feito, na sua maioria, pelos entusiastas que tinham lido o livro do Paulo Coelho “Diário de um Mago”, e que julgavam encontrar por aquelas serranias alguma espécie de milagre que desse sentido às suas vidas.
Pensava isto enquanto me dirigia ao encontro de Samuel, caminhando pela rua do Vilar, que desembocava quase na pequena praça onde combinara encontrar-me com ele. Pensava também que toda a história de Santiago não passava de um embuste, de uma tradição inventada sobre uma tradição mais antiga que levava o “Caminho” até bem mais além da catedral, até ao cabo Finisterra. A antiguidade do “Caminho” perdia-se no tempo, até uma época anterior aos celtas e talvez até anterior a esse povo misterioso que ocupava as altas terras de Ibéria chamado “lígure”.
Mas não era a história de Santiago que me despertava a curiosidade nessa altura. Ainda não tinha sido publicado o livro do Dan Brown, “O Código Da Vinci”, mas eu tinha lido o livro “Maria Madalena e o Santo Graal” de Margaret Starbird, e “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada”, de Michael Baigent, Richard Leigh Henry Lincoln. Teria, realmente, Maria Madalena, casado com Jesus e desse casamento ter nascido uma criança do sexo feminino chamada Sara?
Parece não haver dúvidas, pois as lendas não nascem do nada, de que após a presumível crucificação de Jesus, um barco transportando três Marias, Maria Madalena, Maria Jacobina, irmã de Maria, mãe de Jesus, e Maria Salomé, mãe de Tiago e João, teria aportado no sul de França, num local hoje conhecido como “Saintes-Maries de la Mer” (Santas Marias do Mar). Além da lenda, o nome desta localidade não pode ter aparecido por acaso. Sara estaria também nesse barco de fuga de Jerusalém e seria, segundo algumas lendas, uma escrava ao serviço de Jesus ou de Maria Madalena. Sara era negra e o seu culto insere-se na tradição das Virgens Negras. Este grupo teria sido recebido por ciganos e daí Sara ter-se tornado a sua padroeira.
Não consta em nenhum documento da época, nem em nenhum dos Evangelhos oficiais e apócrifos, que Maria Madalena ou Jesus tivessem uma escrava ao seu serviço. E não é credível que assim fosse. O mais que poderia ter acontecido era que Sara fosse uma das seguidoras de Jesus.
Mas se Sara era negra e filha de Jesus e Madalena, então, ou Jesus, ou Madalena, pelo menos um dos dois teria a cor negra, o que contraria em absoluto a crença de que ambos eram judeus. Mas será que eram mesmo judeus? De facto, as numerosas representações de Jesus ao longo dos últimos séculos, principalmente através de pintura, não mostram um homem com características judaicas.
Toda esta história parecia ter permanecido oculta ao longo dos séculos até ao dia em que um padre de uma pequena vila do sul de França, Rennes-le-Château, ao fazer obras na sua igreja teria encontrado um tesouro ali escondido pelos templários. Esse tesouro parecia tratar-se de documentos ou de uma prova de que Jesus e Madalena teriam tido descendentes os quais, chegados a França nessa viagem das três Marias, teriam posteriormente dado origem à dinastia Merovíngia, considerada linhagem sagrada por ser descendência de Jesus. Este achado ter-se-á passado em 1891, e o padre Bérenger Saunière terá enriquecido em função dessa descoberta, recebendo grandes somas de dinheiro para se manter calado e não revelar ao mundo o segredo que tinha encontrado, pois isso poderia abalar seriamente os alicerces da Igreja Católica, e do próprio Cristianismo.
Mas logo apareceu uma explicação para a súbita fortuna do padre Saunière: tratava-se de missas encomendadas de todo o mundo, pagas adiantadamente, tantas que o padre não teria nunca possibilidades de as realizar em vida. Estas encomendas de missas eram o resultado da publicidade que o padre Saunière fazia em jornais e revistas de todo o mundo.
Esta explicação sempre me pareceu estranha, pois não consigo imaginar um padre de uma remota igreja no sul de França a fazer publicidade para rezar missas em muitos jornais e revistas de vários países, alguns deles bem distantes como os E.U.A. e alguns países da América do Sul. Então esses países não tinham padres locais para rezar essas missas? Mais estranho ainda é o facto de que, apesar da explicação e do padre ter sido acusado de traficar as missas, nenhum dos supostos anúncios foi alguma vez encontrado. Para isto também se arranjou uma explicação: os anúncios eram publicados em suplementos de revistas e jornais, que eram normalmente utilizados para acender fogos de lareiras ou simplesmente jogados fora (!?).
Para provar que o dinheiro provinha realmente dessas missas encomendadas, encontrou-se um registo meticuloso das encomendas recebidas com o respectivo valor em dinheiro. O problema é que nada prova de que este registo foi de facto realizado pelo padre Saunière, ou se criado mais tarde para apoiar a tese de que o dinheiro provinha efectivamente dessas missas. Em toda esta situação de Rennes-le-Château, sempre me ficou a ideia de estar a lidar com algo fraudulento, em que se usaram vários meios para esconder algo que não interessava ser conhecido.
As obras realizadas pelo padre Saunière na igreja incluíram a criação de uma biblioteca e de uma torre dedicada a Maria Madalena. Foram ali gastas grandes somas de dinheiro cuja procedência se procurou esconder. O padre Saunière foi obrigado a deixar a sua igreja de Rennes-le-Château e condenado a uma pena também estranha: devia recolher-se a um retiro ou a um convento da sua escolha, dedicar-se a exercícios espirituais durante dez dias e, passados dois meses, apresentar um certificado de que, efectivamente, tinha feito os exercícios.
Na agenda pessoal do padre foi encontrada a seguinte nota com data de 21 de Setembro de 1891: “carta recebida de Granes, descoberta de um túmulo, chuva durante a noite.” Que túmulo seria esse encontrado durante as obras na igreja?
O bispo de Carcassone, participante activo de toda a história, acabou por ficar doente numa cadeira de rodas e foi desonerado da sua condição de bispo com a alegação de má administração e de ter gasto dinheiro em excesso sem qualquer justificação. Será que esse dinheiro era aquele que Saunière recebeu?
Tenho consciência de que o tema de Maria Madalena é difícil e complexo, num universo de fraudes e documentos forjados, como aqueles de Pierre Plantard acerca dos mestres do Priorado de Sião, e que já muito se escreveu a respeito, principalmente tentando criar uma atmosfera de falsidade, em que nada da história ou lenda de Maria Madalena seja verdadeiro, uma conclusão em que apenas há um interessado: a Igreja Católica e todas as variedades e vertentes saídas dela, como as várias seitas protestantes, muitas das quais se denominam hoje de igrejas evangélicas. Não creio que a história de Maria Madalena, caso seja verdadeira, possa constituir qualquer embaraço para a essência do Cristianismo, essência da qual toda a religião baseada nele se afastou.
Maria Madalena é pouco referida, ou claramente identificada, nos quatro Evangelhos do Novo Testamento, excepto na parte final, aquela que se refere à ressurreição de Jesus. Assim, em Mateus, é um anjo que vem anunciar a Maria Madalena e outra Maria, a ressurreição; em Marcos é um jovem vestido de branco que informa Madalena e Maria, mãe de Tiago e Salomé; em Lucas, são dois homens em roupas brilhantes que anunciam a ressurreição a Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; em João, Jesus aparece a Maria Madalena, somente a ela, que depois vai anunciar a ressurreição aos discípulos. Com algumas diferenças entre eles, todos os quatro Evangelhos indicam Maria Madalena como a principal testemunha da ressurreição, o que, segundo o pensamento de alguns, é uma clara indicação do destaque de Maria Madalena entre os discípulos e junto de Jesus. Isto veio a ser confirmado pelos documentos achados em 1945 numa aldeia do Egipto chamada Nag Hammadi, documentos esses erradamente classificados como Evangelhos Apócrifos ou Evangelhos Gnósticos, mas como se trata de documentos diversos, não somente evangelhos, a classificação correcta seria a de biblioteca de Nag Hammadi.
Evidentemente que a preponderância da figura de Maria Madalena constituiu, desde o início do chamado “Cristianismo literalista”, aquele em que se baseou a religião, um grande embaraço para uma religião essencialmente patriarcal, em que a mulher tem um papel muito secundário, pois basta pensarmos que no início desse Cristianismo se discutia entre padres e bispos se a mulher tinha alma. E também não é por acaso que as ermidas, igrejas, capelas, grutas, dedicadas a Maria Madalena, foram aparecendo por toda a parte, principalmente no sul da Europa, na bacia mediterrânica, numa clara demonstração de culto por uma personagem que a Igreja se esforçou por tornar, pelo menos, controversa.
E foi assim que, no ano 591, o papa Gregório I (Gregório Magno) num sermão de Páscoa, declarou que Maria Madalena e Maria de Betânia, a prostituta, eram a mesma pessoa, caracterizando desta forma a figura de Madalena como prostituta, não havendo nada nos Evangelhos que confirmem essa declaração. Só se pode entender uma declaração desta natureza como mais um meio para denegrir aquela que poderia ser um reflexo da face feminina de Deus. E o facto da Igreja a ter elevado a santa não veio melhorar as coisas, pois para a maioria é santa por ser uma prostituta arrependida salva do pecado por Jesus.
(Continua)
II – Maria Madalena – 1ª Parte
Encontrei Samuel em Santiago de Compostela, numa tarde quente de Junho, aguardando-me sentado na escadaria da entrada lateral da Catedral, aquela entrada que dá para uma pequena praça cujo nome não me lembro. Não era a primeira vez que nos encontrávamos em Santiago, pois tanto ele como eu éramos visitantes assíduos. Durante anos fui assistindo a um certo esmorecimento da tradição de Santiago que, a pouco e pouco se foi transformando numa espécie de feira turística, em que o que mais contava eram as recordações que se compravam nas inúmeras lojas para esse fim, e as fotos que se tiravam fora e dentro da catedral. O “Caminho” era feito, na sua maioria, pelos entusiastas que tinham lido o livro do Paulo Coelho “Diário de um Mago”, e que julgavam encontrar por aquelas serranias alguma espécie de milagre que desse sentido às suas vidas.
Pensava isto enquanto me dirigia ao encontro de Samuel, caminhando pela rua do Vilar, que desembocava quase na pequena praça onde combinara encontrar-me com ele. Pensava também que toda a história de Santiago não passava de um embuste, de uma tradição inventada sobre uma tradição mais antiga que levava o “Caminho” até bem mais além da catedral, até ao cabo Finisterra. A antiguidade do “Caminho” perdia-se no tempo, até uma época anterior aos celtas e talvez até anterior a esse povo misterioso que ocupava as altas terras de Ibéria chamado “lígure”.
Mas não era a história de Santiago que me despertava a curiosidade nessa altura. Ainda não tinha sido publicado o livro do Dan Brown, “O Código Da Vinci”, mas eu tinha lido o livro “Maria Madalena e o Santo Graal” de Margaret Starbird, e “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada”, de Michael Baigent, Richard Leigh Henry Lincoln. Teria, realmente, Maria Madalena, casado com Jesus e desse casamento ter nascido uma criança do sexo feminino chamada Sara?
Parece não haver dúvidas, pois as lendas não nascem do nada, de que após a presumível crucificação de Jesus, um barco transportando três Marias, Maria Madalena, Maria Jacobina, irmã de Maria, mãe de Jesus, e Maria Salomé, mãe de Tiago e João, teria aportado no sul de França, num local hoje conhecido como “Saintes-Maries de la Mer” (Santas Marias do Mar). Além da lenda, o nome desta localidade não pode ter aparecido por acaso. Sara estaria também nesse barco de fuga de Jerusalém e seria, segundo algumas lendas, uma escrava ao serviço de Jesus ou de Maria Madalena. Sara era negra e o seu culto insere-se na tradição das Virgens Negras. Este grupo teria sido recebido por ciganos e daí Sara ter-se tornado a sua padroeira.
Não consta em nenhum documento da época, nem em nenhum dos Evangelhos oficiais e apócrifos, que Maria Madalena ou Jesus tivessem uma escrava ao seu serviço. E não é credível que assim fosse. O mais que poderia ter acontecido era que Sara fosse uma das seguidoras de Jesus.
Mas se Sara era negra e filha de Jesus e Madalena, então, ou Jesus, ou Madalena, pelo menos um dos dois teria a cor negra, o que contraria em absoluto a crença de que ambos eram judeus. Mas será que eram mesmo judeus? De facto, as numerosas representações de Jesus ao longo dos últimos séculos, principalmente através de pintura, não mostram um homem com características judaicas.
Toda esta história parecia ter permanecido oculta ao longo dos séculos até ao dia em que um padre de uma pequena vila do sul de França, Rennes-le-Château, ao fazer obras na sua igreja teria encontrado um tesouro ali escondido pelos templários. Esse tesouro parecia tratar-se de documentos ou de uma prova de que Jesus e Madalena teriam tido descendentes os quais, chegados a França nessa viagem das três Marias, teriam posteriormente dado origem à dinastia Merovíngia, considerada linhagem sagrada por ser descendência de Jesus. Este achado ter-se-á passado em 1891, e o padre Bérenger Saunière terá enriquecido em função dessa descoberta, recebendo grandes somas de dinheiro para se manter calado e não revelar ao mundo o segredo que tinha encontrado, pois isso poderia abalar seriamente os alicerces da Igreja Católica, e do próprio Cristianismo.
Mas logo apareceu uma explicação para a súbita fortuna do padre Saunière: tratava-se de missas encomendadas de todo o mundo, pagas adiantadamente, tantas que o padre não teria nunca possibilidades de as realizar em vida. Estas encomendas de missas eram o resultado da publicidade que o padre Saunière fazia em jornais e revistas de todo o mundo.
Esta explicação sempre me pareceu estranha, pois não consigo imaginar um padre de uma remota igreja no sul de França a fazer publicidade para rezar missas em muitos jornais e revistas de vários países, alguns deles bem distantes como os E.U.A. e alguns países da América do Sul. Então esses países não tinham padres locais para rezar essas missas? Mais estranho ainda é o facto de que, apesar da explicação e do padre ter sido acusado de traficar as missas, nenhum dos supostos anúncios foi alguma vez encontrado. Para isto também se arranjou uma explicação: os anúncios eram publicados em suplementos de revistas e jornais, que eram normalmente utilizados para acender fogos de lareiras ou simplesmente jogados fora (!?).
Para provar que o dinheiro provinha realmente dessas missas encomendadas, encontrou-se um registo meticuloso das encomendas recebidas com o respectivo valor em dinheiro. O problema é que nada prova de que este registo foi de facto realizado pelo padre Saunière, ou se criado mais tarde para apoiar a tese de que o dinheiro provinha efectivamente dessas missas. Em toda esta situação de Rennes-le-Château, sempre me ficou a ideia de estar a lidar com algo fraudulento, em que se usaram vários meios para esconder algo que não interessava ser conhecido.
As obras realizadas pelo padre Saunière na igreja incluíram a criação de uma biblioteca e de uma torre dedicada a Maria Madalena. Foram ali gastas grandes somas de dinheiro cuja procedência se procurou esconder. O padre Saunière foi obrigado a deixar a sua igreja de Rennes-le-Château e condenado a uma pena também estranha: devia recolher-se a um retiro ou a um convento da sua escolha, dedicar-se a exercícios espirituais durante dez dias e, passados dois meses, apresentar um certificado de que, efectivamente, tinha feito os exercícios.
Na agenda pessoal do padre foi encontrada a seguinte nota com data de 21 de Setembro de 1891: “carta recebida de Granes, descoberta de um túmulo, chuva durante a noite.” Que túmulo seria esse encontrado durante as obras na igreja?
O bispo de Carcassone, participante activo de toda a história, acabou por ficar doente numa cadeira de rodas e foi desonerado da sua condição de bispo com a alegação de má administração e de ter gasto dinheiro em excesso sem qualquer justificação. Será que esse dinheiro era aquele que Saunière recebeu?
Tenho consciência de que o tema de Maria Madalena é difícil e complexo, num universo de fraudes e documentos forjados, como aqueles de Pierre Plantard acerca dos mestres do Priorado de Sião, e que já muito se escreveu a respeito, principalmente tentando criar uma atmosfera de falsidade, em que nada da história ou lenda de Maria Madalena seja verdadeiro, uma conclusão em que apenas há um interessado: a Igreja Católica e todas as variedades e vertentes saídas dela, como as várias seitas protestantes, muitas das quais se denominam hoje de igrejas evangélicas. Não creio que a história de Maria Madalena, caso seja verdadeira, possa constituir qualquer embaraço para a essência do Cristianismo, essência da qual toda a religião baseada nele se afastou.
Maria Madalena é pouco referida, ou claramente identificada, nos quatro Evangelhos do Novo Testamento, excepto na parte final, aquela que se refere à ressurreição de Jesus. Assim, em Mateus, é um anjo que vem anunciar a Maria Madalena e outra Maria, a ressurreição; em Marcos é um jovem vestido de branco que informa Madalena e Maria, mãe de Tiago e Salomé; em Lucas, são dois homens em roupas brilhantes que anunciam a ressurreição a Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; em João, Jesus aparece a Maria Madalena, somente a ela, que depois vai anunciar a ressurreição aos discípulos. Com algumas diferenças entre eles, todos os quatro Evangelhos indicam Maria Madalena como a principal testemunha da ressurreição, o que, segundo o pensamento de alguns, é uma clara indicação do destaque de Maria Madalena entre os discípulos e junto de Jesus. Isto veio a ser confirmado pelos documentos achados em 1945 numa aldeia do Egipto chamada Nag Hammadi, documentos esses erradamente classificados como Evangelhos Apócrifos ou Evangelhos Gnósticos, mas como se trata de documentos diversos, não somente evangelhos, a classificação correcta seria a de biblioteca de Nag Hammadi.
Evidentemente que a preponderância da figura de Maria Madalena constituiu, desde o início do chamado “Cristianismo literalista”, aquele em que se baseou a religião, um grande embaraço para uma religião essencialmente patriarcal, em que a mulher tem um papel muito secundário, pois basta pensarmos que no início desse Cristianismo se discutia entre padres e bispos se a mulher tinha alma. E também não é por acaso que as ermidas, igrejas, capelas, grutas, dedicadas a Maria Madalena, foram aparecendo por toda a parte, principalmente no sul da Europa, na bacia mediterrânica, numa clara demonstração de culto por uma personagem que a Igreja se esforçou por tornar, pelo menos, controversa.
E foi assim que, no ano 591, o papa Gregório I (Gregório Magno) num sermão de Páscoa, declarou que Maria Madalena e Maria de Betânia, a prostituta, eram a mesma pessoa, caracterizando desta forma a figura de Madalena como prostituta, não havendo nada nos Evangelhos que confirmem essa declaração. Só se pode entender uma declaração desta natureza como mais um meio para denegrir aquela que poderia ser um reflexo da face feminina de Deus. E o facto da Igreja a ter elevado a santa não veio melhorar as coisas, pois para a maioria é santa por ser uma prostituta arrependida salva do pecado por Jesus.
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