A Maçonaria dividiu-se em vários ramos, ou tendências, ou obediências, conforme cada um o entenda, principalmente depois do século XVII. Por este motivo hoje conhecemos um sem número de tendências ou Ritos. Não vou aqui descrever esses Ritos porque a explicação pode ser encontrada facilmente na Internet, onde há vários “sites” com explicações bem pormenorizadas.
O fundamentalismo religioso cristão tem considerado desde sempre a Maçonaria como seu inimigo principal. Por este motivo, durante muitos séculos os seus membros reuniam-se secretamente, assim como a identidade dos que se reuniam só era conhecida deles mesmo. Hoje já não há muita necessidade desse secretismo mas, mesmo que seja por tradição, a Maçonaria continua a ser uma organização que se diz secreta, embora os seus membros e dirigentes sejam conhecidos, senão da generalidade do público, pelo menos daqueles que se interessam por estes assuntos.
Na origem da Maçonaria não existia secretismo, mas sim exclusivismo, quer dizer, no Antigo Egipto os Mistérios Interiores era reservados a uma elite escolhida pelos membros de cada Escola de Mistérios. Os Mistérios Exteriores eram dedicados ao público em geral, o qual assistia aos rituais realizados no exterior do templo. Nos Mistérios Interiores, participava apenas essa elite e realizava-se no interior do templo sem acesso ao público. Foi assim que muitos dos sábios e filósofos gregos foram iniciados nas Escolas de Mistérios do Antigo Egipto.
O secretismo começou a tornar-se necessário logo nos primeiros tempos do Cristianismo, longe estava ainda a Maçonaria de ser conhecida por esse nome. Como já vimos em crónicas anteriores, os gnósticos foram os herdeiros das Escolas de Mistério do Egipto, as quais tinham entrado em decadência depois da invasão de Alexandre Magno, cerca de 320 a.C. A pouco e pouco os grupos gnósticos foram resguardando os ensinamentos das antigas Escolas de Mistérios, transformando-os num movimento interno que veio a desaguar mais tarde no Cristianismo ou, na busca do Cristo interior através da Gnose. Mas o Cristianismo Gnóstico sofreu logo de início a perseguição dos que começaram a formar as várias igrejas impondo a sua visão literalista do Cristianismo. Foi o fanatismo que estabeleceu os alicerces da nova religião, que se fixou definitivamente com o imperador Constantino.
Apesar da liberdade de que hoje desfrutamos no mundo ocidental, em que cada um é livre de seguir a crença ou filosofia que entender e que estiver de acordo com o seu íntimo, o fanatismo continua vivo e actuante, arregimentando milhares ou milhões de pessoas às suas ideias. Foi assim que dei com um “site” na Internet, aparentemente com largos milhares de aderentes e defendendo as doutrinas evangélicas, que logo no título dizia: “Maçonaria, o Braço Direito do Diabo – Desmascarando essa Filial do Império das Trevas”. E depois acrescentava: “Maçonaria: Ramificações: AMORC, Lions Club, Rotary Club, De Molays, Shrines, The Daughters of the Nile, Amaranth, Estrela do Oriente, Grotto, Cavaleiros Templários, Rito de York, Rito Escocês, Illuminati, P2, Skull and Bones, Ordem do Dragão.” O resto do texto é um conjunto de argumentos baseados nos evangelhos, dos quais faz inúmeras citações, atribuindo à Maçonaria e aos grupos acima indicados, todos os males do mundo. Para essas igrejas Jesus é Deus, ou o Filho de Deus encarnado na Terra, quando o próprio Jesus recusou essa condição: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” Jesus respondeu: “Porque me chamas de bom? Só Deus é bom, e ninguém mais” (Marcos 10-17). Um “site” a evitar para quem quiser manter uma certa saúde mental e psíquica.
Evidentemente que qualquer pessoa com um pouco de lucidez vê que se trata de uma manifestação do fanatismo mais primário, além de que, mistura indiscriminadamente no mesmo saco organizações de natureza diferente. Isto não causaria nenhuma preocupação, apenas um sorriso pela ignorância das pessoas que escrevem no “site”, se esses mesmos indivíduos não estivessem a fazer todo o possível por atingir lugares proeminentes a nível governamental em alguns países.
Mas mesmo a Igreja Católica, apesar da tentativa de abertura que constituiu o Concílio Vaticano II, considera que pertencer à Maçonaria é incompatível com a doutrina da Igreja e que os católicos que se inscrevam em qualquer organização maçónica, depois de saberem a posição da Igreja, incorrem em grave pecado. O Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, com data de 26 de Novembro de 1983, e que trata da atitude oficial da Igreja frente à Maçonaria, utiliza a expressão "associações maçónicas", sem distinguir uma das outras. Diz que é vedado a todos, eclesiásticos ou leigos, ingressar nessa organização e quem o fizer, está "em estado de pecado grave e não pode aproximar-se da Sagrada Comunhão".
A influência da Maçonaria na nossa sociedade ganhou maior relevo depois da Revolução Francesa, em que a Igreja foi perdendo terreno à medida em que se atingia uma maior liberdade. Sob o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” o mundo se foi transformando, as monarquias foram-se despojando do seu poder absoluto, algumas foram substituídas por repúblicas, muitos países conquistaram a sua independência, como os EUA e os países da América do Sul. No entanto, a atribuição à Maçonaria desse lema é errónea, como é errada também a atribuição à Revolução Francesa, cujo lema era “Liberdade, Igualdade, ou a Morte”. Também se atribuiu a criação desse lema a Louis-Claude de Saint-Martin, o que também é errado. Esse lema é bem mais antigo e não se sabe, exactamente, qual a sua origem.
Atribuem-se à Maçonaria, através do seu braço armado, a Carbonária, muitos atentados à bomba e assassínios, especialmente contra figuras monárquicas, dentre os quais o atentado que vitimou o rei D. Carlos de Portugal, em 1 de Fevereiro de 1908, prelúdio da revolução que iria instaurar a República em 1910.
Embora alguns elementos da Maçonaria tivessem ligações com a Carbonária, esta não é, nem nunca foi o braço armado daquela. Era e é, porque ainda existe, uma organização independente, cujas acções por vezes, embora de forma brutal, correspondiam a objectivos da Maçonaria. Nestes objectivos estariam, por exemplo, a abolição da monarquia em alguns países. É interessante ler um texto notável de Fernando Pessoa, insurgindo-se contra uma proposta de lei que visava a proibição das sociedades secretas: “Ora no nosso país, caída há muito em dormência a Ordem Templária de Portugal, desaparecida a Carbonária – formada para fins transitórios, que se realizaram –, não existem, suponho, à parte uma outra possível Loja Martinista ou semelhante, mais do que duas associações secretas dessa espécie. Uma é a Maçonaria, a outra essa curiosa organização que, em um dos seus ramos, usa o nome profano de Companhia de Jesus, exactamente como, na Maçonaria, a Ordem de Heredom e Kilwinning usa o nome profano de Real Ordem da Escócia”. Talvez a figura mais notável pertencente à Carbonária, terá sido Giuseppe Garibaldi, de cujas acções foi unificada a Itália e o Vaticano deixou de ter poder sobre a cidade de Roma.
A acusação de ateísmo que é feita, na generalidade, à Maçonaria, deve-se à existência de algumas organizações maçónicas que se dizem ateias. Não se percebe muito bem com o é que se pode ser ateu a actuar num recinto sagrado efectuando rituais e se reportarem ao G.A.D.U. (Grande Arquitecto do Universo). É verdade que essas organizações não são hoje mais do que grupos de tráfego de influências, o que acontece também com algumas das organizações não ateias. No entanto, apesar dos condicionalismos do mundo de hoje, em que o profano se impõe ao sagrado, existem ainda organizações maçónicas fiéis aos seus princípios milenários de grande espiritualidade.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
domingo, 5 de outubro de 2008
Segredos do Cristianismo - VI - O Maior Segredo
No século XII aconteceu algo de insólito que os pesquisadores e historiadores não conseguiram decifrar até hoje. Trata-se dos Templários, da formação da Ordem do Templo, da sua extraordinária e rápida expansão, do seu poder e da sua riqueza.
A Ordem do Templo foi fundada um pouco posteriormente à Ordem do Hospital, ou dos Hospitalários, mas enquanto esta se manteve estável e comprometida com os objectivos da sua fundação – a ajuda e socorro aos peregrinos da Terra Santa, a Ordem do Templo teve um início estranho e depois, apesar de se manter na Palestina para proteger os peregrinos, expandiu-se rapidamente pela Europa, ganhando um poder superior ao da maioria dos Estados europeus.
A Ordem do Templo foi fundada por nove cavaleiros que participaram na 1ª Cruzada. De 1118, data da sua fundação, até 1127, durante nove anos, não admitiram ninguém nas suas fileiras. Permanecem em Jerusalém durante nove anos e o que estiveram a fazer durante esses nove anos pouco ou nada se sabe. Aparentemente estiveram instalados no que restava das antigas cavalariças do Templo de Salomão onde terão descoberto documentos importantes, segundo alguns, ou um grande tesouro segundo outros.
Aqui convém fazer uma pausa e pensar no que significa a descoberta de um tesouro ou, que características teria esse tesouro. Tradicionalmente um tesouro é constituído por ouro e pedras preciosas mas, pode ser constituído por outras coisas, como esses documentos importantes de que alguns falam, documentos que teriam dado à Ordem um tremendo poder e que a fez catapultar-se para a organização mais importante e mais temida da Europa. Esses documentos estariam relacionados com a história do Cristianismo, o que terá obrigado o Papa, por influência do abade de Claraval, São Bernardo, uma figura enigmática, a reconhecer a Ordem e a conferir-lhe as regras, estas também idealizadas por ele.
Bernardo de Claraval, de monge obscuro cisterciense, tornou-se a figura mais influente da sua época. Enviado em 1115 para Clairvaux (Vale Claro) para fundar uma nova abadia da Ordem de Cister, fundada em 1098, logo começa por impor uma disciplina severa, o que não impede que muitos candidatos comecem a afluir à nova abadia. Sob a sua regência, a Ordem de Cister tem uma expansão fantástica, semelhante à expansão templária pois, por alturas da sua morte aos 63 anos de idade, a Ordem de Cister tem 500 mosteiros em toda a Europa.
Considerado um ortodoxo, defendendo sempre a doutrina oficial da Igreja, Bernardo foi o “padrinho” dos Templários junto da Santa Sé, conseguindo a sua aprovação pelo Papa e dando à Ordem do Templo as regras que ele escreveu pelo seu próprio punho, daí se dizer que as regras do Templo eram semelhantes às da Ordem de Cister. Terão os templários partilhado com ele o seu segredo e assim a Ordem de Cister se expandiu também rapidamente? Seria a sua ortodoxia um escudo por detrás do qual manipulou os poderes da época?
Se os Templários possuíam um segredo capaz de abalar as estruturas do Cristianismo e da própria Igreja, esse segredo perdeu valor e entrou em descrédito depois da perseguição desencadeada por Filipe IV de França, o Belo. Acusando os Templários de heresia e de perda do sentido de missão para a qual a Ordem havia sido fundada, retirou qualquer credibilidade ao segredo que eventualmente os templários possuíssem. Apesar de absolvidos da heresia pelo Papa Clemente V, isto não obstou a que fossem torturados pela Inquisição e muitos queimados vivos, incluindo o seu Grão-Mestre, Jacques de Molay.
Depois desta absolvição não faz nenhum sentido que continuassem a ser perseguidos, torturados e queimados, a não ser que se quisesse eliminar qualquer vestígio deles à face da Terra. Por outro lado a teoria de que o rei Filipe IV desencadeou essa perseguição para deitar mão às riquezas templárias, pode isto ter sido uma das consequências, mas não, certamente, o que a motivou.
Para podermos compreender melhor o que poderia ser esse segredo, vamos voltar aos primeiros tempos do Cristianismo, vamos voltar a Paulo de Tarso. Quem era, efectivamente, Paulo ou Saulo de Tarso? De acordo com a Wikipédia, “O apóstolo Paulo de Tarso, cujo nome original era Saulo, é considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente.” Para além de outras considerações esta é a ideia que nos tem vindo a ser transmitida ao longo do tempo. Mas quem era o verdadeiro Paulo?
Tradicionalmente, Paulo é considerado o grande combatente contra os gnósticos heréticos. No entanto, os sábios gnósticos do início do século II consideravam Paulo o maior Apóstolo e veneravam-no por ele ter sido a inspiração do Cristianismo gnóstico. Muitos grupos gnósticos atribuíam a Paulo a sua fundação, chamando-se eles próprios de paulistas, apesar da perseguição da Igreja romana até ao século X. Se Paulo foi tão antignóstico como a Igreja reclama, é estranho que seja citado em inúmeros textos gnósticos e que alguns lhe sejam atribuídos. A biblioteca de Nag Hammadi inclui “A Oração do Apóstolo Paulo”, “O Apocalipse de Paulo” e “Os Actos de Paulo”. Este último descreve Paulo viajando com uma companheira chamada Tecla, uma mulher que efectuava baptismos.
Paulo escreve cartas a sete igrejas em sete cidades, conhecidas como centros de Cristianismo gnóstico. Das treze cartas que constam do Novo Testamento, apenas sete são consideradas genuínas, as outras são falsificações acrescentadas mais tarde. Somente nas chamadas cartas pastorais dirigidas a Timóteo e Tito, consideradas universalmente como falsificações, é que Paulo se revela antignóstico. Nestas cartas Paulo é posto a condenar veementemente as doutrinas gnósticas.
Por via destas cartas pastorais, Paulo é transformado de gnóstico em antignóstico. Na primeira metade do século II, Clemente, bispo de Roma, nega terminantemente o estatuto de Paulo como Apóstolo, dizendo inclusive que Paulo nunca viu efectivamente o Cristo ressuscitado. A revelação de Paulo na estrada de Damasco é considerada como um fenómeno demoníaco. Pedro, por sua vez, considera Paulo como seu inimigo, que convenceu alguns gentios a rejeitar a lei judaica e a ensinar coisas tolas e heréticas. Paulo é considerado um elemento de divisão do Cristianismo, inspirado por Satanás, um elemento perigoso que deveria ser expulso da Igreja.
Paulo foi contemporâneo de Jesus mas, por incrível que pareça e sendo Paulo um dos sacerdotes do templo de Jerusalém, nunca se encontrou com Jesus. Nas suas cartas verdadeiras nunca se refere a Jesus como alguém que tenha existido, refere-se ao Cristo que, em termos gnósticos significa o Cristo interno de cada um. Nas suas cartas verdadeiras usa muitos termos caros aos gnósticos como pneuma (espírito), gnosis (conhecimento divino), doxa (glória), sophia (sabedoria), teleoi (o iniciado), etc.
Paulo escreveu em grego e só faz citações da versão grega do Antigo Testamento. O seu trabalho relaciona-se com as cidades pagãs dominadas pela cultura grega. Assim, Antioquia era um centro dos Mistérios de Adónis, Éfeso era um centro dos Mistérios de Átis e Corinto o centro dos Mistérios de Dionísius. Natural de Tarso, esta cidade era o centro da filosofia pagã, ultrapassando na época Atenas e Alexandria. Tarso era a cidade onde se originaram os Mistérios de Mitra e não é possível imaginar que Paulo não se tenha dado conta das semelhanças entre estes Mistérios e as doutrinas cristãs.
Tal como os gnósticos, Paulo era extremamente depreciativo acerca das manifestações externas da religião – cerimónias, dias santos, regras, leis. Tal como os gnósticos, afirmava que os verdadeiros cristãos se tornavam em Cristo. À semelhança dos gnósticos, Paulo não prega a servidão á Lei, mas a liberdade espiritual através da Gnose. Vai ao ponto de declarar a Lei de Jeová, tradicionalmente sagrada, a própria base da religião judaica, ser uma maldição e que Cristo nos resgatou dessa Lei. Para Paulo, assim como para os gnósticos, através da partilha do sofrimento e da ressurreição de Cristo, o iniciado cristão pode ser redimido da Lei e libertado: “Agora, tendo morrido, estamos para além do alcance da Lei que nos subjugava”.
É provável que haja quem discorde do que aqui fica escrito, que afinal a Bíblia não diz nada disso, que Paulo se refere a Jesus como pessoa física, pois basta ler a Carta aos Romanos. Pois é, mas a Bíblia tem sofrido inúmeras alterações à sua versão original, adaptando o seu texto conforme os interesses do momento. Dou como exemplo o Evangelho segundo João. Logo no prólogo, as actuais Bíblias dizem: “No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus”. A anterior fraseologia dizia o seguinte: “No início era o Verbo: o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. Parece que não, mas trata-se de uma alteração que adultera completamente o texto original, pois Verbo não é a palavra, Verbo é muito mais do que a palavra, Verbo é o som primordial através do qual a vida foi criada. Os budistas sabem isto e por isso usam os mantras, que são sons, não são palavras. Por outro lado cada uma das versões actuais do Cristianismo adaptou a Bíblia, principalmente o Novo Testamento, à sua medida. Assim, a Bíblia católica não é igual à Protestante, esta não é igual à Evangélica, etc., etc.
Para terminar, não vou revelar qual é o segredo maior, ele está implícito neste texto e nos outros que tenho vindo a escrever sobre o assunto. Cada um é livre de pensar o que quiser, ou de não pensar e agarrar-se à crença como resposta para todas as dúvidas.
A Ordem do Templo foi fundada um pouco posteriormente à Ordem do Hospital, ou dos Hospitalários, mas enquanto esta se manteve estável e comprometida com os objectivos da sua fundação – a ajuda e socorro aos peregrinos da Terra Santa, a Ordem do Templo teve um início estranho e depois, apesar de se manter na Palestina para proteger os peregrinos, expandiu-se rapidamente pela Europa, ganhando um poder superior ao da maioria dos Estados europeus.
A Ordem do Templo foi fundada por nove cavaleiros que participaram na 1ª Cruzada. De 1118, data da sua fundação, até 1127, durante nove anos, não admitiram ninguém nas suas fileiras. Permanecem em Jerusalém durante nove anos e o que estiveram a fazer durante esses nove anos pouco ou nada se sabe. Aparentemente estiveram instalados no que restava das antigas cavalariças do Templo de Salomão onde terão descoberto documentos importantes, segundo alguns, ou um grande tesouro segundo outros.
Aqui convém fazer uma pausa e pensar no que significa a descoberta de um tesouro ou, que características teria esse tesouro. Tradicionalmente um tesouro é constituído por ouro e pedras preciosas mas, pode ser constituído por outras coisas, como esses documentos importantes de que alguns falam, documentos que teriam dado à Ordem um tremendo poder e que a fez catapultar-se para a organização mais importante e mais temida da Europa. Esses documentos estariam relacionados com a história do Cristianismo, o que terá obrigado o Papa, por influência do abade de Claraval, São Bernardo, uma figura enigmática, a reconhecer a Ordem e a conferir-lhe as regras, estas também idealizadas por ele.
Bernardo de Claraval, de monge obscuro cisterciense, tornou-se a figura mais influente da sua época. Enviado em 1115 para Clairvaux (Vale Claro) para fundar uma nova abadia da Ordem de Cister, fundada em 1098, logo começa por impor uma disciplina severa, o que não impede que muitos candidatos comecem a afluir à nova abadia. Sob a sua regência, a Ordem de Cister tem uma expansão fantástica, semelhante à expansão templária pois, por alturas da sua morte aos 63 anos de idade, a Ordem de Cister tem 500 mosteiros em toda a Europa.
Considerado um ortodoxo, defendendo sempre a doutrina oficial da Igreja, Bernardo foi o “padrinho” dos Templários junto da Santa Sé, conseguindo a sua aprovação pelo Papa e dando à Ordem do Templo as regras que ele escreveu pelo seu próprio punho, daí se dizer que as regras do Templo eram semelhantes às da Ordem de Cister. Terão os templários partilhado com ele o seu segredo e assim a Ordem de Cister se expandiu também rapidamente? Seria a sua ortodoxia um escudo por detrás do qual manipulou os poderes da época?
Se os Templários possuíam um segredo capaz de abalar as estruturas do Cristianismo e da própria Igreja, esse segredo perdeu valor e entrou em descrédito depois da perseguição desencadeada por Filipe IV de França, o Belo. Acusando os Templários de heresia e de perda do sentido de missão para a qual a Ordem havia sido fundada, retirou qualquer credibilidade ao segredo que eventualmente os templários possuíssem. Apesar de absolvidos da heresia pelo Papa Clemente V, isto não obstou a que fossem torturados pela Inquisição e muitos queimados vivos, incluindo o seu Grão-Mestre, Jacques de Molay.
Depois desta absolvição não faz nenhum sentido que continuassem a ser perseguidos, torturados e queimados, a não ser que se quisesse eliminar qualquer vestígio deles à face da Terra. Por outro lado a teoria de que o rei Filipe IV desencadeou essa perseguição para deitar mão às riquezas templárias, pode isto ter sido uma das consequências, mas não, certamente, o que a motivou.
Para podermos compreender melhor o que poderia ser esse segredo, vamos voltar aos primeiros tempos do Cristianismo, vamos voltar a Paulo de Tarso. Quem era, efectivamente, Paulo ou Saulo de Tarso? De acordo com a Wikipédia, “O apóstolo Paulo de Tarso, cujo nome original era Saulo, é considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente.” Para além de outras considerações esta é a ideia que nos tem vindo a ser transmitida ao longo do tempo. Mas quem era o verdadeiro Paulo?
Tradicionalmente, Paulo é considerado o grande combatente contra os gnósticos heréticos. No entanto, os sábios gnósticos do início do século II consideravam Paulo o maior Apóstolo e veneravam-no por ele ter sido a inspiração do Cristianismo gnóstico. Muitos grupos gnósticos atribuíam a Paulo a sua fundação, chamando-se eles próprios de paulistas, apesar da perseguição da Igreja romana até ao século X. Se Paulo foi tão antignóstico como a Igreja reclama, é estranho que seja citado em inúmeros textos gnósticos e que alguns lhe sejam atribuídos. A biblioteca de Nag Hammadi inclui “A Oração do Apóstolo Paulo”, “O Apocalipse de Paulo” e “Os Actos de Paulo”. Este último descreve Paulo viajando com uma companheira chamada Tecla, uma mulher que efectuava baptismos.
Paulo escreve cartas a sete igrejas em sete cidades, conhecidas como centros de Cristianismo gnóstico. Das treze cartas que constam do Novo Testamento, apenas sete são consideradas genuínas, as outras são falsificações acrescentadas mais tarde. Somente nas chamadas cartas pastorais dirigidas a Timóteo e Tito, consideradas universalmente como falsificações, é que Paulo se revela antignóstico. Nestas cartas Paulo é posto a condenar veementemente as doutrinas gnósticas.
Por via destas cartas pastorais, Paulo é transformado de gnóstico em antignóstico. Na primeira metade do século II, Clemente, bispo de Roma, nega terminantemente o estatuto de Paulo como Apóstolo, dizendo inclusive que Paulo nunca viu efectivamente o Cristo ressuscitado. A revelação de Paulo na estrada de Damasco é considerada como um fenómeno demoníaco. Pedro, por sua vez, considera Paulo como seu inimigo, que convenceu alguns gentios a rejeitar a lei judaica e a ensinar coisas tolas e heréticas. Paulo é considerado um elemento de divisão do Cristianismo, inspirado por Satanás, um elemento perigoso que deveria ser expulso da Igreja.
Paulo foi contemporâneo de Jesus mas, por incrível que pareça e sendo Paulo um dos sacerdotes do templo de Jerusalém, nunca se encontrou com Jesus. Nas suas cartas verdadeiras nunca se refere a Jesus como alguém que tenha existido, refere-se ao Cristo que, em termos gnósticos significa o Cristo interno de cada um. Nas suas cartas verdadeiras usa muitos termos caros aos gnósticos como pneuma (espírito), gnosis (conhecimento divino), doxa (glória), sophia (sabedoria), teleoi (o iniciado), etc.
Paulo escreveu em grego e só faz citações da versão grega do Antigo Testamento. O seu trabalho relaciona-se com as cidades pagãs dominadas pela cultura grega. Assim, Antioquia era um centro dos Mistérios de Adónis, Éfeso era um centro dos Mistérios de Átis e Corinto o centro dos Mistérios de Dionísius. Natural de Tarso, esta cidade era o centro da filosofia pagã, ultrapassando na época Atenas e Alexandria. Tarso era a cidade onde se originaram os Mistérios de Mitra e não é possível imaginar que Paulo não se tenha dado conta das semelhanças entre estes Mistérios e as doutrinas cristãs.
Tal como os gnósticos, Paulo era extremamente depreciativo acerca das manifestações externas da religião – cerimónias, dias santos, regras, leis. Tal como os gnósticos, afirmava que os verdadeiros cristãos se tornavam em Cristo. À semelhança dos gnósticos, Paulo não prega a servidão á Lei, mas a liberdade espiritual através da Gnose. Vai ao ponto de declarar a Lei de Jeová, tradicionalmente sagrada, a própria base da religião judaica, ser uma maldição e que Cristo nos resgatou dessa Lei. Para Paulo, assim como para os gnósticos, através da partilha do sofrimento e da ressurreição de Cristo, o iniciado cristão pode ser redimido da Lei e libertado: “Agora, tendo morrido, estamos para além do alcance da Lei que nos subjugava”.
É provável que haja quem discorde do que aqui fica escrito, que afinal a Bíblia não diz nada disso, que Paulo se refere a Jesus como pessoa física, pois basta ler a Carta aos Romanos. Pois é, mas a Bíblia tem sofrido inúmeras alterações à sua versão original, adaptando o seu texto conforme os interesses do momento. Dou como exemplo o Evangelho segundo João. Logo no prólogo, as actuais Bíblias dizem: “No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus”. A anterior fraseologia dizia o seguinte: “No início era o Verbo: o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. Parece que não, mas trata-se de uma alteração que adultera completamente o texto original, pois Verbo não é a palavra, Verbo é muito mais do que a palavra, Verbo é o som primordial através do qual a vida foi criada. Os budistas sabem isto e por isso usam os mantras, que são sons, não são palavras. Por outro lado cada uma das versões actuais do Cristianismo adaptou a Bíblia, principalmente o Novo Testamento, à sua medida. Assim, a Bíblia católica não é igual à Protestante, esta não é igual à Evangélica, etc., etc.
Para terminar, não vou revelar qual é o segredo maior, ele está implícito neste texto e nos outros que tenho vindo a escrever sobre o assunto. Cada um é livre de pensar o que quiser, ou de não pensar e agarrar-se à crença como resposta para todas as dúvidas.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Uma Crise Anunciada!
Como eu não entendo nada de economia, me expliquem por favor o que é essa crise financeira, crediária, hipotecária, económica, que estourou nos EUA e ameaça estender-se a todo o mundo, com consequências que ninguém sabe, exactamente, quais serão. Parece que os bancos emprestaram dinheiro para as pessoas poderem comprar casas, o que é absolutamente normal. Mas continuaram a emprestar mesmo depois do valor das casas começar a cair, para as pessoas poderem fazer negócios para além das suas próprias casas, o que deixa de ser normal. Resultado: com tanto dinheiro emprestado sobre valores imobiliários muito superiores aos que atingiram depois da queda desses valores, pimba, os bancos deixaram de receber o que tinham a receber e começaram a não ter dinheiro suficiente para honrar os seus depósitos. Mais grave ainda, emitiram uma espécie de acções sobre os créditos concedidos e venderam essas acções nas bolsas de todo o mundo. Como consequência, parece que há não sei quantos bilhões de dólares em créditos incobráveis e não sei quantos bilhões de dólares em papeis sem valor na posse de muitos bancos ao redor do mundo. Este é o retrato que alguém vê quando, como eu, não percebe nada de economia. Aliás, nem sei se alguém hoje entende o que se está a passar e o que se avizinha.
A ideia que ressalta de toda esta situação, é a de que a economia dos países assenta hoje sobre bases falsas. Quando as moedas deixaram de ser garantidas pelo ouro depositado nos bancos centrais de cada país, passaram a ter um valor apenas facial, quer dizer, passaram a valer apenas o que estava escrito nos papeis moeda, valor apenas garantido pelo Estado. O valor relativo de uma moeda em relação às outras, situação conhecida como cambial, passou a depender de um conjunto de factores, como o produto bruto interno, o saldo da balança de pagamentos, a quantidade de moeda externa existente internamente, etc., enfim, um emaranhado de situações que não corresponde hoje a nenhum padrão. Por exemplo, no Brasil, a moeda local, o real, tem vindo a valorizar-se em relação ao dólar pela simples razão de existirem dólares em excesso no mercado interno e o saldo da comercial entre importações e exportações é ainda favorável em cerca de 4 bilhões de dólares. A grosso modo e perdoem-me os especialistas, é isto o que acontece.
Evidentemente que a crise que se vive actualmente resulta do excessivo consumismo promovido incessantemente na sociedade, levando esta a consumir cada vez mais coisas que não precisa e a endividar-se cada vez mais. Depois resulta também da competição entre as empresas na conquista de mercados, oferecendo facilidades de crédito sem quaisquer garantias.
Há uns dois ou três anos que ouço falar na crise do mercado imobiliário nos EUA. Não acredito que os bancos americanos não soubessem da situação e que esta se estava a tornar perigosa. Mesmo assim continuaram a emprestar dinheiro. Não acredito que os bancos internacionais também não estivessem informados. Mesmo assim, compraram os tais papeis emitidos pelos bancos americanos e que agora não têm nenhum valor.
Mas nada parece estar perdido, o Estado americano tem um plano de empréstimo (é empréstimo?) para salvar os bancos e as instituições financeiras da bancarrota, qualquer coisa como 800 mil bilhões de dólares, uma quantia que não consigo sequer imaginar. A Comunidade Europeia parece que quer fazer a mesma coisa para salvar os bancos que compraram os tais papeis falsos. Injectando todo esse dinheiro, as instituições financeiras passam a ter de novo liquidez e podem continuar a operar no mercado. Mas… quem vai pagar tudo isso? Onde é que o Estado americano vai buscar esse dinheiro todo? Vai simplesmente emitir papel moeda, aumentando a sua dívida interna que julgo que é a maior do mundo e que nunca será paga certamente? Vai continuar a fomentar guerras para se recuperar à custa da desgraça dos outros?
Os tempos que se avizinham estão carregados de perspectivas sombrias. Sabemos quem é que irá pagar a factura, não serão certamente aqueles que provocaram toda a situação. Provavelmente os países fornecedores de matérias primas verão os preços desses produtos baixarem demasiadamente, aumentando a sua pobreza e dependência; teremos muito provavelmente uma grande carestia de vida, acompanhada por uma subida em flexa dos impostos. O dinheiro poderá perder completamente o seu valor e as propriedades não terão qualquer valor pois não haverá dinheiro para comprá-las. Estarei a ser demasiadamente pessimista? Aguardemos.
A ideia que ressalta de toda esta situação, é a de que a economia dos países assenta hoje sobre bases falsas. Quando as moedas deixaram de ser garantidas pelo ouro depositado nos bancos centrais de cada país, passaram a ter um valor apenas facial, quer dizer, passaram a valer apenas o que estava escrito nos papeis moeda, valor apenas garantido pelo Estado. O valor relativo de uma moeda em relação às outras, situação conhecida como cambial, passou a depender de um conjunto de factores, como o produto bruto interno, o saldo da balança de pagamentos, a quantidade de moeda externa existente internamente, etc., enfim, um emaranhado de situações que não corresponde hoje a nenhum padrão. Por exemplo, no Brasil, a moeda local, o real, tem vindo a valorizar-se em relação ao dólar pela simples razão de existirem dólares em excesso no mercado interno e o saldo da comercial entre importações e exportações é ainda favorável em cerca de 4 bilhões de dólares. A grosso modo e perdoem-me os especialistas, é isto o que acontece.
Evidentemente que a crise que se vive actualmente resulta do excessivo consumismo promovido incessantemente na sociedade, levando esta a consumir cada vez mais coisas que não precisa e a endividar-se cada vez mais. Depois resulta também da competição entre as empresas na conquista de mercados, oferecendo facilidades de crédito sem quaisquer garantias.
Há uns dois ou três anos que ouço falar na crise do mercado imobiliário nos EUA. Não acredito que os bancos americanos não soubessem da situação e que esta se estava a tornar perigosa. Mesmo assim continuaram a emprestar dinheiro. Não acredito que os bancos internacionais também não estivessem informados. Mesmo assim, compraram os tais papeis emitidos pelos bancos americanos e que agora não têm nenhum valor.
Mas nada parece estar perdido, o Estado americano tem um plano de empréstimo (é empréstimo?) para salvar os bancos e as instituições financeiras da bancarrota, qualquer coisa como 800 mil bilhões de dólares, uma quantia que não consigo sequer imaginar. A Comunidade Europeia parece que quer fazer a mesma coisa para salvar os bancos que compraram os tais papeis falsos. Injectando todo esse dinheiro, as instituições financeiras passam a ter de novo liquidez e podem continuar a operar no mercado. Mas… quem vai pagar tudo isso? Onde é que o Estado americano vai buscar esse dinheiro todo? Vai simplesmente emitir papel moeda, aumentando a sua dívida interna que julgo que é a maior do mundo e que nunca será paga certamente? Vai continuar a fomentar guerras para se recuperar à custa da desgraça dos outros?
Os tempos que se avizinham estão carregados de perspectivas sombrias. Sabemos quem é que irá pagar a factura, não serão certamente aqueles que provocaram toda a situação. Provavelmente os países fornecedores de matérias primas verão os preços desses produtos baixarem demasiadamente, aumentando a sua pobreza e dependência; teremos muito provavelmente uma grande carestia de vida, acompanhada por uma subida em flexa dos impostos. O dinheiro poderá perder completamente o seu valor e as propriedades não terão qualquer valor pois não haverá dinheiro para comprá-las. Estarei a ser demasiadamente pessimista? Aguardemos.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
A Guerra dos Imbecis
Acreditar que o mundo, o universo e o homem foram criados há cerca de seis mil anos, número deduzido do Génesis da Bíblia somando a idade dos patriarcas, é pura ignorância. Mas se a pessoa não é ignorante, de presumível cultura e conhecimentos, então passa à condição de imbecil. Pior ainda, se tenta convencer outros destas suas ideias criacionistas, será um imbecil de má fé.
É um facto que a ciência tem tido sérias dificuldades para chegar a um consenso sobre a origem e evolução do homem. Mas também é um facto incontroverso que todos os dias surgem mais pistas, mais fósseis são achados, o que não vem esclarecer nada, mas aumentar apenas a confusão E depois há essa coisa do elo perdido, quer dizer, não se percebe muito bem como é que o homem passou de um estágio a outro mais evoluído sem haver uma ligação visível com o estágio anterior. Mas se a confusão existe, é porque há muito material a ser investigado e muitas teorias a serem desenvolvidas de forma coerente, o que não justifica que nos voltemos para o criacionismo literal da Bíblia para resovermos a questão.
Apesar de tudo já se sabe muito sobre a ancestralidade do homem, ou do homo sapiens, como somos actualmente classificados. Apesar de ter havido vários homos, nenhum deles sobreviveu de modo a que pudéssemos achar um elo entre esses homos e o actual.
Durante muito tempo acreditou-se que o homo sapiens tivesse evoluído a partir do homem de Neanderthal, mas as análises recentes de DNA vieram demonstrar que não há nenhuma ligação genética entre os dois, embora tivessem sido mais ou menos contemporâneos há cerca de 200.000 anos. Em tempos mais remotos vamos encontrar vários espécimes de homo, como por exemplo o homo habilis, o ergaster ou o homo erectus, todos vivendo entre cerca de 2,4 e 1,25 milhões de anos atrás. Depois vem o homo heidelbergensis com uma antiguidade entre 800 e 300 mil anos. Há 160 mil anos terá vivido o homo sapiens idaltu, muito parecido anatomicamente com o homem actual. Em 2004 descobriu-se o homo floresiensis, que terá vivido há cerca de 12 mil anos e era praticamente um anão, de tamanho muito pequeno. O homo sapiens, os nossos verdadeiros ancestrais, surgiram há 200 mil anos.
Como é que este homo sapiens apareceu ninguém sabe verdadeiramente, daí o chamado elo perdido. Podemos até pensar numa intervenção alienígena, alterando geneticamente algum dos homos existente, a qual teria passado a intervenção divina em termos religiosos, mas se houve intervenção, foi há muito mais tempo dos que os 6 mil anos bíblicos. Seja como for, parece que os nossos antepassados eram africanos e, provavelmente, negros, para desespero dos ainda racistas, apesar de demonstrado que pode haver mais diferenças genéticas entre dois homens da mesma raça do que de raças diferentes.
Para comprovar a nossa origem africana, a Universidade da Califórnia realizou em 1986 uma pesquisa através do DNA mitocondrial, a parte do DNA que só se transmite pela via feminina, com o fim de tentar saber qual a nossa origem mais remota, a Eva primordial. Seleccionaram várias mulheres de várias raças e etnias e chegaram à conclusão de que todos temos origem numa Eva africana que terá vivido no sudeste daquele continente há 150 mil anos.
Nos últimos anos, grupos pertencentes principalmente a igrejas evangélicas e protestantes, têm levado a cabo nos EUA e Inglaterra uma verdadeira guerra jurídica exigindo que as escolas passem a ensinar o criacionismo bíblico em vez da teoria da evolução das espécies. Ou seja, pretendem apagar das mentes das crianças todo o conhecimento actual sobre a evolução da vida, substituindo-o pela crença de que o mundo e tudo o resto foi criado por Deus há seis mil anos. Para além da militância destes grupos protestantes, há também entre os católicos e os anglicanos quem acredite que o mundo não tem mais de seis mil anos.
Em recente discurso na Inglaterra, o reverendo anglicano Michael Reiss sugeriu que as escolas deveriam incluir o criacionismo no currículo escolar. O mais grave de tudo foi esta sugestão vir de alguém que tinha o cargo de director de educação da Royal Society, a mais famosa e prestigiada sociedade científica da Inglaterra. Estas declarações provocaram uma tempestade de reacções, a começar pela sua imediata demissão do cargo que ocupava na Royal Society. A Igreja Anglicana pediu desculpas públicas dizendo que a posição de alguns clérigos não é a posição oficial da Igreja, que nunca condenou Darwin pelas suas ideias. O Vaticano reagiu também dizendo que não há contradição entre as teorias evolucionistas e a fé católica.
Ponho-me a imaginar se algum desses clérigos atingisse o poder em alguns dos países onde se candidatam a cargos, incluindo o de presidente da república, como é que ficaria a educação. Voltaríamos aos tempos pré-Galileu?
É um facto que a ciência tem tido sérias dificuldades para chegar a um consenso sobre a origem e evolução do homem. Mas também é um facto incontroverso que todos os dias surgem mais pistas, mais fósseis são achados, o que não vem esclarecer nada, mas aumentar apenas a confusão E depois há essa coisa do elo perdido, quer dizer, não se percebe muito bem como é que o homem passou de um estágio a outro mais evoluído sem haver uma ligação visível com o estágio anterior. Mas se a confusão existe, é porque há muito material a ser investigado e muitas teorias a serem desenvolvidas de forma coerente, o que não justifica que nos voltemos para o criacionismo literal da Bíblia para resovermos a questão.
Apesar de tudo já se sabe muito sobre a ancestralidade do homem, ou do homo sapiens, como somos actualmente classificados. Apesar de ter havido vários homos, nenhum deles sobreviveu de modo a que pudéssemos achar um elo entre esses homos e o actual.
Durante muito tempo acreditou-se que o homo sapiens tivesse evoluído a partir do homem de Neanderthal, mas as análises recentes de DNA vieram demonstrar que não há nenhuma ligação genética entre os dois, embora tivessem sido mais ou menos contemporâneos há cerca de 200.000 anos. Em tempos mais remotos vamos encontrar vários espécimes de homo, como por exemplo o homo habilis, o ergaster ou o homo erectus, todos vivendo entre cerca de 2,4 e 1,25 milhões de anos atrás. Depois vem o homo heidelbergensis com uma antiguidade entre 800 e 300 mil anos. Há 160 mil anos terá vivido o homo sapiens idaltu, muito parecido anatomicamente com o homem actual. Em 2004 descobriu-se o homo floresiensis, que terá vivido há cerca de 12 mil anos e era praticamente um anão, de tamanho muito pequeno. O homo sapiens, os nossos verdadeiros ancestrais, surgiram há 200 mil anos.
Como é que este homo sapiens apareceu ninguém sabe verdadeiramente, daí o chamado elo perdido. Podemos até pensar numa intervenção alienígena, alterando geneticamente algum dos homos existente, a qual teria passado a intervenção divina em termos religiosos, mas se houve intervenção, foi há muito mais tempo dos que os 6 mil anos bíblicos. Seja como for, parece que os nossos antepassados eram africanos e, provavelmente, negros, para desespero dos ainda racistas, apesar de demonstrado que pode haver mais diferenças genéticas entre dois homens da mesma raça do que de raças diferentes.
Para comprovar a nossa origem africana, a Universidade da Califórnia realizou em 1986 uma pesquisa através do DNA mitocondrial, a parte do DNA que só se transmite pela via feminina, com o fim de tentar saber qual a nossa origem mais remota, a Eva primordial. Seleccionaram várias mulheres de várias raças e etnias e chegaram à conclusão de que todos temos origem numa Eva africana que terá vivido no sudeste daquele continente há 150 mil anos.
Nos últimos anos, grupos pertencentes principalmente a igrejas evangélicas e protestantes, têm levado a cabo nos EUA e Inglaterra uma verdadeira guerra jurídica exigindo que as escolas passem a ensinar o criacionismo bíblico em vez da teoria da evolução das espécies. Ou seja, pretendem apagar das mentes das crianças todo o conhecimento actual sobre a evolução da vida, substituindo-o pela crença de que o mundo e tudo o resto foi criado por Deus há seis mil anos. Para além da militância destes grupos protestantes, há também entre os católicos e os anglicanos quem acredite que o mundo não tem mais de seis mil anos.
Em recente discurso na Inglaterra, o reverendo anglicano Michael Reiss sugeriu que as escolas deveriam incluir o criacionismo no currículo escolar. O mais grave de tudo foi esta sugestão vir de alguém que tinha o cargo de director de educação da Royal Society, a mais famosa e prestigiada sociedade científica da Inglaterra. Estas declarações provocaram uma tempestade de reacções, a começar pela sua imediata demissão do cargo que ocupava na Royal Society. A Igreja Anglicana pediu desculpas públicas dizendo que a posição de alguns clérigos não é a posição oficial da Igreja, que nunca condenou Darwin pelas suas ideias. O Vaticano reagiu também dizendo que não há contradição entre as teorias evolucionistas e a fé católica.
Ponho-me a imaginar se algum desses clérigos atingisse o poder em alguns dos países onde se candidatam a cargos, incluindo o de presidente da república, como é que ficaria a educação. Voltaríamos aos tempos pré-Galileu?
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Segredos do Cristianismo - V - A Jihad Cristã
“Jihad” é um termo que se aplica quase exclusivamente ao Islamismo, em cujo livro sagrado, o “Alcorão”, que terá sido transmitido ao profeta Muhammad (Maomé) pelo anjo Gabriel, aparece umas vinte e três ou vinte e quatro vezes referido. O seu significado em termos literais quer dizer luta, combate. Na verdade, parece que o “Alcorão” não terá sido escrito por Muhammad, mas sim pelos seus seguidores após a sua morte e ascensão aos céus no local de Jerusalém hoje chamado de “Cúpula Dourada”, pois encima uma das principais mesquitas do Islão e foi também o local onde Abraão foi convidado por Deus a sacrificar o seu filho Isaac. O “Alcorão” terá assim sido compilado segundo relatos orais de Muhammad.
Segundo a interpretação de muçulmanos mais eruditos, este combate realiza-se a dois níveis: o interno e o externo. Internamente, trata-se da luta que o homem trava consigo mesmo, tentando controlar os seus desejos e emoções mais primárias para que se torne num homem justo de acordo com os mandamentos de Allah. Externamente é a luta pela defesa da Nação Islâmica, quando esta se encontra ameaçada.
Como em todas as religiões, existem os grupos e elementos mais radicais que interpretam as coisas à sua maneira e de modo a coincidirem com os seus objectivos. Estes elementos, de que os talibãs são o exemplo vivo, interpretam a “Jihad” como a guerra contra o infiel, sendo infiel todo aquele que não segue as regras do Islão. Portanto, trata-se, neste caso, da chamada “Guerra Santa” que o mundo muçulmano trava contra o Ocidente. Infelizmente temos hoje numerosos exemplos desta “Guerra Santa”, traduzidos em atentados contra alvos ocidentais ou, contra Israel, que representa esse mundo ocidental e é uma faca espetada no meio da nação árabe. A escalada de violência a que temos assistido nos últimos tempos reflecte a luta entre o islamismo radical e as forças “satânicas” do poder ocidental, mas este será assunto para uma outra crónica de características diferentes.
Não se sabe quando é que a designação de “Guerra Santa” começou a ser usada. Talvez tenha começado a ser usada quando da invasão árabe da Península Ibérica, em 711, embora não se possa chamar propriamente de invasão árabe, dado que se tratava mais de povos berberes do norte de África, conhecidos como mouros. Mas esta invasão foi mais para atender um pedido de ajuda dos povos submetidos pelo império Visigodo do que por iniciativa dos muçulmanos. Pela primeira vez na Europa se defrontavam duas religiões: de um lado os muçulmanos, do outro os cristãos, tratando-se uns aos outros por infiéis.
Claro que já tinha havido confrontos, mas não na Europa. Depois da morte de Muhammad (632), os muçulmanos lançam-se contra o Império Bizantino (cristão ortodoxo) e conseguem conquistar a Síria, a Palestina e o Egipto. Os bizantinos conseguem manter a sua capital, Constantinopla. Lançam-se depois contra a Europa do sul e as ilhas mediterrânicas. E assim, conquistam um extenso império mas, devido à sua natureza tolerante e uma brilhante cultura, muito acima da existente na Europa na época, não conseguem manter a unidade desse império que, a pouco e pouco começa a desagregar-se. Por um lado começam a ter de enfrentar a reacção dos países cristãos no seu esforço de reconquista, por outro lado começam a aparecer novos califas e potentados que tentam a separação e independência nos territórios mais distantes.
No início do 2º milénio a Europa era o que ficou expresso nos romances da demanda do Santo Graal como “uma terra devastada”. Este tema prende-se com a situação que se vivia na Europa naquele tempo. Ultrapassada a data “fatídica” do 1º milénio, carregada com as sombras negras das profecias de fim do mundo, a Europa vivia num autêntico caos, dominada pelo poder absoluto de Roma. Terra devastada refere-se à dissolução de costumes, ausência de valores morais e à injustiça de uma sociedade compartimentada entre nobres ociosos, padres viciosos e uma população miserável e escravizada. Esta população era constituída maioritariamente por camponeses que trabalhavam a terra para os seus senhores. Não possuíam a terra, não eram escravos, pois não podiam ser vendidos, mas viviam numa servidão absoluta ligada à terra de onde não poderiam nunca sair. Se a terra fosse vendida, esses servos acompanhavam a terra para os novos senhores. A sua situação miserável e de servidão era imutável. Apesar da quase totalidade da população estar agregada à terra, a agricultura era incipiente na maioria dos Estados. Os nobres e senhores das terras passavam o tempo quase exclusivamente a guerrearem-se mutuamente, a combater uns com os outros, conquistando terras e castelos e fazendo variar as fronteiras indefinidamente. A fome e a doença grassavam por todo o lado. A moral era baixa ou, em muitos casos não havia sequer regras morais, excepto aquelas impostas pela Igreja Católica que, no meio de toda aquela confusão estava mais interessada em firmar o seu poder temporal em vez de se preocupar com a moral reinante. Salvo raras excepções, os membros do clero não primavam também por um comportamento moral que fosse um reflexo de bons costumes para a sociedade.
O sistema social em vigor na Idade Média contribuía fortemente para esta situação. Os camponeses, chamados em algumas regiões “moços da gleba”, não tinham nenhuns direitos, a própria vida dependia da vontade e, muitas vezes, do humor dos seus senhores. Não tinham direito a qualquer propriedade e o que conseguiam produzir da terra lhes era retirado quase na totalidade pelo dono da terra. Não tinham direito a manter a sua família dentro de padrões morais, as suas filhas serviam muitas vezes de concubinas satisfazendo os apetites sexuais dos nobres e dos filhos dos nobres desocupados, que as largavam depois para casarem com um camponês qualquer e continuar a sua vida de miséria. Não havia a menor possibilidade de um camponês ascender na escala social, atingir um estatuto de nobreza ou ser um religioso. Estas situações estavam reservadas à classe nobre. Quer dizer, havia apenas três classes sociais: a Nobreza, o Clero e o Povo. O povo nunca poderia deixar de ser povo, nascia povo, vivia povo e morria povo, muitas vezes morria a defender as terras do seu senhor ou a ajudar o seu senhor a atacar as terras de outros.
Na Nobreza as coisas também não eram fáceis. O único que tinha direito a herdar o título, a fortuna e as propriedades era o filho varão mais velho que estivesse vivo na hora da morte do seu progenitor. Todos os outros filhos e filhas não tinham direito a nada. Os filhos varões tinham três opções de vida: ou ficavam a viver à conta do irmão mais velho, que seria o conde, o duque ou o marquês; ou colocavam-se ao serviço como cavaleiros de um senhor qualquer e passavam a vida a pelejar; ou entravam para um seminário ou um mosteiro e tornavam-se religiosos. Muitos tornavam-se cavaleiros andarilhos oferecendo os seus serviços aqui e ali, até um dia serem mortos numa refrega qualquer. Esta situação está magistralmente relatada na obra “D. Quixote de la Mancha” de Cervantes. O tolo do D. Quixote procura desesperadamente um motivo que justifique a sua existência e a sua condição de cavaleiro andarilho. Dulcineia, a dama por quem se mete em todas as aventuras é a sua anima, o seu lado feminino que procura compensar a brutalidade da sua profissão de cavaleiro. Em outras palavras é o seu Graal pessoal, que procura alcançar, sujeitando-se às cenas e atitudes mais ridículas.
As filhas da Nobreza tinham um destino complicado: ou a família as conseguia casar com algum senhor de bens, normalmente um casamento negociado, ou seguiam o caminho religioso entrando para um convento, onde seguiriam o percurso normal de noviça a freira.
A situação era praticamente incontrolável e havia que encontrar uma saída para ela. No sul da Europa, no norte de África e pressionando o Império Bizantino estava o inimigo principal, o império dos infiéis que, além de tudo o mais, ocupavam a Terra Santa. O Papa Urbano II clamou pela defesa dos peregrinos na Terra Santa e mandou organizar aquela que foi classificada como 1ª Cruzada. Foi assim que começou a “Guerra Santa”, a “Jihad” cristã, que não mais parou durante os próximos séculos.
Esta 1ª Cruzada foi chamada de Cruzada dos Cavaleiros, porque os elementos que a compunham eram em grande parte constituídos por nobres, gente que pertencia à nobreza europeia. Mas reuniu também muita da escumalha que abundava na Europa e que não se tinha juntado à outra Cruzada, essa chamada de Cruzada Popular ou dos Mendigos. O Papa prometeu as maiores indulgências a quem permanecesse na Cruzada, todos os pecados seriam perdoados e um lugar no céu estaria à sua espera. Quantos mais infiéis matasse, mais fácil seria a sua entrada no Paraíso.
Esta 1ª Cruzada conseguiu reconquistar Jerusalém para a cristandade, à custa de um autêntico banho de sangue em que ninguém foi poupado, homens, mulheres, crianças, velhos, judeus, cristãos ortodoxos, todos foram chacinados. Para além deste feito odioso, a 1ª Cruzada conseguiu destruir a sociedade mais culta e evoluída da época.
Segundo alguns autores, a 1ª Cruzada teria à partida cerca de 600.000 homens entre combatentes e pessoal de apoio. Outros afirmam que não teria mais do que 60.000. Acredito mais neste último número, que deve estar mais próximo da realidade, pois muitos cronistas antigos gostavam de exagerar os números. Como no caso de Maara, cidade tomada pelos cruzados no seu caminho para Jerusalém em que o cronista árabe Ibn al-Athir afirma: “Durante três dias, eles passaram as pessoas a fio de espada, matando mais de cem mil criaturas e fazendo muitos prisioneiros” . Isto é um perfeito exagero pois Maara, na altura, não deveria ter mais do que dez mil habitantes. Mas não é exagerada a descrição do cronista Raul de Caen quando se refere aos acontecimentos de Maara: “Em Maara, os nossos coziam pagãos adultos nos caldeiros, enfiavam as crianças em espetos e devoravam-nas assadas” . Necessidade de sobrevivência ou fanatismo? Provavelmente ambas as coisas, pois se por um lado parece que a fome grassava nas fileiras cruzadas, por outro lado os “franji”, como eram chamados pelos árabes, não deviam considerar aquela gente como seres humanos. Como o facto se tornou demasiadamente conhecido, os chefes da Cruzada viram-se obrigados a enviar uma carta ao Papa em que afirmavam: Uma terrível fome atormentou o exército em Maara e pô-lo na cruel necessidade de se alimentar dos cadáveres dos sarracenos” .
Dos 60.000 que havia à partida da 1ª Cruzada, apenas uns 15.000 chegaram á vista de Jerusalém, seu objectivo final. Pelo caminho, as doenças, a fome, a sede, os naufrágios, as batalhas que tiveram que travar contra os seus opositores, foram dizimando o exército cruzado. Antecedendo o banho de sangue em que se transformaria a tomada da Cidade Santa, os cruzados organizaram uma procissão em volta das muralhas da cidade, agradecendo e pedindo a ajuda divina para o assalto final.
As Cruzadas oficiais duraram até 1291, ano em que a 9ª Cruzada perdeu a fortaleza do Acre, o último bastião cristão na Palestina. Mas além destas 9 oficiais houve outras. Já falámos da Cruzada Popular ou dos Mendigos, que se adiantou à 1ª Cruzada. Organizada por um monge, Pedro o Eremita, que conseguiu convencer uma multidão de deserdados da sorte, incluindo mulheres, velhos e crianças, a deslocar-se até à Palestina para resgatar os lugares santos, e dirigida por um cavaleiro tipo D. Quixote, Guautério Sem-Haveres, foi uma Cruzada tumultuosa, criando desacatos pelos lugares por onde ia passando, matando quantos judeus encontravam pelo caminho. Quando chegou às portas de Constantinopla não passava de uma multidão de maltrapilhos esfomeados e mal equipados. Expulsos de Constantinopla por terem começado também a saquear a cidade, foram completamente dizimados pelos turcos quando tentaram tomar Niceia.
Uma cruzada fora do contexto de combate e reconquista das terras tomadas pelos infiéis, foi a Cruzada Albigense, convocada pelo Papa Inocêncio III para combater o catarismo que grassava no sul de França, numa região conhecida pelo nome de Languedoc. Nessa altura já a Inquisição estava perfeitamente actuante e foi ela que conduziu a Cruzada às mais nefastas consequências, culminando com uma imensa fogueira em frente do castelo de Montségur em que os últimos 256 cátaros, que tinham resistido até ao fim, foram queimados vivos.
Sobre os cátaros, assim como sobre praticamente toda a actividade da Inquisição durante séculos, sabemos apenas a versão dos "vencedores”, quer dizer, a versão oficial que a Igreja permitiu que fosse conhecida. Toda a restante documentação, se é que houve alguma outra documentação, foi destruída e queimada. Mesmo assim, o quadro que nos chega é suficientemente tenebroso e perfeito reflexo do que se designou como Idade das Trevas. No caso cátaro, toda a região próxima de Toulouse e Carcassone foi pilhada e suas vilas e aldeias arrasadas. Centenas e centenas de pessoas foram queimadas vivas, numa selvajaria digna de um filme de terror. A “Santa Cruzada”, como também foi chamada, é responsável pelo extermínio de mais de 15 mil homens, mulheres e crianças na cidade de Beziers. Quando perguntaram a Arnaud Amaury, arcebispo de Narbonne e representante oficial do Papa como é que distinguia os hereges dos crentes verdadeiros, ele respondeu:”Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus”. O Papa Inocêncio III por sua vez havia prometido a todos os que permanecessem na Cruzada durante pelo menos 40 dias, a completa absolvição de todos os pecados.
A Cruzada Albigense dá-nos um retrato do que era o domínio da Igreja romana sobre toda a Europa. Ao domínio temporal juntava o domínio espiritual. Ninguém se podia afastar dos seus dogmas e da sua doutrina, sob pena de cair na alçada da Sagrada Inquisição. O catarismo foi um movimento de retorno aos princípios cristãos primordiais e que rapidamente conquistou numerosos adeptos, não só no sul de França, mas também no reino de Aragão, na antiga Germânia, na antiga Bulgária, um pouco por toda a parte, onde tomou nomes diferentes. Pagaram todos muito caro pela tentativa de se libertarem dos aguilhões da Igreja romana.
Para completar o quadro tenebroso em que se vivia e que estava presente no espírito das Cruzadas, houve também uma Cruzada das Crianças, realizada a partir da França e da Alemanha e baseada na crença de que somente almas puras (crianças) poderiam libertar Jerusalém. Foi um desastre completo, a maioria das crianças morreu de fome e de frio e as que sobreviveram acabaram por ser vendidas como escravos no norte de África.
A Jihad cristã iria durar mais de cinco séculos, conduzida magistralmente pela Inquisição, que soube levar o terror a todos os cantos do mundo conhecido.
Segundo a interpretação de muçulmanos mais eruditos, este combate realiza-se a dois níveis: o interno e o externo. Internamente, trata-se da luta que o homem trava consigo mesmo, tentando controlar os seus desejos e emoções mais primárias para que se torne num homem justo de acordo com os mandamentos de Allah. Externamente é a luta pela defesa da Nação Islâmica, quando esta se encontra ameaçada.
Como em todas as religiões, existem os grupos e elementos mais radicais que interpretam as coisas à sua maneira e de modo a coincidirem com os seus objectivos. Estes elementos, de que os talibãs são o exemplo vivo, interpretam a “Jihad” como a guerra contra o infiel, sendo infiel todo aquele que não segue as regras do Islão. Portanto, trata-se, neste caso, da chamada “Guerra Santa” que o mundo muçulmano trava contra o Ocidente. Infelizmente temos hoje numerosos exemplos desta “Guerra Santa”, traduzidos em atentados contra alvos ocidentais ou, contra Israel, que representa esse mundo ocidental e é uma faca espetada no meio da nação árabe. A escalada de violência a que temos assistido nos últimos tempos reflecte a luta entre o islamismo radical e as forças “satânicas” do poder ocidental, mas este será assunto para uma outra crónica de características diferentes.
Não se sabe quando é que a designação de “Guerra Santa” começou a ser usada. Talvez tenha começado a ser usada quando da invasão árabe da Península Ibérica, em 711, embora não se possa chamar propriamente de invasão árabe, dado que se tratava mais de povos berberes do norte de África, conhecidos como mouros. Mas esta invasão foi mais para atender um pedido de ajuda dos povos submetidos pelo império Visigodo do que por iniciativa dos muçulmanos. Pela primeira vez na Europa se defrontavam duas religiões: de um lado os muçulmanos, do outro os cristãos, tratando-se uns aos outros por infiéis.
Claro que já tinha havido confrontos, mas não na Europa. Depois da morte de Muhammad (632), os muçulmanos lançam-se contra o Império Bizantino (cristão ortodoxo) e conseguem conquistar a Síria, a Palestina e o Egipto. Os bizantinos conseguem manter a sua capital, Constantinopla. Lançam-se depois contra a Europa do sul e as ilhas mediterrânicas. E assim, conquistam um extenso império mas, devido à sua natureza tolerante e uma brilhante cultura, muito acima da existente na Europa na época, não conseguem manter a unidade desse império que, a pouco e pouco começa a desagregar-se. Por um lado começam a ter de enfrentar a reacção dos países cristãos no seu esforço de reconquista, por outro lado começam a aparecer novos califas e potentados que tentam a separação e independência nos territórios mais distantes.
No início do 2º milénio a Europa era o que ficou expresso nos romances da demanda do Santo Graal como “uma terra devastada”. Este tema prende-se com a situação que se vivia na Europa naquele tempo. Ultrapassada a data “fatídica” do 1º milénio, carregada com as sombras negras das profecias de fim do mundo, a Europa vivia num autêntico caos, dominada pelo poder absoluto de Roma. Terra devastada refere-se à dissolução de costumes, ausência de valores morais e à injustiça de uma sociedade compartimentada entre nobres ociosos, padres viciosos e uma população miserável e escravizada. Esta população era constituída maioritariamente por camponeses que trabalhavam a terra para os seus senhores. Não possuíam a terra, não eram escravos, pois não podiam ser vendidos, mas viviam numa servidão absoluta ligada à terra de onde não poderiam nunca sair. Se a terra fosse vendida, esses servos acompanhavam a terra para os novos senhores. A sua situação miserável e de servidão era imutável. Apesar da quase totalidade da população estar agregada à terra, a agricultura era incipiente na maioria dos Estados. Os nobres e senhores das terras passavam o tempo quase exclusivamente a guerrearem-se mutuamente, a combater uns com os outros, conquistando terras e castelos e fazendo variar as fronteiras indefinidamente. A fome e a doença grassavam por todo o lado. A moral era baixa ou, em muitos casos não havia sequer regras morais, excepto aquelas impostas pela Igreja Católica que, no meio de toda aquela confusão estava mais interessada em firmar o seu poder temporal em vez de se preocupar com a moral reinante. Salvo raras excepções, os membros do clero não primavam também por um comportamento moral que fosse um reflexo de bons costumes para a sociedade.
O sistema social em vigor na Idade Média contribuía fortemente para esta situação. Os camponeses, chamados em algumas regiões “moços da gleba”, não tinham nenhuns direitos, a própria vida dependia da vontade e, muitas vezes, do humor dos seus senhores. Não tinham direito a qualquer propriedade e o que conseguiam produzir da terra lhes era retirado quase na totalidade pelo dono da terra. Não tinham direito a manter a sua família dentro de padrões morais, as suas filhas serviam muitas vezes de concubinas satisfazendo os apetites sexuais dos nobres e dos filhos dos nobres desocupados, que as largavam depois para casarem com um camponês qualquer e continuar a sua vida de miséria. Não havia a menor possibilidade de um camponês ascender na escala social, atingir um estatuto de nobreza ou ser um religioso. Estas situações estavam reservadas à classe nobre. Quer dizer, havia apenas três classes sociais: a Nobreza, o Clero e o Povo. O povo nunca poderia deixar de ser povo, nascia povo, vivia povo e morria povo, muitas vezes morria a defender as terras do seu senhor ou a ajudar o seu senhor a atacar as terras de outros.
Na Nobreza as coisas também não eram fáceis. O único que tinha direito a herdar o título, a fortuna e as propriedades era o filho varão mais velho que estivesse vivo na hora da morte do seu progenitor. Todos os outros filhos e filhas não tinham direito a nada. Os filhos varões tinham três opções de vida: ou ficavam a viver à conta do irmão mais velho, que seria o conde, o duque ou o marquês; ou colocavam-se ao serviço como cavaleiros de um senhor qualquer e passavam a vida a pelejar; ou entravam para um seminário ou um mosteiro e tornavam-se religiosos. Muitos tornavam-se cavaleiros andarilhos oferecendo os seus serviços aqui e ali, até um dia serem mortos numa refrega qualquer. Esta situação está magistralmente relatada na obra “D. Quixote de la Mancha” de Cervantes. O tolo do D. Quixote procura desesperadamente um motivo que justifique a sua existência e a sua condição de cavaleiro andarilho. Dulcineia, a dama por quem se mete em todas as aventuras é a sua anima, o seu lado feminino que procura compensar a brutalidade da sua profissão de cavaleiro. Em outras palavras é o seu Graal pessoal, que procura alcançar, sujeitando-se às cenas e atitudes mais ridículas.
As filhas da Nobreza tinham um destino complicado: ou a família as conseguia casar com algum senhor de bens, normalmente um casamento negociado, ou seguiam o caminho religioso entrando para um convento, onde seguiriam o percurso normal de noviça a freira.
A situação era praticamente incontrolável e havia que encontrar uma saída para ela. No sul da Europa, no norte de África e pressionando o Império Bizantino estava o inimigo principal, o império dos infiéis que, além de tudo o mais, ocupavam a Terra Santa. O Papa Urbano II clamou pela defesa dos peregrinos na Terra Santa e mandou organizar aquela que foi classificada como 1ª Cruzada. Foi assim que começou a “Guerra Santa”, a “Jihad” cristã, que não mais parou durante os próximos séculos.
Esta 1ª Cruzada foi chamada de Cruzada dos Cavaleiros, porque os elementos que a compunham eram em grande parte constituídos por nobres, gente que pertencia à nobreza europeia. Mas reuniu também muita da escumalha que abundava na Europa e que não se tinha juntado à outra Cruzada, essa chamada de Cruzada Popular ou dos Mendigos. O Papa prometeu as maiores indulgências a quem permanecesse na Cruzada, todos os pecados seriam perdoados e um lugar no céu estaria à sua espera. Quantos mais infiéis matasse, mais fácil seria a sua entrada no Paraíso.
Esta 1ª Cruzada conseguiu reconquistar Jerusalém para a cristandade, à custa de um autêntico banho de sangue em que ninguém foi poupado, homens, mulheres, crianças, velhos, judeus, cristãos ortodoxos, todos foram chacinados. Para além deste feito odioso, a 1ª Cruzada conseguiu destruir a sociedade mais culta e evoluída da época.
Segundo alguns autores, a 1ª Cruzada teria à partida cerca de 600.000 homens entre combatentes e pessoal de apoio. Outros afirmam que não teria mais do que 60.000. Acredito mais neste último número, que deve estar mais próximo da realidade, pois muitos cronistas antigos gostavam de exagerar os números. Como no caso de Maara, cidade tomada pelos cruzados no seu caminho para Jerusalém em que o cronista árabe Ibn al-Athir afirma: “Durante três dias, eles passaram as pessoas a fio de espada, matando mais de cem mil criaturas e fazendo muitos prisioneiros” . Isto é um perfeito exagero pois Maara, na altura, não deveria ter mais do que dez mil habitantes. Mas não é exagerada a descrição do cronista Raul de Caen quando se refere aos acontecimentos de Maara: “Em Maara, os nossos coziam pagãos adultos nos caldeiros, enfiavam as crianças em espetos e devoravam-nas assadas” . Necessidade de sobrevivência ou fanatismo? Provavelmente ambas as coisas, pois se por um lado parece que a fome grassava nas fileiras cruzadas, por outro lado os “franji”, como eram chamados pelos árabes, não deviam considerar aquela gente como seres humanos. Como o facto se tornou demasiadamente conhecido, os chefes da Cruzada viram-se obrigados a enviar uma carta ao Papa em que afirmavam: Uma terrível fome atormentou o exército em Maara e pô-lo na cruel necessidade de se alimentar dos cadáveres dos sarracenos” .
Dos 60.000 que havia à partida da 1ª Cruzada, apenas uns 15.000 chegaram á vista de Jerusalém, seu objectivo final. Pelo caminho, as doenças, a fome, a sede, os naufrágios, as batalhas que tiveram que travar contra os seus opositores, foram dizimando o exército cruzado. Antecedendo o banho de sangue em que se transformaria a tomada da Cidade Santa, os cruzados organizaram uma procissão em volta das muralhas da cidade, agradecendo e pedindo a ajuda divina para o assalto final.
As Cruzadas oficiais duraram até 1291, ano em que a 9ª Cruzada perdeu a fortaleza do Acre, o último bastião cristão na Palestina. Mas além destas 9 oficiais houve outras. Já falámos da Cruzada Popular ou dos Mendigos, que se adiantou à 1ª Cruzada. Organizada por um monge, Pedro o Eremita, que conseguiu convencer uma multidão de deserdados da sorte, incluindo mulheres, velhos e crianças, a deslocar-se até à Palestina para resgatar os lugares santos, e dirigida por um cavaleiro tipo D. Quixote, Guautério Sem-Haveres, foi uma Cruzada tumultuosa, criando desacatos pelos lugares por onde ia passando, matando quantos judeus encontravam pelo caminho. Quando chegou às portas de Constantinopla não passava de uma multidão de maltrapilhos esfomeados e mal equipados. Expulsos de Constantinopla por terem começado também a saquear a cidade, foram completamente dizimados pelos turcos quando tentaram tomar Niceia.
Uma cruzada fora do contexto de combate e reconquista das terras tomadas pelos infiéis, foi a Cruzada Albigense, convocada pelo Papa Inocêncio III para combater o catarismo que grassava no sul de França, numa região conhecida pelo nome de Languedoc. Nessa altura já a Inquisição estava perfeitamente actuante e foi ela que conduziu a Cruzada às mais nefastas consequências, culminando com uma imensa fogueira em frente do castelo de Montségur em que os últimos 256 cátaros, que tinham resistido até ao fim, foram queimados vivos.
Sobre os cátaros, assim como sobre praticamente toda a actividade da Inquisição durante séculos, sabemos apenas a versão dos "vencedores”, quer dizer, a versão oficial que a Igreja permitiu que fosse conhecida. Toda a restante documentação, se é que houve alguma outra documentação, foi destruída e queimada. Mesmo assim, o quadro que nos chega é suficientemente tenebroso e perfeito reflexo do que se designou como Idade das Trevas. No caso cátaro, toda a região próxima de Toulouse e Carcassone foi pilhada e suas vilas e aldeias arrasadas. Centenas e centenas de pessoas foram queimadas vivas, numa selvajaria digna de um filme de terror. A “Santa Cruzada”, como também foi chamada, é responsável pelo extermínio de mais de 15 mil homens, mulheres e crianças na cidade de Beziers. Quando perguntaram a Arnaud Amaury, arcebispo de Narbonne e representante oficial do Papa como é que distinguia os hereges dos crentes verdadeiros, ele respondeu:”Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus”. O Papa Inocêncio III por sua vez havia prometido a todos os que permanecessem na Cruzada durante pelo menos 40 dias, a completa absolvição de todos os pecados.
A Cruzada Albigense dá-nos um retrato do que era o domínio da Igreja romana sobre toda a Europa. Ao domínio temporal juntava o domínio espiritual. Ninguém se podia afastar dos seus dogmas e da sua doutrina, sob pena de cair na alçada da Sagrada Inquisição. O catarismo foi um movimento de retorno aos princípios cristãos primordiais e que rapidamente conquistou numerosos adeptos, não só no sul de França, mas também no reino de Aragão, na antiga Germânia, na antiga Bulgária, um pouco por toda a parte, onde tomou nomes diferentes. Pagaram todos muito caro pela tentativa de se libertarem dos aguilhões da Igreja romana.
Para completar o quadro tenebroso em que se vivia e que estava presente no espírito das Cruzadas, houve também uma Cruzada das Crianças, realizada a partir da França e da Alemanha e baseada na crença de que somente almas puras (crianças) poderiam libertar Jerusalém. Foi um desastre completo, a maioria das crianças morreu de fome e de frio e as que sobreviveram acabaram por ser vendidas como escravos no norte de África.
A Jihad cristã iria durar mais de cinco séculos, conduzida magistralmente pela Inquisição, que soube levar o terror a todos os cantos do mundo conhecido.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Segredos do Cristianismo - IV - Origens Pagãs dos Rituais da Igreja
Na minha segunda crónica sobre este assunto, falei sobre a natureza pagã do Cristianismo. Embora isto possa ter chocado algumas pessoas, que continuam a achar que paganismo é algo de demoníaco e portanto, que o Cristianismo não pode ter tido tal génese, a origem dos rituais seguidos pelas igrejas cristãs é, definitivamente, pagã. Isto aplica-se também, de forma indirecta, à Maçonaria que, nos primeiros tempos, estava intimamente ligada à religião que acabava de emergir. Esta parte será objecto de outra crónica mas, posso adiantar que Paulo era mação e era denominado nos círculos restritos que frequentava como “o Mestre Construtor”.
São conhecidos vários mitos pagãos sobre o nascimento de um “salvador” que, durante a sua curta vida faz milagres, depois padece, é morto e ressuscita ao terceiro dia. Estes mitos anteriores ao Cristianismo existiram na região a que chamamos Médio Oriente ou, em regiões muito próximas. Mas indo um pouco mais longe, para um lugar bem distante, encontramos na frígida Finlândia uma lenda muito semelhante à da Virgem Maria. É Mariatta, Virgem-Mãe das terras nórdicas.
Ukko, o Grande Espírito, que mora no céu, escolhe encarnar-se em Homem-Deus através da virgem Mariatta. Repudiada pelos pais, que não acreditam que continue virgem estando grávida, abriga-se num estábulo onde, numa manjedoura, nasce o Santo Menino. A lenda tem continuação: a determinada altura o Menino desaparece e Mariatta vai à sua procura; pede ajuda à estrela, mas esta não consegue ajudá-la; acontece o mesmo com a Lua; somente o Sol, com pena dela, lhe diz:
“Acolá está a criança dourada;
Lá repousa dormindo teu Santo-Menino,
Encoberto pela água até à cintura,
Escondido pelos caniços e juncos.
Este poema faz lembrar uma das muitas versões do nascimento de Hórus, no Egipto, em que sua mãe, Ísis, sabendo-o ameaçado de morte por Seth, que já causara antes a morte de Osíris, o esconde no Nilo, no meio de caniços e juncos. Ísis também concebe Hórus como virgem pois, tendo recolhido e reunido os pedaços de Osíris depois da sua morte, não consegue encontrar o falo. Mas, por artes mágicas, consegue engravidar e gerar Hórus.
A palavra igreja deriva do termo latino “ecclesia”, ou do grego “ekklesia”, significando assembleia. Portanto, o verdadeiro significado de igreja é a assembleia de fiéis, e não o edifício onde se realizam os rituais. O termo mais apropriado para o edifício será templo, o local onde se realiza o culto. Durante os primeiros 250 anos da nossa era os grupos cristãos que se formaram não tinham templos nem altares, aliás abominavam uns e outros por serem locais de adoração pagã. Os cristãos primitivos seguiam os ensinamentos de Paulo, de que o homem era o único templo de Deus, no qual o Espírito Santo, o espírito de Deus, permanecia. Somente durante o reinado do imperador Deocleciano (235-284) adoptaram o costume pagão de adoração em templos.
Os altares foram copiados da “Ara Máxima” da Roma pagã. As aras (altares) romanas eram pedras quadradas que se colocavam perto de túmulos ou em templos, consagradas principalmente aos deuses dos lares. Os celtas também usavam essas pedras quadradas nas suas cerimónias druídicas, como por exemplo na Irlanda, onde os reis eram coroados sobre uma pedra idêntica – existe uma dessas pedras na abadia de Westminster, em Londres.
A palavra missa, ritual maior do cristianismo, deriva do hebraico “missah” ou “mizda”, que significa oferenda. Também deriva do latim “messis”, que significa colheita, donde Messias, aquele que faz amadurecer as colheitas. Nas festas romanas em honra da deusa Ceres, o ajudante do Grande Sacerdote, vestido de branco, colocava sobre a Hóstia (a oferenda do sacrifício), um pão de trigo, água e vinho. Esta oferenda era então erguida pelo Grande Sacerdote. A oferenda simbolizava os três reinos da Natureza: o pão de trigo, o reino vegetal; o cálice ou vaso de sacrifício, o mineral; e a estola do Grande Sacerdote, feita de pura lã branca de cordeiro, pousava uma das extremidades sobre o cálice.
Esta cerimónia é repetida, gesto por gesto, pelos padres modernos. No fim lavam os dedos das mãos, tal como o Grande Sacerdote que dizia: “Lavo minhas mãos entre o justo e rodearei o teu altar, ó Grande Deusa! (Ceres). Depois dava três voltas ao altar levando as oferendas e erguendo o cálice acima da sua cabeça, coberto com a extremidade da sua estola. Na Igreja grega, o padre cobre o cálice com a extremidade da sua estola pousada sobre um dos ombros.
O paganismo é frequentemente associado a idolatria, dado que se adoram vários deuses representados por estátuas ou imagens pintadas. O cristianismo faz exactamente o mesmo em termos de rituais, de objectos usados nesses rituais e nas vestimentas dos seus sacerdotes: O acto de confissão descende directamente dos romanos pagãos, em que nas cerimónias de sacrifício, o sacerdote sacrificador devia confessar-se antes do início da cerimónia; os sacerdotes de Júpiter usavam um chapéu preto, alto e quadrado, em tudo idêntico ao dos sacerdotes arménios e gregos modernos; a sotaina preta dos padres católicos romanos é a mesma dos sacerdotes de Mitra. O Rei-Sacerdote da Babilónia (de notar que Abraão nasceu na Babilónia) usava um anel de ouro com sinete, as suas sandálias eram beijadas pelos súbditos e usava também um manto branco e uma tiara de ouro com duas pequenas faixas. O Papa possui um anel idêntico, as suas sandálias também são beijadas e usa um manto de cetim branco bordado com estrelas de ouro, além da tiara com as pequenas faixas cobertas de pedras preciosas. A vestimenta de linho branco é a mesma dos sacerdotes de Ísis. Os antigos pagãos usavam água santa, ou lustral, para se purificarem e purificarem as cidades, os campos, os templos, uma prática em tudo semelhante à usada actualmente com as pias de água benta nas igrejas.
Os antigos egípcios, como em todo o mundo pagão, adoravam inúmeros deuses, cada um dedicado a determinado objectivo, como protecção contra doenças, auxílio nas colheitas, apoio na maternidade, etc. No entanto, eles tinham a noção de que havia um Deus acima de todos os outros ou, dois ou três mais importantes que todos os outros. Era algo semelhante ao que se passa com o hinduísmo, onde praticamente cada família adora um deus pessoal mas, acima desses mais de trezentos mil deuses adorados pelos hindus, está a Trindade Hindu constituída por Brahma, Vixnu e Shiva, uma coisa parecida com a Trindade Cristã, com a diferença de que as divindades hindus têm todas, mesmo estas principais, uma contraparte feminina.
Mas muitas das divindades egípcias eram manifestações ou expressões de uma divindade maior, como no caso de Ísis, que assumia outros nomes e paramentos conforme a função que era esperada por parte da deusa. Ísis foi tão importante que, muitas das deusas gregas, romanas e celtas eram expressões dela, Ísis, a Grande-Mãe. Acontece exactamente o mesmo no mundo cristão, em que Maria assume várias expressões e se tem manifestado em vários locais com nomes diferentes. Como exemplos temos Fátima, Guadalupe, Aparecida e, as várias Nossas Senhoras como a Senhora da Conceição, Senhora dos Remédios, Senhora dos Navegantes, etc., etc. O culto destas Senhoras e também de Senhores, como expressões de Cristo, pode levar-nos a entender que existe uma tendência politeísta no mundo cristão, tendência essa herdada do paganismo.
Em termos de idolatria, parece não haver dúvidas para ninguém que as igrejas estão cheias de estátuas e imagens. A Igreja Ortodoxa repudia as estátuas, mas utiliza imagens pintadas. O protestantismo aboliu por completo estátuas e imagens mas, por outro lado, aprofundou o antropomorfismo de Deus, transformando Jesus no criador de todas as coisas, como acontece com muitas das chamadas Igrejas Evangélicas.
A figuração, idealização ou antropomorfização de Deus, isto é, a transformação de Deus numa figura humana, não estava presente nos grupos gnósticos conhecedores dos Mistérios Interiores, que deram origem ao cristianismo. Eles entendiam que Deus estava para além da compreensão humana. Os pagãos adoravam os seus deuses figurando-os em termos humanos ou representando-os como animais ou, como no caso do Antigo Egipto, em figuras meio humanas, meio animais. Alguns dos deuses gregos eram também monstros ou autênticas aberrações. Acontece o mesmo ainda hoje na Índia onde, por exemplo, o deus Ganesh, o filho de Shiva e Parvati, é representado por um elefante.
O cristianismo desenvolveu-se com gente que não conhecia os Mistérios Interiores, apenas os Exteriores e, ao estabelecerem que Jesus era o Filho unigénito de Deus, quer dizer, consubstancial ao Pai, deram o passo essencial para a antropomorfização de Deus, transformando-o num ser com figura humana, não sabendo exactamente como figurá-lo, mas socorrendo-se da figura de Jesus para representá-lo junto da grande massa dos fiéis. Os evangélicos, para além do autêntico carnaval em que transformaram o seu culto, foram mais longe e transformaram Jesus no Deus responsável por toda a Criação. Se estou a exagerar nesta acepção, sugiro que vejam os dísticos colados nos vidros dos carros e as numerosas mensagens que circulam na Internet.
São conhecidos vários mitos pagãos sobre o nascimento de um “salvador” que, durante a sua curta vida faz milagres, depois padece, é morto e ressuscita ao terceiro dia. Estes mitos anteriores ao Cristianismo existiram na região a que chamamos Médio Oriente ou, em regiões muito próximas. Mas indo um pouco mais longe, para um lugar bem distante, encontramos na frígida Finlândia uma lenda muito semelhante à da Virgem Maria. É Mariatta, Virgem-Mãe das terras nórdicas.
Ukko, o Grande Espírito, que mora no céu, escolhe encarnar-se em Homem-Deus através da virgem Mariatta. Repudiada pelos pais, que não acreditam que continue virgem estando grávida, abriga-se num estábulo onde, numa manjedoura, nasce o Santo Menino. A lenda tem continuação: a determinada altura o Menino desaparece e Mariatta vai à sua procura; pede ajuda à estrela, mas esta não consegue ajudá-la; acontece o mesmo com a Lua; somente o Sol, com pena dela, lhe diz:
“Acolá está a criança dourada;
Lá repousa dormindo teu Santo-Menino,
Encoberto pela água até à cintura,
Escondido pelos caniços e juncos.
Este poema faz lembrar uma das muitas versões do nascimento de Hórus, no Egipto, em que sua mãe, Ísis, sabendo-o ameaçado de morte por Seth, que já causara antes a morte de Osíris, o esconde no Nilo, no meio de caniços e juncos. Ísis também concebe Hórus como virgem pois, tendo recolhido e reunido os pedaços de Osíris depois da sua morte, não consegue encontrar o falo. Mas, por artes mágicas, consegue engravidar e gerar Hórus.
A palavra igreja deriva do termo latino “ecclesia”, ou do grego “ekklesia”, significando assembleia. Portanto, o verdadeiro significado de igreja é a assembleia de fiéis, e não o edifício onde se realizam os rituais. O termo mais apropriado para o edifício será templo, o local onde se realiza o culto. Durante os primeiros 250 anos da nossa era os grupos cristãos que se formaram não tinham templos nem altares, aliás abominavam uns e outros por serem locais de adoração pagã. Os cristãos primitivos seguiam os ensinamentos de Paulo, de que o homem era o único templo de Deus, no qual o Espírito Santo, o espírito de Deus, permanecia. Somente durante o reinado do imperador Deocleciano (235-284) adoptaram o costume pagão de adoração em templos.
Os altares foram copiados da “Ara Máxima” da Roma pagã. As aras (altares) romanas eram pedras quadradas que se colocavam perto de túmulos ou em templos, consagradas principalmente aos deuses dos lares. Os celtas também usavam essas pedras quadradas nas suas cerimónias druídicas, como por exemplo na Irlanda, onde os reis eram coroados sobre uma pedra idêntica – existe uma dessas pedras na abadia de Westminster, em Londres.
A palavra missa, ritual maior do cristianismo, deriva do hebraico “missah” ou “mizda”, que significa oferenda. Também deriva do latim “messis”, que significa colheita, donde Messias, aquele que faz amadurecer as colheitas. Nas festas romanas em honra da deusa Ceres, o ajudante do Grande Sacerdote, vestido de branco, colocava sobre a Hóstia (a oferenda do sacrifício), um pão de trigo, água e vinho. Esta oferenda era então erguida pelo Grande Sacerdote. A oferenda simbolizava os três reinos da Natureza: o pão de trigo, o reino vegetal; o cálice ou vaso de sacrifício, o mineral; e a estola do Grande Sacerdote, feita de pura lã branca de cordeiro, pousava uma das extremidades sobre o cálice.
Esta cerimónia é repetida, gesto por gesto, pelos padres modernos. No fim lavam os dedos das mãos, tal como o Grande Sacerdote que dizia: “Lavo minhas mãos entre o justo e rodearei o teu altar, ó Grande Deusa! (Ceres). Depois dava três voltas ao altar levando as oferendas e erguendo o cálice acima da sua cabeça, coberto com a extremidade da sua estola. Na Igreja grega, o padre cobre o cálice com a extremidade da sua estola pousada sobre um dos ombros.
O paganismo é frequentemente associado a idolatria, dado que se adoram vários deuses representados por estátuas ou imagens pintadas. O cristianismo faz exactamente o mesmo em termos de rituais, de objectos usados nesses rituais e nas vestimentas dos seus sacerdotes: O acto de confissão descende directamente dos romanos pagãos, em que nas cerimónias de sacrifício, o sacerdote sacrificador devia confessar-se antes do início da cerimónia; os sacerdotes de Júpiter usavam um chapéu preto, alto e quadrado, em tudo idêntico ao dos sacerdotes arménios e gregos modernos; a sotaina preta dos padres católicos romanos é a mesma dos sacerdotes de Mitra. O Rei-Sacerdote da Babilónia (de notar que Abraão nasceu na Babilónia) usava um anel de ouro com sinete, as suas sandálias eram beijadas pelos súbditos e usava também um manto branco e uma tiara de ouro com duas pequenas faixas. O Papa possui um anel idêntico, as suas sandálias também são beijadas e usa um manto de cetim branco bordado com estrelas de ouro, além da tiara com as pequenas faixas cobertas de pedras preciosas. A vestimenta de linho branco é a mesma dos sacerdotes de Ísis. Os antigos pagãos usavam água santa, ou lustral, para se purificarem e purificarem as cidades, os campos, os templos, uma prática em tudo semelhante à usada actualmente com as pias de água benta nas igrejas.
Os antigos egípcios, como em todo o mundo pagão, adoravam inúmeros deuses, cada um dedicado a determinado objectivo, como protecção contra doenças, auxílio nas colheitas, apoio na maternidade, etc. No entanto, eles tinham a noção de que havia um Deus acima de todos os outros ou, dois ou três mais importantes que todos os outros. Era algo semelhante ao que se passa com o hinduísmo, onde praticamente cada família adora um deus pessoal mas, acima desses mais de trezentos mil deuses adorados pelos hindus, está a Trindade Hindu constituída por Brahma, Vixnu e Shiva, uma coisa parecida com a Trindade Cristã, com a diferença de que as divindades hindus têm todas, mesmo estas principais, uma contraparte feminina.
Mas muitas das divindades egípcias eram manifestações ou expressões de uma divindade maior, como no caso de Ísis, que assumia outros nomes e paramentos conforme a função que era esperada por parte da deusa. Ísis foi tão importante que, muitas das deusas gregas, romanas e celtas eram expressões dela, Ísis, a Grande-Mãe. Acontece exactamente o mesmo no mundo cristão, em que Maria assume várias expressões e se tem manifestado em vários locais com nomes diferentes. Como exemplos temos Fátima, Guadalupe, Aparecida e, as várias Nossas Senhoras como a Senhora da Conceição, Senhora dos Remédios, Senhora dos Navegantes, etc., etc. O culto destas Senhoras e também de Senhores, como expressões de Cristo, pode levar-nos a entender que existe uma tendência politeísta no mundo cristão, tendência essa herdada do paganismo.
Em termos de idolatria, parece não haver dúvidas para ninguém que as igrejas estão cheias de estátuas e imagens. A Igreja Ortodoxa repudia as estátuas, mas utiliza imagens pintadas. O protestantismo aboliu por completo estátuas e imagens mas, por outro lado, aprofundou o antropomorfismo de Deus, transformando Jesus no criador de todas as coisas, como acontece com muitas das chamadas Igrejas Evangélicas.
A figuração, idealização ou antropomorfização de Deus, isto é, a transformação de Deus numa figura humana, não estava presente nos grupos gnósticos conhecedores dos Mistérios Interiores, que deram origem ao cristianismo. Eles entendiam que Deus estava para além da compreensão humana. Os pagãos adoravam os seus deuses figurando-os em termos humanos ou representando-os como animais ou, como no caso do Antigo Egipto, em figuras meio humanas, meio animais. Alguns dos deuses gregos eram também monstros ou autênticas aberrações. Acontece o mesmo ainda hoje na Índia onde, por exemplo, o deus Ganesh, o filho de Shiva e Parvati, é representado por um elefante.
O cristianismo desenvolveu-se com gente que não conhecia os Mistérios Interiores, apenas os Exteriores e, ao estabelecerem que Jesus era o Filho unigénito de Deus, quer dizer, consubstancial ao Pai, deram o passo essencial para a antropomorfização de Deus, transformando-o num ser com figura humana, não sabendo exactamente como figurá-lo, mas socorrendo-se da figura de Jesus para representá-lo junto da grande massa dos fiéis. Os evangélicos, para além do autêntico carnaval em que transformaram o seu culto, foram mais longe e transformaram Jesus no Deus responsável por toda a Criação. Se estou a exagerar nesta acepção, sugiro que vejam os dísticos colados nos vidros dos carros e as numerosas mensagens que circulam na Internet.
sábado, 6 de setembro de 2008
Segredos do Cristianismo - III - Uma religião cisamada
As religiões do “Livro” sempre se caracterizaram por profundas cisões no seu seio, exceptuando talvez o Judaísmo que, apesar de várias ramificações e tendências, estas não têm constituído desavenças graves entre os seus praticantes.
O Islamismo dividiu-se em duas facções principais, os xiitas e os sunitas, em razão dos sucessores de Muhammad (Maomé), pelo menos os primeiros três califas, terem sido usurpadores na opinião dos xiitas. Isto tornou-os inimigos permanentes.
O Cristianismo é uma religião dividida desde as suas mais remotas origens. Como já vimos na minha primeira crónica acerca deste assunto, os primeiros grupos cristãos não se entendiam em questões importantes como a verdadeira natureza de Jesus. Salientava-se uma corrente importante chamada arianismo, nome derivado do seu promotor, Arius, que negava a consubstancialidade entre Jesus e Deus e, portanto, a Trindade. Para Arius, Jesus era filho de Deus, subordinado a Ele, e não o próprio Deus, o qual seria um grande e eterno mistério, oculto em si mesmo, e que nenhuma criatura conseguiria revelá-lo, visto que Deus não podia se revelar a si mesmo.
Esta doutrina não tinha nada de extraordinário, pois estava de acordo com o pensamento judaico acerca da natureza de Deus como é explicado na Cabala e surgia directamente dos grupos gnósticos que tinham adoptado o Cristianismo. No entanto, apesar desta doutrina ser aceite pela maioria dos grupos cristãos, outros havia que começavam a assumir uma posição dogmática e consideravam o Pai, o Filho e o Espírito Santo como três manifestações da mesma natureza. Foi esta posição que foi assumida oficialmente no Concílio de Niceia liderado por Constantino e o arianismo foi considerado uma heresia, sendo Arius e outros apoiantes da sua posição sido expulsos do Concílio. Apesar disso, o arianismo não foi erradicado, antes pelo contrário, pois continua a ser um elemento de discórdia dentro do Cristianismo.
A palavra “cisma” quer dizer divisão e é aplicada, quase exclusivamente, no Cristianismo. Historicamente, apesar do Cristianismo viver em permanente cisma, por isso o título desta crónica, uma religião cismada, são considerados dois grandes cismas: o Cisma do Oriente e o Cisma do Ocidente.
O Cisma do Oriente refere-se à cisão entre a Igreja Católica Romana e Igreja Católica Ortodoxa. Para esta cisão contribuíram motivos de natureza política e de natureza religiosa ou teológica. Embora os motivos políticos tivessem criado sérios problemas para a unidade da Igreja, foram certamente motivos teológicos os responsáveis pelo definitivo desentendimento entre as duas Igrejas.
Por motivos políticos temos a grande reserva que os ortodoxos tinham em relação à dependência de Roma, reserva agravada com a divisão do Império Romano em Império do Ocidente e do Oriente, este com capital em Constantinopla . Enquanto os ortodoxos se fundavam numa organização clássica e conservadora, em que cada um dos patriarcas era dono e senhor do seu burgo, não guardando obediência a ninguém, senão ao sínodo dos patriarcas, os ocidentais obrigavam à dependência de Roma de todas as igrejas cristãs. O fosso foi agravado pelo saque de Constantinopla na 4ª Cruzada em 1204, em que os ocidentais saquearam a cidade e massacraram a população a qual, na sua grande maioria, era cristã ortodoxa.
As razões teológicas que dividem a Igreja Oriental da Ocidental prendem-se, essencialmente, com aquilo que foi designado como “filioque”, que quer dizer “do Filho ou procedente do Filho”. No Concílio de Niceia, em 325, foi adoptado um Credo, que é uma declaração de fé ou profissão de fé cristã, tendo sido aceite por ambas as Igrejas. Este Credo foi revisto mais tarde no Concílio de Constantinopla, em 381, e continuou a ser aceite. Mais tarde foi acrescentado o “filioque” e tudo se complicou. O que é, afinal, o “filioque”?
O “filioque” é um acrescento feito mais tarde pela Igreja latina em que coloca o Espírito Santo proveniente do Pai e do Filho e consubstancial ao Pai e ao Filho, declaração inaceitável pela Igreja Ortodoxa, pois para esta o Espírito Santo provém apenas do Pai ou por intermédio do Filho. Exemplo do “filioque” acrescentado ao Credo:
“Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho
é adorado e glorificado:
Ele que falou pelos Profetas.”
Este acrescento que provocou a ira dos ortodoxos foi criado por monges latinos em Jerusalém. Para o Papa Leão III este acréscimo ao Credo era ilícito, mas os monges insistiram, tomando uma posição de força por se acharem sob a protecção do imperador Carlos Magno. Este, para resolver a questão, convocou um sínodo em Aquisgrano, onde a doutrina do “filioque” foi aprovada. Apesar disto a Santa Sé manteve-se na sua negativa em aprovar tal acréscimo, mas os cristãos ocidentais continuaram a exercer pressão para que fosse aprovado pela mais alta instância. Em 1013, o imperador do Sacro Império Romano, Henrique II, insistiu junto do Papa Bento VIII para que inserisse o “filioque” no Credo. O Papa acabou por concordar em 1014. Os ortodoxos, pela voz de Fócio, Patriarca de Alexandria, reagiram acusando os latinos de "transgressores da Palavra de Deus, corruptores da doutrina de Jesus Cristo, dos Apóstolos e dos padres; seriam novos Judas a dilacerar os membros de Cristo".
Estava aberta a chaga que iria separar definitivamente a Igreja Oriental da Ocidental. As acusações continuaram com o patriarca Cerulário de Constantinopla a fazer uma tremenda campanha contra os latinos por causa da natureza do Espírito Santo contemplado no “filioque”. A separação definitiva deu-se em 1054, quando o papa enviou a Constantinopla um cardeal para tentar conciliar as posições. Infelizmente parece que a missão desse cardeal não foi bem sucedida, pois acabou por excomungar o patriarca Cerulário e este, entendendo que a excomunhão incluía toda a Igreja bizantina, excomungou também o Papa Leão IX. Este foi o que ficou designado como o Grande Cisma do Oriente, que continua em vigor, pois as duas Igrejas nunca conseguiram um acordo até hoje.
Quando ao Cisma do Ocidente, não houve razões de natureza teológica na sua origem, mas razões políticas. Deu-se entre 1378 e 1417, com Papas e Antipapas, uns em Roma e outros em Avinhão, na França, chegando a haver também Antipapas em Pisa, na Itália. Cada um deles recebia apoios dos reinos europeus, que se dividiram também entre apoiar o Papa de Avinhão ou o Papa de Roma. O assunto ficou resolvido em 1417, sediando definitivamente a sede do papado em Roma.
Isto tudo não é nenhuma novidade, consta dos manuais de História e a própria Internet está cheia de informações a respeito. Resta saber a razão dos Cismas, principalmente na Igreja Ocidental pois, para além daqueles que foram considerados historicamente, na verdade tem havido, ao longo do tempo, uma constante instabilidade nessa instituição chamada Igreja Católica Romana. Desde a Reforma e a Contra-Reforma, à separação da Igreja de Inglaterra, aos problemas com a Igreja Americana, até à recente Teologia da Libertação na América Latina, cujos promotores foram duramente castigados pelo Vaticano, tudo isto tem levado a um sucessivo esvaziamento do seu poder e implantação na sociedade, embora as estatísticas continuem a dizer que os católicos são a maioria absoluta nos países do Ocidente. O protestantismo tem vindo a ganhar muito terreno nos últimos tempos pela via das Igrejas Evangélicas. Não incluímos como Cismas os vários movimentos considerados heréticos, como no caso dos Cátaros, assunto que será objecto de outra crónica.
Ao contrário das Igrejas Ortodoxas, que se mantiveram independentes entre si, divididas em patriarcados, cada um com suas características diferentes em função da região em que está implantado, a Igreja Católica Romana transformou-se num império, herdeiro administrativo do extinto Império Romano do Ocidente, com o Sumo Pontífice, cargo anteriormente atribuído aos imperadores romanos, sediado em Roma. Para os ortodoxos, Cristo é o chefe da Igreja, para os latinos, é o Papa, o Sumo Pontífice que dirige de forma autocrática todo a imensidão do mundo católico romano. Hoje restringido ao Vaticano, Estado independente que não chega a ter meio quilómetro quadrado de área, é o chefe incontestado e incontestável da espiritualidade católica, fundamentando o seu poder através dos dogmas que foram sendo incluídos nos cânones da Igreja através dos séculos.
Os dogmas são verdades incontestáveis, não admitem discussão. Existem hoje 46 dogmas, perfeitamente listados para quem quiser consultar a Internet. Por estranho que possa parecer, e celibato dos padres não é um dogma, depende apenas da vontade do Papa.
No seio de uma religião ditadora, que ditou ordens à Europa e ao mundo pós descobertas, é natural que tenham vindo a surgir dissidências e, quando o ramo não verga, quebra. Tirando o caso do Budismo, que não é uma religião, mas uma filosofia, não conheço nenhuma outra religião que dependa assim de um poder absoluto e centralizado. Talvez seja este o motivo principal das dissidências, dos cismas, das divisões de uma Igreja que, apesar da popularidade dos últimos Papas, difícil de compreender principalmente para o mundo feminino, continua a viver numa crise permanente e escondida. Hoje já não pode enviar exércitos para impor a sua doutrina aos povos submetidos
O Islamismo dividiu-se em duas facções principais, os xiitas e os sunitas, em razão dos sucessores de Muhammad (Maomé), pelo menos os primeiros três califas, terem sido usurpadores na opinião dos xiitas. Isto tornou-os inimigos permanentes.
O Cristianismo é uma religião dividida desde as suas mais remotas origens. Como já vimos na minha primeira crónica acerca deste assunto, os primeiros grupos cristãos não se entendiam em questões importantes como a verdadeira natureza de Jesus. Salientava-se uma corrente importante chamada arianismo, nome derivado do seu promotor, Arius, que negava a consubstancialidade entre Jesus e Deus e, portanto, a Trindade. Para Arius, Jesus era filho de Deus, subordinado a Ele, e não o próprio Deus, o qual seria um grande e eterno mistério, oculto em si mesmo, e que nenhuma criatura conseguiria revelá-lo, visto que Deus não podia se revelar a si mesmo.
Esta doutrina não tinha nada de extraordinário, pois estava de acordo com o pensamento judaico acerca da natureza de Deus como é explicado na Cabala e surgia directamente dos grupos gnósticos que tinham adoptado o Cristianismo. No entanto, apesar desta doutrina ser aceite pela maioria dos grupos cristãos, outros havia que começavam a assumir uma posição dogmática e consideravam o Pai, o Filho e o Espírito Santo como três manifestações da mesma natureza. Foi esta posição que foi assumida oficialmente no Concílio de Niceia liderado por Constantino e o arianismo foi considerado uma heresia, sendo Arius e outros apoiantes da sua posição sido expulsos do Concílio. Apesar disso, o arianismo não foi erradicado, antes pelo contrário, pois continua a ser um elemento de discórdia dentro do Cristianismo.
A palavra “cisma” quer dizer divisão e é aplicada, quase exclusivamente, no Cristianismo. Historicamente, apesar do Cristianismo viver em permanente cisma, por isso o título desta crónica, uma religião cismada, são considerados dois grandes cismas: o Cisma do Oriente e o Cisma do Ocidente.
O Cisma do Oriente refere-se à cisão entre a Igreja Católica Romana e Igreja Católica Ortodoxa. Para esta cisão contribuíram motivos de natureza política e de natureza religiosa ou teológica. Embora os motivos políticos tivessem criado sérios problemas para a unidade da Igreja, foram certamente motivos teológicos os responsáveis pelo definitivo desentendimento entre as duas Igrejas.
Por motivos políticos temos a grande reserva que os ortodoxos tinham em relação à dependência de Roma, reserva agravada com a divisão do Império Romano em Império do Ocidente e do Oriente, este com capital em Constantinopla . Enquanto os ortodoxos se fundavam numa organização clássica e conservadora, em que cada um dos patriarcas era dono e senhor do seu burgo, não guardando obediência a ninguém, senão ao sínodo dos patriarcas, os ocidentais obrigavam à dependência de Roma de todas as igrejas cristãs. O fosso foi agravado pelo saque de Constantinopla na 4ª Cruzada em 1204, em que os ocidentais saquearam a cidade e massacraram a população a qual, na sua grande maioria, era cristã ortodoxa.
As razões teológicas que dividem a Igreja Oriental da Ocidental prendem-se, essencialmente, com aquilo que foi designado como “filioque”, que quer dizer “do Filho ou procedente do Filho”. No Concílio de Niceia, em 325, foi adoptado um Credo, que é uma declaração de fé ou profissão de fé cristã, tendo sido aceite por ambas as Igrejas. Este Credo foi revisto mais tarde no Concílio de Constantinopla, em 381, e continuou a ser aceite. Mais tarde foi acrescentado o “filioque” e tudo se complicou. O que é, afinal, o “filioque”?
O “filioque” é um acrescento feito mais tarde pela Igreja latina em que coloca o Espírito Santo proveniente do Pai e do Filho e consubstancial ao Pai e ao Filho, declaração inaceitável pela Igreja Ortodoxa, pois para esta o Espírito Santo provém apenas do Pai ou por intermédio do Filho. Exemplo do “filioque” acrescentado ao Credo:
“Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho
é adorado e glorificado:
Ele que falou pelos Profetas.”
Este acrescento que provocou a ira dos ortodoxos foi criado por monges latinos em Jerusalém. Para o Papa Leão III este acréscimo ao Credo era ilícito, mas os monges insistiram, tomando uma posição de força por se acharem sob a protecção do imperador Carlos Magno. Este, para resolver a questão, convocou um sínodo em Aquisgrano, onde a doutrina do “filioque” foi aprovada. Apesar disto a Santa Sé manteve-se na sua negativa em aprovar tal acréscimo, mas os cristãos ocidentais continuaram a exercer pressão para que fosse aprovado pela mais alta instância. Em 1013, o imperador do Sacro Império Romano, Henrique II, insistiu junto do Papa Bento VIII para que inserisse o “filioque” no Credo. O Papa acabou por concordar em 1014. Os ortodoxos, pela voz de Fócio, Patriarca de Alexandria, reagiram acusando os latinos de "transgressores da Palavra de Deus, corruptores da doutrina de Jesus Cristo, dos Apóstolos e dos padres; seriam novos Judas a dilacerar os membros de Cristo".
Estava aberta a chaga que iria separar definitivamente a Igreja Oriental da Ocidental. As acusações continuaram com o patriarca Cerulário de Constantinopla a fazer uma tremenda campanha contra os latinos por causa da natureza do Espírito Santo contemplado no “filioque”. A separação definitiva deu-se em 1054, quando o papa enviou a Constantinopla um cardeal para tentar conciliar as posições. Infelizmente parece que a missão desse cardeal não foi bem sucedida, pois acabou por excomungar o patriarca Cerulário e este, entendendo que a excomunhão incluía toda a Igreja bizantina, excomungou também o Papa Leão IX. Este foi o que ficou designado como o Grande Cisma do Oriente, que continua em vigor, pois as duas Igrejas nunca conseguiram um acordo até hoje.
Quando ao Cisma do Ocidente, não houve razões de natureza teológica na sua origem, mas razões políticas. Deu-se entre 1378 e 1417, com Papas e Antipapas, uns em Roma e outros em Avinhão, na França, chegando a haver também Antipapas em Pisa, na Itália. Cada um deles recebia apoios dos reinos europeus, que se dividiram também entre apoiar o Papa de Avinhão ou o Papa de Roma. O assunto ficou resolvido em 1417, sediando definitivamente a sede do papado em Roma.
Isto tudo não é nenhuma novidade, consta dos manuais de História e a própria Internet está cheia de informações a respeito. Resta saber a razão dos Cismas, principalmente na Igreja Ocidental pois, para além daqueles que foram considerados historicamente, na verdade tem havido, ao longo do tempo, uma constante instabilidade nessa instituição chamada Igreja Católica Romana. Desde a Reforma e a Contra-Reforma, à separação da Igreja de Inglaterra, aos problemas com a Igreja Americana, até à recente Teologia da Libertação na América Latina, cujos promotores foram duramente castigados pelo Vaticano, tudo isto tem levado a um sucessivo esvaziamento do seu poder e implantação na sociedade, embora as estatísticas continuem a dizer que os católicos são a maioria absoluta nos países do Ocidente. O protestantismo tem vindo a ganhar muito terreno nos últimos tempos pela via das Igrejas Evangélicas. Não incluímos como Cismas os vários movimentos considerados heréticos, como no caso dos Cátaros, assunto que será objecto de outra crónica.
Ao contrário das Igrejas Ortodoxas, que se mantiveram independentes entre si, divididas em patriarcados, cada um com suas características diferentes em função da região em que está implantado, a Igreja Católica Romana transformou-se num império, herdeiro administrativo do extinto Império Romano do Ocidente, com o Sumo Pontífice, cargo anteriormente atribuído aos imperadores romanos, sediado em Roma. Para os ortodoxos, Cristo é o chefe da Igreja, para os latinos, é o Papa, o Sumo Pontífice que dirige de forma autocrática todo a imensidão do mundo católico romano. Hoje restringido ao Vaticano, Estado independente que não chega a ter meio quilómetro quadrado de área, é o chefe incontestado e incontestável da espiritualidade católica, fundamentando o seu poder através dos dogmas que foram sendo incluídos nos cânones da Igreja através dos séculos.
Os dogmas são verdades incontestáveis, não admitem discussão. Existem hoje 46 dogmas, perfeitamente listados para quem quiser consultar a Internet. Por estranho que possa parecer, e celibato dos padres não é um dogma, depende apenas da vontade do Papa.
No seio de uma religião ditadora, que ditou ordens à Europa e ao mundo pós descobertas, é natural que tenham vindo a surgir dissidências e, quando o ramo não verga, quebra. Tirando o caso do Budismo, que não é uma religião, mas uma filosofia, não conheço nenhuma outra religião que dependa assim de um poder absoluto e centralizado. Talvez seja este o motivo principal das dissidências, dos cismas, das divisões de uma Igreja que, apesar da popularidade dos últimos Papas, difícil de compreender principalmente para o mundo feminino, continua a viver numa crise permanente e escondida. Hoje já não pode enviar exércitos para impor a sua doutrina aos povos submetidos
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