“ (…) Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las –,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que a si mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível de suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre, ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.”
(do Poema para Galileo de António Gedeão)
Todos conhecemos ou já ouvimos falar de Galileu e do drama que passou às mãos da Inquisição. Em pleno século XVI, Galileu tomou conhecimento das teorias de Copérnico, que estabelecia o sistema heliocêntrico do nosso sistema solar, quer dizer, que eram os planetas que giravam à volta do Sol, não este e os planetas à volta da Terra. Nas suas pesquisas de astronomia Galileu aderiu a esta tese, contrariando o postulado pela Igreja, o sistema geocêntrico, delineado por Ptolomeu no primeiro século da nossa era.
A teoria aceite e defendida pela Igreja ao longo dos séculos era a teoria Ptolemaica, geocentrista, onde o Sol e os planetas giravam em torno da Terra, a qual, na sua magnitude divina, era o sagrado repositório dos seres criados pelo próprio Deus, no topo dos quais estavam os seres humanos.
O que espanta e nos dá uma certa avaliação do poder da Igreja sobre a sociedade medieval, um poder absoluto que exerceu durante quase dois milénios, é que a teoria heliocêntrica não constituía propriamente uma novidade, pois já fora defendida por um astrónomo da Grécia antiga, Aristarco de Samos, que viveu entre 310 e 230 a. C. Aristarco defendia que o Sol era um corpo estático no universo, à volta do qual giravam todos os planetas conhecidos, inclusive a Terra. Hoje sabemos que também o Sol se move através da nossa galáxia mas, na época de Galileu, século XVI, a simples ideia de que a Terra não era o centro do universo era intolerável para a Igreja.
Mas então, se já era conhecida esta teoria heliocêntrica, qual a razão da Igreja ter imposto o geocentrismo? Porque os padres eram ignorantes? Não. A cultura e o conhecimento estiveram durante muitos séculos no seio das abadias e dos conventos, a Igreja era a sua detentora quase exclusiva. O problema que se punha era o de que, para a Igreja, a Terra era o local em que Deus se manifestara e criara o homem, portanto, a Terra, como único local escolhido por Deus para o homem habitar, teria que ser o centro do universo. Aceitando o heliocentrismo teria que aceitar também que, afinal, a Terra não era tão importante assim, que não passava de mais um planeta girando em torno do Sol.
Muito inteligentemente, Galileu, ameaçado pela Inquisição de ir parar à fogueira como herético, deu o dito por não dito. Ao fazê-lo salvou a pele, mas terá pensado certamente que a sua teoria não valia o supremo sacrifício. Na verdade, os astros continuariam a mover-se segundo a sua mecânica estabelecida, talvez por Deus, independentemente do que os homens pensassem. Sabia também que a semente das suas ideias já estava lançada, que havia outros, como Copérnico, que partilhavam as mesmas opiniões e que, alguém mais liberto das amarras inquisidoras iria desenvolvê-las. A maioria ou a quase totalidade da população era analfabeta e ignorante, portanto, não valia a pena insistir na sua verdade. Ela acabaria por aparecer, como de facto veio a acontecer.
Há quem ache que Galileu foi covarde, que não foi capaz de se manter fiel àquilo em que acreditava, que se rendeu à imposição da Igreja para salvar a vida. Eu acho que foi inteligente, porque podem enclausurar-se e matar-se pessoas, não se pode prender nem matar ideias.
A história de Galileu Galilei pode levar-nos a pensar que só poderia ter acontecido naquela época, em que a Igreja enfrentava a ameaça da Reforma, que deu origem ao Protestantismo e reunia energias para contra atacar, naquilo que ficou designado como a Contra Reforma. Naturalmente que houve um endurecimento das posições da Igreja, manifestado principalmente pelo seu braço justiceiro, a Inquisição. A Europa saía a custo de um longo período de trevas a que a Igreja a submetera durante séculos e pequenas luzes de liberdade começavam a aparecer um pouco por todo o lado. Hoje, uma situação como a que Galileu viveu seria impossível de acontecer, pelo menos nas sociedades ocidentais, dada a abertura e liberdade de informação que existe. Hoje, já não é tempo de dogmas, as pessoas já deixaram de ser instrumentos às mãos de um poder qualquer. Pois é, já estive mais convencido disto do que estou actualmente.
Os Galileus de hoje já não correm o risco de ir parar a uma fogueira de um qualquer auto de fé. No entanto, os autos de fé continuam a existir, de uma forma mais sofisticada, mas enganosa como sempre, usando meios de comunicação que não existiam no tempo de Galileu, para espalhar ideias erróneas, transformadas quase em dogmas. O mais triste de tudo é que os crentes são milhões, espalhados pelo planeta inteiro.
Vivendo hoje num mundo chamado de informação, em que toda a gente pode estar informada de tudo, somos permanentemente desinformados ou levados a conclusões erradas acerca de uma variedade de assuntos que preocupam actualmente a humanidade.
A Igreja já deixou há tempos de exercer o seu poder temporal e de impor os seus dogmas à generalidade das pessoas, apenas os mais fiéis ou menos avisados continuam apegados à sua doutrina retrógrada. Mas se a Igreja baixou os braços, outros se levantaram para os substituir no controlo mental e intelectual do ser humano. Refiro-me sem qualquer espécie de receio aos numerosos grupos que pululam por todo o lado e que integram o chamado movimento da Nova Era. Se há gente muito honesta e comprometida em preservar os nossos recursos naturais, em defender políticas racionais de poupança da água, da energia e em manter o planeta um lugar saudável para todos os seres que o habitam, há uma quantidade grande de oportunistas e especuladores que, mais não fazem do que tentar criar um clima de medo e ansiedade em relação ao futuro.
O aquecimento global é um facto, não há como desmenti-lo, mas não atinge ainda as proporções dantescas que alguns querem fazer crer. Um aumento de um ou dois graus na temperatura média dos oceanos é grave, pode provocar sérias mudanças climáticas e cataclismos, e pode dar origem a um certo degelo nas calotas polares. Mas a maioria das grandes cidades não vai desaparecer sob as águas em 2010, data anunciada à exaustão na Internet há alguns anos atrás.
A Internet é o meio ideal para esses grupos difundirem as suas paranóias, porque é um meio que não tem, praticamente, qualquer espécie de controlo, e não se exige nenhuma responsabilidade a quem faz circular mensagens que procuram aterrorizar as pessoas. Como os jornais e as revistas sérias não lhes dão guarida, a Internet é usada e abusada pelas teorias mais fantasiosas.
Que se defendam as baleias, os golfinhos, as focas e outros animais em vias de extinção; que se pressione fortemente os governos para adoptarem medidas de protecção às espécies; que se lute contra a emanação de gases tóxicos na atmosfera e contra a destruição das matas e das manchas verdes, tão necessárias ao nosso oxigénio vital. Mas que seja uma atitude séria e consciente e que não se use como pretexto para especulações e desinformação, que não ajuda nada a causa da defesa da Terra como planeta habitável agora e no futuro, mas que espalha o descrédito quando as pessoas se dão conta que foram enganadas. Alguns exemplos ilustram a desonestidade de alguns desses grupos ou indivíduos:
1. Quando no ano passado os rios da Amazónia quase secaram, matando milhões de peixes e outros seres que viviam naquele ambiente, logo se levantou um coro acusando o aquecimento global dessa catástrofe. Só não explicaram porque é que esse fenómeno tem acontecido ciclicamente na região em épocas em que não havia nenhum aquecimento global nem destruição da mata amazónica.
2. Os glaciares estão a derreter e logo imagens são difundidas na Internet mostrando um desses glaciares a desfazer-se e a despenhar-se no mar em grandes blocos de gelo. Tudo isto assistido por mirones que, para ali foram, talvez integrados numa excursão turística. Só não explicaram que esse fenómeno é conhecido há séculos e se passa no sul da Argentina.
3. Por muito que queiram culpar o aquecimento global pela desertificação em África, esta vem acontecendo desde que a África se tornou conhecida do mundo ocidental, portanto, não é um fenómeno recente que se possa atribuir directamente ao aquecimento global.
A comparação que aqui faço com a figura de Galileu pode parecer forçada a muita gente pois, afinal, são também alguns cientistas que dizem que a Terra caminha para uma destruição inevitável. Galileu representa aqui a figura do cientista honesto, aquele que não especula com as situações, cujas afirmações são resultantes de pesquisas sérias e que não dá certezas absolutas. Os “donos da verdade” estão do outro lado, usando e abusando da informação existente, retirando apenas a parte mais dramática para poderem espalhar o pânico e a ansiedade entre as populações. Ah, mas os fins justificam os meios, como alguns costumam dizer, na assunção de que, espalhando o pânico mais depressa podem levar o ser humano a tomar consciência dos malefícios da sua acção. É um ponto de vista que não partilho, pois não me parece que algo de positivo possa ser atingido através da mistificação e adulteração da informação. O que acontece com esta forma de proceder, como afirmei acima, é as pessoas deixarem de acreditar que realmente o planeta está em perigo, e que é preciso tomar medidas sérias para evitar a continuação da deterioração da sua qualidade de vida. Acho que todos temos direito a saber a verdade, mas a verdade que a ciência honesta nos pode facultar. Depois… é tudo uma questão de consciência.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
domingo, 17 de junho de 2007
Diário da Fatinha (28)
Olá amigos cá estou eu de novo hoje é sábado e o meu pai saiu de manhã como é costume para jogar a bola com os amigos eu sei que ele não vai jogar nada à bola mas vai divertir-se e beber umas cervejas e depois volta pra casa muito contente e começa a contar as novidades à minha mãe que ela ouve pouco interessada porque o mundo dela diz ela é outro é o mundo da arte pois já pinta muito bem e as pessoas gostam muito do que ela pinta a minha tia guilhermina veio almoçar com a gente a minha mãe fez galinha de fricassé que é uma comida que o meu pai gosta muito ele diz que nunca viu ninguém com tanto jeito prá cozinha a minha mãe não gosta de ouvir isto porque diz que ele ainda pensa que o lugar da mulher é junto do fogão mas que está muito enganado e que é melhor ele aprender também a fazer alguma coisa na cozinha porque qualquer dia é capaz de lhe dar uma coisa e passar um dia sem cozinhar a minha tia guilhermina estava com um vestido novo com a saia um pouco acima do joelho ela não gosta de usar calças diz que não tem figura para usar calças e prefere os vestidos as saias e as blusas diz ela que lhe dá um ar mais feminino que a mulher se devia cuidar melhor mostrar o seu lado feminino em vez de tentar imitar os homens com calças de jeans e sapatos de ténis eu que sou pequena nunca usei calças a minha mãe sempre me compra uns vestidos muito bonitos que eu gosto muito só não gosto de usar os sapatos que ela me compra prefiro os ténis que são muito mais práticos pra brincar então eu prestei muita atenção à conversa da minha tia guilhermina com a minha mãe elas pensam que eu não entendo mas entendo tudo e parece que a minha tia guilhermina tem novo namorado mas que é um grande problema porque o namorado é casado e não quer largar a mulher a minha tia guilhermina diz que não está pra ser a segunda para ele se entreter que ele tem que decidir de uma vez por todas se fica com a mulher ou com ela ainda mais parece que ele tem também dois filhos mais ou menos da minha idade o que torna as coisas muito complicadas para ele decidir mas a minha tia guilhermina diz que não quer saber ele tem que se decidir e pronto não está pra esperar muito tempo e andar outra vez enganada o meu pai veio com a conversa de que a candidata do partido do sócrates à câmara de lisboa diz que vai permitir o casamento entre homossexuais e que até poderão ser realizados pelo santo antónio ele diz que gosta muito do sócrates mas como católico não pode aceitar isso que é uma pouca vergonha ainda pior se misturarem com os casamentos do santo antónio que é uma festa muito bonita que cada vez entende menos as pessoas a minha mãe disse-lhe que importância tem isso se querem casar que casem que ninguém tem nada com isso que as pessoas são livres de escolher o companheiro ou a companheira que quiserem o meu pai não gostou da resposta da minha mãe disse-lhe que desde que começara a pintar estava diferente quase que se pegaram numa grande discussão não fosse a minha tia guilhermina por água na fervura dizendo que não acreditava que fossem prá frente com uma ideia dessas e o meu pai levantou-se da mesa e foi prá cozinha resmungar que não há direito que as pessoas estão doidas se já se viu uma coisa dessas um ultrage a quem é católico uma ofensa pública a minha tia guilhermina ficou muito preocupada ao vê-lo assim a resmungar mas a minha mãe disse-lhe deixa lá que isto passa-lhe na internet li algumas coisas que não gostei nada que as pessoas são muito malcriadas mas outras coisas até achei muita graça como aquela a dizer que as decisões do governo deviam ser feitas por toda a gente na internet que assim é que estava certo pois toda a gente decidia as coisas importantes para o país mas não acho que esteja certo as pessoas sem internet não podem participar e ainda há muita gente que não tem internet seria injusto pra elas e depois pra quê que era preciso o governo não era preciso pra nada as decisões eram todas feitas na internet uma loucura eu acho sem pés nem cabeça como se fosse possível uma coisa dessas depois dizem também que vão fazer queixa ao parlamento europeu como se isso adiantasse alguma coisa até parece que no parlamento europeu as pessoas não têm nada que fazer senão ouvir as queixinhas faz-me lembrar a minha escola onde alguns meninos e meninas passam a vida a fazer queixinhas às professoras mas ninguém gosta deles por serem assim queixinhas e as professoras também não gostam de ouvir as queixinhas não fazem nada mas eu sei que não gostam o que é que essas pessoas esperam que com as queixinhas o parlamento europeu venha castigar o sócrates lhe venha puxar as orelhas um disparate acho que são pessoas que nunca cresceram aprenderam a fazer queixinhas na escola e agora querem continuar da mesma maneira como diz uma senhora na internet deviam ir todos outra vez prá escola e ter aulas de educação cívica que eu sou pequena mas já sei o que isso significa acho que essa senhora tem muita razão no que diz porque é uma vergonha ver gente adulta agir como se fossem crianças queixinhas e isso é muito feio o meu pai também fica muito zangado quando lhe falam em futebol que o benfica só ficou em terceiro lugar no campeonato e não ganhou nada nem a taça de portugal uma vergonha um clube daqueles que diz que é o maior clube do mundo mas não ganha nada só vive de glórias passadas o porto é que vai ganhando tudo soma campeonatos sobre campeonatos que o pinto da costa é uma grande filho da mãe que até está envolvido em coisas muito esquisitas que compra os árbitros para o seu clube ganhar e que houve uma senhora que se zangou com ele e escreveu um livro a contar um montão de coisas que já esteve pra ser preso mas não foi e o porto continua a ganhar uma vergonha e o meu pai não se conforma a minha mãe diz que o futebol é uma porcaria que é só negociatas que é melhor ele pensar em outras coisas mais úteis e agora vou dormir que já são horas de uma menina pequena como eu ir prá cama dormir.
Fatinha do Alentejo
Fatinha do Alentejo
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Diário da Fatinha (27)
Olá amigos podem achar esquisito que eu voltei depois de dizer adeus mas alguns amigos me mandaram mensagens e até telefonaram pedindo para eu continuar a publicar o meu diário que acham muito interessante que é uma pena que eu guarde essas coisas só pra mim que gostam muito do que eu escrevo não sei porquê afinal eu sou uma menina pequena e não sei nada da vida ainda como diz a minha mãe que diz que a vida tem sido ingrata pra ela mas que afinal não se pode queixar que tem muitas coisas boas que há gente em muito pior situação e eu penso logo nas crianças da minha idade e mais pequenas do que eu que não têm nada pra comer e pra beber coitadas isto é uma grande injustiça porque ouvi dizer que no mundo há comida que chegue pra todos e porque é que uns comem tudo e engordam que se farta e outros não têm nada e ficam muito magrinhos e acabam por morrer há muitas imagens dessas que circulam na internet que eu já vi que eu já sei mexer na internet mas parece que ninguém quer saber deixam as pessoas morrer assim uma vergonha não há direito os políticos são tudo a mesma coisa só querem encher o bandulho à conta do zé povinho como diz o meu pai que agora já nem quer saber da política comunista que dizem que dão de comer a toda a gente mas é mentira é tudo a mesma coisa agora o meu pai é todo do sócrates que ele acha que é um grande primeiro ministro e que andam praí com umas calunias dizem que ele não é engenheiro que o diploma dele é falso o meu pai diz que é uma pouca vergonha não há direito porque afinal ele é primeiro ministro e deviam ter mais respeito mas agora parece que ninguém respeita ninguém e depois andam também com umas histórias da ota pra lá ota pra cá e agora descobriram alcochete onde o sporting tem uma academia e onde treinam até a selecção e se o aeroporto vai pra lá o sporting fica sem academia porque não podem treinar com os aviões a passar por cima mas agora veio o dez de junho e toda a gente ficou muito poeta para lembrar o camões coitado que perdeu um olho lá em ceuta que eu não sei bem onde é que fica e não sei o que é que ele lá andava a fazer mas coitado escreveu os lusíadas que a minha professora diz que é uma das grandes obras universais mas não lhe serviu de nada porque morreu muito pobre e cego coitado é uma injustiça ninguém dá valor a quem tem valor e ele escreveu os lusíadas o que é muito importante mas o rei na altura era um completo idiota e deixou o camões morrer na miséria e depois foi pra alcácer-quibir andar à porrada com os mouros um idiota mas não foi sozinho foram muitos outros muitos nobres tão idiotas como ele e depois fizeram toda aquela choradeira do retorno mas ele nunca mais voltou e ninguém sabe se morreu ou não e depois as pessoas dizem que o dez de junho é o dia da raça não percebo de que raça estão a falar se é raça branca preta ou mulada dizem que é a raça lusitana mas os lusitanos eram uns doidos que não se entendiam passavam a vida à porrada uns com os outros até as mulheres sabiam andar a cavalo e iam prá porrada junto com os homens até que o viriato os pôs todos na ordem que era preciso combater os romanos uns malandros que tinham vindo lá da itália para tomarem conta da península ibérica mas o viriato era muito esperto e fez-lhes a vida negra até que o mataram à traição e os lusitanos ficaram outra vez muito doidos sem saberem o que fazer até que decobriram um oficial romano que estava zangado com os romanos e se chamava quinto sertório e foram-lhe pedir pra comandar os lusitanos na luta contra os romanos tudo uma grande confusão afinal lusitanos não é raça nenhuma e não sei porquê que anda muita gente agora a falar em nação e nacionalistas não entendo afinal se somos portugueses somos todos nacionalistas de portugal mas parece que há uns mais nacionalistas que os outros e acham que as coisas só mudam à porrada mas ninguém vai pra porrada que tem medo da polícia que não está pra brincadeiras e esses nacionalistas acham que só eles é que são portugueses faz lembrar os lusitanos que não se entendiam eu agora estou em férias da escola e o meu pai diz que a gente vai pró algarve fazer praia que ele agora já anda mais contente e até pode fazer férias pois foi promovido a chefe de secção e ganha mais do que ganhava a minha tia guilhermina diz que ir pró algarve em agosto é muito mau tem muita gente e é tudo uma confusão e as coisas ficam mais caras ela agora parece que está mais sossegada não tem namorado e diz que está à espera de encontrar o homem certo pra ela a minha mãe não acredita diz que é tudo conversa fiada que ela não consegue manter as pernas fechadas que é uma doidivanas a minha mãe às vezes diz estas coisas e depois arrepende-se de falar essas coisas na minha frente porque eu sou pequena e não devia ouvir certas coisas enfim uma confusão a minha mãe ánda muito contente com a pintura parece que as pessoas gostam muito do que ela pinta e diz que vai fazer uma exposição mas ainda não sabe onde mas eu não percebo porque é que as pessoas gostam do que ela pinta dizem que é tudo abstracto tem uns riscos e umas manchas e as pessoas vêem coisas lá que eu não vejo mas dizem que a arte é assim mesmo eu gosto mais dos quadros em que eu posso ver coisas casas e paisagens e barcos e mar e céu todas essas coisas e não aquelas manchas coloridas que a minha mãe faz não tenho brincado com a ritinha que ela foi pró brasil com o pai e a mãe passar férias mas eu espero que ela volte logo porque tenho muitas coisas pra conversar com ela e com o pai dela que é uma pessoa que sabe muitas coisas e eu aprendo muito com ele coisas que eu leio na internet e não percebo e ele depois explica-me como essa dum tal hugo marçal que agora parece que vai ser juiz mas não devia ser porque dizem que é um pedófilo eu já sei o que quer dizer que o pai da ritinha já me explicou uma vez que eu lhe perguntei mas também me disse que os tribunais existem pra julgar as pessoas e ninguém é culpado até prova em contrário e portanto as pessoas não devem ser condenadas publicamente porque isso seria a reedição do passado em que as pessoas denunciadas eram logo culpadas sem julgamento sem nada mas que é assim que o zé povinho funciona que as fogueiras da inquisição eram uma festa pra ele e toda a gente gostava de ver as pessoas a arder uma vergonha não tinham pena nenhuma das pessoas condenadas o zé povinho é muito cruel e eu fico aflita ao saber estas coisas porque as pessoas podiam ser boas umas prás outras que não custa nada mas gostam de ver os outros sofrer eu agora vou terminar que a minha mãe já me disse que são horas de dormir eu continuo a escrever desta maneira mas já sei escrever como as pessoas crescidas só que desta maneira as pessoas acham mais interessante e eu fico muito contente por as pessoas gostarem do que escrevo beijinhos a todos
Fatinha do Alentejo
Fatinha do Alentejo
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Magia ou Ilusão?
Todos estamos habituados a ver aqueles truques que alguns dizem que são de magia, mas na verdade trata-se de ilusão, por isso as pessoas que os fazem se chamam ilusionistas, e não magos.
Os truques de ilusionismo baseiam-se numa técnica muito simples, embora de muito difícil execução. Com palavras e gestos dirige-se e controla-se a atenção do espectador, de modo a ele não ver o truque que está a ser feito. As luzes e a decoração do cenário ajudam à ilusão. O jogo da vermelhinha é o protótipo: com três cartas ou três copos com uma bola dentro muda-se a posição com gestos precisos e rápidos, ao mesmo tempo que o executante vai dizendo uma ladainha, conversa para desviar a atenção. A partir de determinado momento, o espectador julga que sabe onde está a carta ou o copo com a bola e depois verifica que se enganou.
Ao contrário do que se pensa normalmente, não somos enganados pelos nossos olhos, somos enganados pelo nosso cérebro. Porque vemos com o cérebro e não com os olhos e, como o nosso pensamento é muito subjectivo, acabamos por ver aquilo que queremos ver e não o que deveríamos ver. Isto parece complicado, mas não é assim tão difícil de entender. A nossa atenção é atraída por aquilo que nos é mais agradável ou mais fácil. Quando um ilusionista no palco faz aquelas deambulações e aqueles gestos teatrais, atrai dessa forma a atenção do nosso cérebro, num processo lúdico de divertimento. Certo de ter desviado a nossa atenção, o ilusionista vai criando o seu truque. No final ficamos convencidos que não perdemos um detalhe do que ele fez e ficamos admirados com o resultado.
Naturalmente que há uma porção de detalhes que o espectador não vê. Alçapões, paredes falsas, fundos falsos, luzes coloridas etc., tudo fazendo parte da decoração propositada para iludir. Enquanto as coisas se limitaram aos palcos dos teatros ou aos circos, o trabalho era todo feito à vista e em tempo real. A televisão veio acrescentar novas condições a essa arte. Pela televisão nunca sabemos que truques cinematográficos terão sido aplicados.
No entanto, apesar de sabermos que tudo não passa de truques mais ou menos bem feitos, há casos que nos deixam a pensar. Lembro-me de ter visto um oriental, julgo que japonês, com uma moeda por debaixo de uma garrafa transparente. Cobriu a garrafa com um pano e, quando a descobriu, a moeda estava dentro da garrafa. Acontece porém, que a moeda nem sequer passava pelo gargalo. Como é que a moeda foi parar dentro da garrafa? Truque de cinema, dado que o vi pela televisão? Mas havia assistência à volta do ilusionista. Teria sido aquela assistência hipnotizada, enquanto a garrafa era simplesmente trocada por outra com uma moeda dentro? Tudo é possível.
Mas para além dos ilusionistas, que são não verdade artistas de palco, há outros fenómenos que fogem completamente da racionalidade e que não se enquadram no que conhecemos das leis da natureza nem se encaixam no saber científico dos nossos dias. Falo dos magos, gurus, ou o que se lhes quiserem chamar, que, aparentemente, têm a capacidade de produzir autênticos milagres.
Toda a gente já ouviu falar de “Yogis” hindus que conseguem caminhar sobre um braseiro sem se queimarem, conseguem beber um copo de ácido sulfúrico como se fosse água fresca e conseguem materializar e desmaterializar objectos. O que conhecemos sobre a materialização vem-nos da Bíblia, do Novo Testamento, onde se descrevem alguns milagres de Jesus, como a multiplicação dos pães e dos peixes, ou a da transformação da água em vinho. Isto não nos surpreende à partida, dado que Jesus é considerado filho de Deus e, portanto, com capacidades muito superiores às dos simples mortais que somos todos nós. Mas parece que essa capacidade não era exclusiva de Jesus. Segundo rezam algumas crónicas, havia uns magos na Caldeia que tinham também esse poder. Por outro lado, parece que nem todos os milagres atribuídos a Jesus terão sido realizados por ele, para por uma personagem conhecida do mundo esotérico e místico chamado Apolónio de Tiana.
A primeira reacção que surge em relação a estas coisas é a de não acreditarmos. Que provavelmente não é bem assim, que as crónicas dos magos da Caldeia talvez não sejam verdadeiras, que Apolónio de Tiana não tenha realizado nada do que se lhe atribui, enfim, fazemos uma reserva mental a tudo quanto contribua para desestabilizar a nossa crença de que apenas Jesus, pela sua condição divina, teria sido o único ser a realizar esses prodígios.
Pois é, mas parece que essas coisas continuam a ser feitas nos nossos dias. As habilidades dos “Yogis” hindus já foram testemunhadas por muita gente e, quanto a materialização de objectos, toda a gente já ouviu falar ou conhece o Sai Baba. No seu “ashram” no sul da Índia, onde já estive, ele materializa objectos que depois oferece às pessoas que os solicitaram, como relógios em ouro, pulseiras, etc. Parece que também tem a faculdade de vomitar da sua boca objectos metálicos em formato de ovos, cujo nome não me lembro de momento. Quando assisti a uma cerimónia com o Sai Baba no seu “ashram” não vi nada disto, mas acredito nas descrições que já foram feitas a respeito e até já assisti a um filme onde se vê ele vomitar os tais ovos.
Ainda há bem pouco tempo vivia na ilha de Chipre um indivíduo a que chamavam o Mago de Strovolos. Não fazia aquelas habilidades, não materializava objectos, mas tratava as doenças das pessoas de uma forma muito especial. Usava as mãos para retirar tumores ou para corrigir a estrutura óssea, sem qualquer derramamento de sangue e não deixando a mínima cicatriz. Tinha também a faculdade de tratar as pessoas à distância por meio de projecção astral. Verdade ou não, há um livro que descreve tudo isto e explica que os tratamentos não eram feitos com o seu corpo físico, mas sim com o seu corpo etérico. Ou seja, as mãos que entravam nos corpos para retirar os tumores e acertarem os ossos, não eram as suas mãos físicas, mas as etéricas, o que permitia que pudesse tratar pessoas por projecção astral, uma vez que o seu corpo físico não estava presente.
Há uns anos atrás apareceram nas Filipinas uns curandeiros que tratavam as pessoas da mesma forma. Isto originou um grande afluxo de gente oriunda de todas as partes do mundo, em busca de alívio para os seus males. No entanto, a acção desses curandeiros era uma mascarada, tendo sido demonstrado que não passava de truques de ilusionismo. As pessoas não eram realmente tratadas, mas de qualquer das formas muitas sentiam alívio, o que pode ser explicado pelo chamado efeito placebo, que não cabe aqui falar a respeito, mas que poderá ser objecto de uma futura crónica.
Sou por natureza céptico em relação a estes fenómenos mas, tenho que confessar, que há coisas para as quais não encontro explicação. No início dos anos sessenta estava eu a trabalhar em Luanda quando recebo a visita de um desses magos ou ilusionistas. Não me lembro do nome dele mas, na altura estava a funcionar em Luanda uma feira popular, em tudo semelhante à de Lisboa, com restaurantes, carrosséis e várias barracas de adivinhos, tarólogos, etc. Esse indivíduo também tinha uma barraca lá. Fiz um comentário acerca do meu descrédito dessas coisas e ele disse-me:
- Você não acredita? Então vou lhe dizer uma coisa. Tem no seu bolso três moedas e vou-lhe dizer que modas são e quais os anos de cunhagem.
Para meu espanto disse-me exactamente o valor das moedas e o ano de cunhagem. Fiquei simplesmente pasmado. As moedas estavam o meu bolso havia tempo e nem eu sabia qual o valor delas. Ele disse-me mais ainda, que eu não acreditava que ele fosse capaz de colocar uma pessoa em estado de levitação, como fazia no seu espectáculo todas as noites na feira. Disse-me para aparecer na feira que ele faria uma demonstração especial só para mim.
Nessa noite fui à feira. Entrei na barraca dele, que estava vazia de espectadores no momento e ele disse-me que ia fazer a demonstração que me tinha prometido. Chamou a sua assistente, uma rapariga que devia ser sua filha e, perante os meus olhos, colocou-a no ar, em posição horizontal, sem nada, aparentemente, a sustentá-la. Depois disse-me:
- Já que você não acredita, veja por si mesmo, procure com as suas mãos o que quer que seja que esteja a sustentá-la no ar.
Fui verificar. Passei as minhas mãos por todos os lados, por cima, por baixo, nada, não havia nada a sustentá-la. Saí de lá convencido que tinha de facto assistido a um fenómeno de pura magia, algo que transcendia a minha compreensão.
Nunca mais ouvi falar deste sujeito. Terminada a feira popular de Luanda, parece que se eclipsou. Nunca vi um anúncio seu em jornais nem nunca soube de ninguém que o conhecesse. Lembro-me que era um homem forte, relativamente baixo e de meia-idade.
Anos mais tarde, em Lisboa, alguém me recomendou um livro em francês. Tomei nota do livro e, durante uns meses nunca mais pensei no assunto. Chegado o mês de Junho, com a abertura da Feira do Livro, achei que talvez fosse uma boa altura de o adquirir. Passei pela Feira e fui à banca da editora perguntar pelo livro. A pessoa que me atendeu, um indivíduo em tudo semelhante nas feições e compleição física ao mago de Luanda, disse-me que na Feria não se podiam vender livros em línguas estrangeiras. Mas ao ver o meu desapontamento, perguntou-me qual era o livro que eu queria. Aí surgiu um problema, não me lembrava do título do livro. “Mas temos dezenas de livros em francês deste autor ainda não traduzidos para o português. Se me disser o título, trago-lho amanhã, mas não diga nada a ninguém que lho vendi aqui”. – Disse-me ele. Respondi-lhe que não me lembrava do nome do livro mas, que no dia seguinte, como trabalhava ali perto, lho traria.
No dia seguinte, ao fim da tarde, passei de novo pela banca, já com a informação sobre o título do livro. Logo que me viu chegar, a pessoa que me tinha atendido no dia anterior disse-me: “Já tenho aqui o seu livro”. E mostrou-mo. Fiquei atónito. “Como é que sabia que era esse livro?” – Perguntei. Como resposta, ele apenas sorriu. Limitou-se depois a embrulhá-lo e a desejar-me uma boa leitura. O livro era “La voie du silence” de Omraam Mikhael Aivanhov.
Magia ou Ilusão?
Os truques de ilusionismo baseiam-se numa técnica muito simples, embora de muito difícil execução. Com palavras e gestos dirige-se e controla-se a atenção do espectador, de modo a ele não ver o truque que está a ser feito. As luzes e a decoração do cenário ajudam à ilusão. O jogo da vermelhinha é o protótipo: com três cartas ou três copos com uma bola dentro muda-se a posição com gestos precisos e rápidos, ao mesmo tempo que o executante vai dizendo uma ladainha, conversa para desviar a atenção. A partir de determinado momento, o espectador julga que sabe onde está a carta ou o copo com a bola e depois verifica que se enganou.
Ao contrário do que se pensa normalmente, não somos enganados pelos nossos olhos, somos enganados pelo nosso cérebro. Porque vemos com o cérebro e não com os olhos e, como o nosso pensamento é muito subjectivo, acabamos por ver aquilo que queremos ver e não o que deveríamos ver. Isto parece complicado, mas não é assim tão difícil de entender. A nossa atenção é atraída por aquilo que nos é mais agradável ou mais fácil. Quando um ilusionista no palco faz aquelas deambulações e aqueles gestos teatrais, atrai dessa forma a atenção do nosso cérebro, num processo lúdico de divertimento. Certo de ter desviado a nossa atenção, o ilusionista vai criando o seu truque. No final ficamos convencidos que não perdemos um detalhe do que ele fez e ficamos admirados com o resultado.
Naturalmente que há uma porção de detalhes que o espectador não vê. Alçapões, paredes falsas, fundos falsos, luzes coloridas etc., tudo fazendo parte da decoração propositada para iludir. Enquanto as coisas se limitaram aos palcos dos teatros ou aos circos, o trabalho era todo feito à vista e em tempo real. A televisão veio acrescentar novas condições a essa arte. Pela televisão nunca sabemos que truques cinematográficos terão sido aplicados.
No entanto, apesar de sabermos que tudo não passa de truques mais ou menos bem feitos, há casos que nos deixam a pensar. Lembro-me de ter visto um oriental, julgo que japonês, com uma moeda por debaixo de uma garrafa transparente. Cobriu a garrafa com um pano e, quando a descobriu, a moeda estava dentro da garrafa. Acontece porém, que a moeda nem sequer passava pelo gargalo. Como é que a moeda foi parar dentro da garrafa? Truque de cinema, dado que o vi pela televisão? Mas havia assistência à volta do ilusionista. Teria sido aquela assistência hipnotizada, enquanto a garrafa era simplesmente trocada por outra com uma moeda dentro? Tudo é possível.
Mas para além dos ilusionistas, que são não verdade artistas de palco, há outros fenómenos que fogem completamente da racionalidade e que não se enquadram no que conhecemos das leis da natureza nem se encaixam no saber científico dos nossos dias. Falo dos magos, gurus, ou o que se lhes quiserem chamar, que, aparentemente, têm a capacidade de produzir autênticos milagres.
Toda a gente já ouviu falar de “Yogis” hindus que conseguem caminhar sobre um braseiro sem se queimarem, conseguem beber um copo de ácido sulfúrico como se fosse água fresca e conseguem materializar e desmaterializar objectos. O que conhecemos sobre a materialização vem-nos da Bíblia, do Novo Testamento, onde se descrevem alguns milagres de Jesus, como a multiplicação dos pães e dos peixes, ou a da transformação da água em vinho. Isto não nos surpreende à partida, dado que Jesus é considerado filho de Deus e, portanto, com capacidades muito superiores às dos simples mortais que somos todos nós. Mas parece que essa capacidade não era exclusiva de Jesus. Segundo rezam algumas crónicas, havia uns magos na Caldeia que tinham também esse poder. Por outro lado, parece que nem todos os milagres atribuídos a Jesus terão sido realizados por ele, para por uma personagem conhecida do mundo esotérico e místico chamado Apolónio de Tiana.
A primeira reacção que surge em relação a estas coisas é a de não acreditarmos. Que provavelmente não é bem assim, que as crónicas dos magos da Caldeia talvez não sejam verdadeiras, que Apolónio de Tiana não tenha realizado nada do que se lhe atribui, enfim, fazemos uma reserva mental a tudo quanto contribua para desestabilizar a nossa crença de que apenas Jesus, pela sua condição divina, teria sido o único ser a realizar esses prodígios.
Pois é, mas parece que essas coisas continuam a ser feitas nos nossos dias. As habilidades dos “Yogis” hindus já foram testemunhadas por muita gente e, quanto a materialização de objectos, toda a gente já ouviu falar ou conhece o Sai Baba. No seu “ashram” no sul da Índia, onde já estive, ele materializa objectos que depois oferece às pessoas que os solicitaram, como relógios em ouro, pulseiras, etc. Parece que também tem a faculdade de vomitar da sua boca objectos metálicos em formato de ovos, cujo nome não me lembro de momento. Quando assisti a uma cerimónia com o Sai Baba no seu “ashram” não vi nada disto, mas acredito nas descrições que já foram feitas a respeito e até já assisti a um filme onde se vê ele vomitar os tais ovos.
Ainda há bem pouco tempo vivia na ilha de Chipre um indivíduo a que chamavam o Mago de Strovolos. Não fazia aquelas habilidades, não materializava objectos, mas tratava as doenças das pessoas de uma forma muito especial. Usava as mãos para retirar tumores ou para corrigir a estrutura óssea, sem qualquer derramamento de sangue e não deixando a mínima cicatriz. Tinha também a faculdade de tratar as pessoas à distância por meio de projecção astral. Verdade ou não, há um livro que descreve tudo isto e explica que os tratamentos não eram feitos com o seu corpo físico, mas sim com o seu corpo etérico. Ou seja, as mãos que entravam nos corpos para retirar os tumores e acertarem os ossos, não eram as suas mãos físicas, mas as etéricas, o que permitia que pudesse tratar pessoas por projecção astral, uma vez que o seu corpo físico não estava presente.
Há uns anos atrás apareceram nas Filipinas uns curandeiros que tratavam as pessoas da mesma forma. Isto originou um grande afluxo de gente oriunda de todas as partes do mundo, em busca de alívio para os seus males. No entanto, a acção desses curandeiros era uma mascarada, tendo sido demonstrado que não passava de truques de ilusionismo. As pessoas não eram realmente tratadas, mas de qualquer das formas muitas sentiam alívio, o que pode ser explicado pelo chamado efeito placebo, que não cabe aqui falar a respeito, mas que poderá ser objecto de uma futura crónica.
Sou por natureza céptico em relação a estes fenómenos mas, tenho que confessar, que há coisas para as quais não encontro explicação. No início dos anos sessenta estava eu a trabalhar em Luanda quando recebo a visita de um desses magos ou ilusionistas. Não me lembro do nome dele mas, na altura estava a funcionar em Luanda uma feira popular, em tudo semelhante à de Lisboa, com restaurantes, carrosséis e várias barracas de adivinhos, tarólogos, etc. Esse indivíduo também tinha uma barraca lá. Fiz um comentário acerca do meu descrédito dessas coisas e ele disse-me:
- Você não acredita? Então vou lhe dizer uma coisa. Tem no seu bolso três moedas e vou-lhe dizer que modas são e quais os anos de cunhagem.
Para meu espanto disse-me exactamente o valor das moedas e o ano de cunhagem. Fiquei simplesmente pasmado. As moedas estavam o meu bolso havia tempo e nem eu sabia qual o valor delas. Ele disse-me mais ainda, que eu não acreditava que ele fosse capaz de colocar uma pessoa em estado de levitação, como fazia no seu espectáculo todas as noites na feira. Disse-me para aparecer na feira que ele faria uma demonstração especial só para mim.
Nessa noite fui à feira. Entrei na barraca dele, que estava vazia de espectadores no momento e ele disse-me que ia fazer a demonstração que me tinha prometido. Chamou a sua assistente, uma rapariga que devia ser sua filha e, perante os meus olhos, colocou-a no ar, em posição horizontal, sem nada, aparentemente, a sustentá-la. Depois disse-me:
- Já que você não acredita, veja por si mesmo, procure com as suas mãos o que quer que seja que esteja a sustentá-la no ar.
Fui verificar. Passei as minhas mãos por todos os lados, por cima, por baixo, nada, não havia nada a sustentá-la. Saí de lá convencido que tinha de facto assistido a um fenómeno de pura magia, algo que transcendia a minha compreensão.
Nunca mais ouvi falar deste sujeito. Terminada a feira popular de Luanda, parece que se eclipsou. Nunca vi um anúncio seu em jornais nem nunca soube de ninguém que o conhecesse. Lembro-me que era um homem forte, relativamente baixo e de meia-idade.
Anos mais tarde, em Lisboa, alguém me recomendou um livro em francês. Tomei nota do livro e, durante uns meses nunca mais pensei no assunto. Chegado o mês de Junho, com a abertura da Feira do Livro, achei que talvez fosse uma boa altura de o adquirir. Passei pela Feira e fui à banca da editora perguntar pelo livro. A pessoa que me atendeu, um indivíduo em tudo semelhante nas feições e compleição física ao mago de Luanda, disse-me que na Feria não se podiam vender livros em línguas estrangeiras. Mas ao ver o meu desapontamento, perguntou-me qual era o livro que eu queria. Aí surgiu um problema, não me lembrava do título do livro. “Mas temos dezenas de livros em francês deste autor ainda não traduzidos para o português. Se me disser o título, trago-lho amanhã, mas não diga nada a ninguém que lho vendi aqui”. – Disse-me ele. Respondi-lhe que não me lembrava do nome do livro mas, que no dia seguinte, como trabalhava ali perto, lho traria.
No dia seguinte, ao fim da tarde, passei de novo pela banca, já com a informação sobre o título do livro. Logo que me viu chegar, a pessoa que me tinha atendido no dia anterior disse-me: “Já tenho aqui o seu livro”. E mostrou-mo. Fiquei atónito. “Como é que sabia que era esse livro?” – Perguntei. Como resposta, ele apenas sorriu. Limitou-se depois a embrulhá-lo e a desejar-me uma boa leitura. O livro era “La voie du silence” de Omraam Mikhael Aivanhov.
Magia ou Ilusão?
domingo, 6 de maio de 2007
MISTÉRIOS - II - Ísis e o culto das Virgens Negras
No antigo Egipto Ísis tinha um lugar muito especial no panteão dos deuses. Era a deusa das deusas. Um papiro antigo diz-nos que ela era a doadora da vida, a fonte de conhecimento, a serpente Kundalini, que era uma deusa pois era filha das estrelas, que era a natureza em toda a sua pujança. Ísis era a esposa e contraparte feminina de Osíris, mais especialmente, Ísis era a alma apaixonada, representando todos os níveis, estados, formas e experiências do amor que a alma humana é capaz.
No fascínio egípcio pelo mistério da alma da mulher, Ísis era a esposa leal, a amante, a mãe, a sedutora, a bruxa, a prostituta, a guia, a protectora, a enfermeira, a irmã, a companheira e sempre, acima de tudo, o poder leal ao lado do trono.
Ísis representava todas as formas de ligação, de amizade, de amor e de sexo criados entre as pessoas. Ela era a electricidade, a magia, a química desses laços e de todos os seus perigos.
No antigo Egipto havia muitas deusas, cada uma com a sua devoção especial. Na verdade, não eram deusas diferentes, eram manifestações diferentes de uma única deusa, Ísis. Era algo de semelhante com o que se passa no mundo católico, onde as várias virgens e Nossas Senhoras são aspectos diferentes de Maria, mãe de Jesus.
Maria, na tradição cristã, corresponde a uma pessoa que realmente existiu. Quanto a Ísis, há a tendência de se pensar que não era mais do que uma deusa criada pelo imaginário egípcio e, portanto, fazendo parte da mitologia. Mas essa é uma leitura fácil e pouco atenta pois, por detrás dos mitos esconde-se uma verdade que temos alguma dificuldade em aceitar. Essa verdade é a de que em épocas remotas, os deuses viveram na Terra juntamente com os homens. Isto é confirmado pela Bíblia (Génesis, 6.4). Desta forma Ísis não é apenas o fruto da fértil imaginação egípcia, deve ter sido alguém que existiu de facto, e que os homens consideraram tratar-se de uma deusa.
Os gregos identificavam Ísis com as suas próprias deusas, também aqui nas várias expressões da mesma divindade: como fornecedora do grão e protectora das colheitas, ela era Demeter; como deusa do amor, ela era Afrodite; como esposa do rei dos deuses, ela era Hecate, a deusa grega da magia, cujo nome derivava directamente do egípcio, onde “palavras mágicas” era “heka”; como protótipo da mulher humana, ela era Io, amada por Zeus e transformada numa vaca, que é a mesma deusa egípcia, uma das expressões de Ísis, Hathor.
Não sabemos como é que eram os egípcios antigos. Sabemos como são hoje, uma população predominantemente árabe, resultado de grandes migrações e guerras de conquista que ocorreram no Médio Oriente, mas que não tem nada a ver com a população egípcia do tempo dos faraós. Há quem lhes atribua a cor vermelha, algo semelhante aos índios da América do Norte, e há quem afirme que os antigos egípcios eram negros, ainda que as características negróides não sejam evidentes nas imagens que nos deixaram gravadas nos seus monumentos. No entanto, essas características negróides como, por exemplo, os lábios grossos, não são típicas de toda a raça negra. A rainha de Sabá, que terá seduzido Salomão com a sua extraordinária beleza, era, aparentemente, negra. São Bernardo, autor de muitos poemas e sermões, num dos seus poemas dedicados a Salomão e à rainha de Sabá, manifesta a sua grande devoção pela cor negra: “O, filhos de Jerusalém, sou negra, mas sou bela.”
Ísis é muitas vezes representada com a cor negra ou escura. O seu culto foi extremamente importante no Egipto antigo. Nos tempos de Ptolomeu (300 a. C.), a comunidade devotada a Ísis era chamada de Ecclesia, uma estrutura e organização adoptadas pela assembleia-geral grega e, através de Bizâncio e Alexandria, pela Igreja Cristã. No entanto, somente as formas exteriores foram preservadas. Perdeu-se o que de mais íntimo havia no culto da Senhora, como Ísis era chamada. O verdadeiro significado da Senhora foi enterrado debaixo das camadas patriarcais e dos dogmas da interpretação cristã. Isis era mostrada como mulher completa em todos os seus aspectos e estágios da vida. A sua feminilidade era estudada tão ao pormenor que as muitas das suas faces ou expressões eram personificadas em outras tantas divindades numa combinação de diferentes coroas e ornamentos da cabeça. Toda a expressão masculina tem uma contraparte feminina no reconhecimento da dualidade universal da natureza, mas os muitos aspectos de Ísis, identificados pelas coroas e vários atributos, representam as muitas faces do amor experimentado no mundo humano.
A questão de ser irmã e, ao mesmo tempo, esposa de Osíris, choca um pouco a nossa cultura ocidental de origem judaico-cristã, pois trata-se, efectivamente, de uma situação incestuosa. Mas esta questão tem algumas explicações que nos poderão ajudar a compreendê-la.
Os faraós, ainda que pudessem dispor de concubinas ou até de haréns com dezenas de mulheres, só podiam ter como esposa oficial uma sua irmã ou meia-irmã. Como a faraó se assumia como filho dos deuses, sendo ele próprio também um deus, só podia casar-se com quem tivesse a mesma origem divina, portanto uma sua irmã de sangue. A origem mais remota deste costume vamos encontrá-la na mitologia da Suméria, onde os deuses para poderem herdar o poder tinham que estar casados com irmãs ou meias-irmãs. Entre eles o incesto não era um assunto tabu, era antes recomendado.
Não sabemos qual a razão deste comportamento, talvez uma forma de evitar que os deuses e seus filhos se cruzassem com os seres humanos, o que, apesar de tudo e como confirma a Bíblia, não conseguiram evitar.
Os hábitos sexuais dos deuses chocam os nossos conceitos da cultura ocidental. O incesto era normal e recomendado, houve até um deus, o principal do panteão sumério, Anu, que teve relações sexuais com uma sua neta. O adultério era uma situação vulgar, tanto da parte masculina como da feminina. Nos templos dedicados a Ishtar praticava-se a chamada “prostituição sagrada”. Não se tratava propriamente de prostitutas que ali exerciam a sua profissão, eram mulheres mães de família que, para aumentarem os rendimentos da casa se prostituíam, com o conhecimento e apoio do marido. Ou então, raparigas que pretendiam casar e constituir família, prostituíam-se para conseguirem um dote.
Embora não haja referências de que estes costumes tenham sido levados para o Egipto, sabemos no entanto que a vida dos egípcios decorria com grande liberdade. O drama conhecido de Ísis e Osíris, em que este foi morto por Seth, tem origem nesses costumes.
Os deuses egípcios eram os mesmos da Suméria ou, pertenciam à mesma família. Os deuses sumérios eram doze e, de certa forma, dividiram a Terra entre eles. O chefe desses deuses chamava-se Anu, o qual tinha dois filhos, Enki e Enlil. Na divisão da Terra, coube a Enki o governo das terras que viemos a conhecer como Egipto. No Egipto, Enki tomou o nome de Ptah, e governou, segundo a crónica impressa nas tabuinhas de argila sumérias, durante 9.000 anos. Ptah passou o poder a seu filho RA, que na suméria se chamava Marduk. A RA sucedeu seu filho Shu, casado com sua irmã Tefnut. Segundo a tradição egípcia, foram estes deuses que estabeleceram o modelo adoptado pelos faraós: a esposa oficial do rei era a sua própria irmã. Shu e Tefnut cederam o governo a dois dos seus filhos, irmão e irmã, Geb e Nut.
Com os descendentes de Geb e Nut, tudo se complicou. Com os seus dois filhos casados com as próprias irmãs, Geb e Nut não tiveram outra solução senão dividir o reino entre eles: Asar (Osíris) e Ast (Ísis) ficaram com o Baixo Egipto, Seth e Néftis ficaram com o Alto Egipto. Isto foi uma grande complicação. Os deuses, tal como nos é descrito em toda a mitologia grega, sofriam das mesmas paixões que mais tarde os humanos vieram a receber por herança. Eram gananciosos, sedentos de poder, cometiam adultérios, incestos, eram ciumentos, etc. Assim, como nos conta Plutarco, historiador grego do 1º século da nossa era, Osíris era filho de Ra, numa relação que este manteve com sua neta Nut. Ísis era filha de Thot, que também se relacionara com Nut. Desta forma, Osíris, que era filho do grande deus Ra era o herdeiro principal. Mas pelas regras dos deuses, o herdeiro deveria ser Seth, pois ele e sua irmã e esposa Néftis, eram filhos legítimos de Geb.
Sabemos o que se seguiu. Set acabou por assassinar Osíris e tomar o poder sobre todo o Egipto para si. Para que Osíris não pudesse ser ressuscitado, separou o seu corpo em vários pedaços, 14 segundo uns, 42 segundo outros, e atirou-os ao Nilo. Ísis partiu em busca desses pedaços de Osíris e conseguiu reunir quase todos, menos um, o falo. Mas mesmo assim, por artes mágicas, conseguiu ser impregnada por Osíris e dar à luz o filho Hórus. Criado em segredo, Hórus ficou com a incumbência de, quando chegasse à idade adulta, vingar o pai.
Aparentemente, Osíris morrera sem deixar herdeiro. Seth tentou forçar Ísis a dar-lhe esse herdeiro, o que garantiria o poder no Egipto para a sua descendência. Mas Ísis, apesar de feita prisioneira por Seth, recusou-se e conseguiu fugir com a ajuda de Thot. Procurou o filho Hórus onde o deixara escondido e descobriu que ele agonizava devido à picada de um escorpião. Ela não tinha o poder de o curar e pediu a ajuda dos céus. Thot, senhor das artes mágicas e do conhecimento, desceu dos céus e curou o menino.
Quando Hórus se tornou adulto e depois de aprender tudo quanto tinha a aprender com os deuses que se tinham mantido fiéis a Osíris e Ísis, apresentou-se perante o Conselho dos Deuses e reclamou para si o trono do seu pai. Depois de várias peripécias em que tentou desacreditar Hórus, e não conseguindo convencer a assembleia, Seth saiu furioso gritando que somente pelas armas o assunto poderia ser resolvido. E assim foi, depois de várias e sangrentas batalhas aéreas, terrestres e marítimas, Seth foi derrotado. O Conselho dos Deuses deliberou então entregar todo o poder sobre o Egipto a Hórus e Seth recebeu um novo território a leste. Na Bíblia, Caim depois de ter assassinado Abel e ter caído em desgraça perante Deus é também enviado para terras do leste: “Caim saiu da presença de Javé, e habitou na terra de Nod, a leste do Éden”.
Como acontecera na Mesopotâmia, também no Egipto os deuses transmitiram aos homens as formas de adoração religiosa. Inicialmente, acredito que essa foi uma maneira dos deuses tentarem ensinar aos homens os mistérios da vida e do universo, mas também vejo nisso uma forma de dos deuses manterem o controlo sobre os destinos humanos. Através de rituais e sacrifícios, mantinham os humildes e ignorantes seres humanos sob a sua estrita observação e controlo. Tirando os ritos da natureza desenvolvidos um pouco por toda a Europa e os ritos xamânicos, estes também da natureza mas espalhados por todo o planeta, foi no Egipto que o sistema religioso atingiu a sua forma mais expressiva. No Egipto, pode-se dizer, nasceram as grandes religiões que têm controlado o mundo nos últimos milénios. Não sabemos até que ponto as ideias religiosas egípcias terão influenciando de forma decisiva as religiões do Oriente, nomeadamente da Índia e da China, mas acredito que, se procurarmos bem, somos capazes de encontrar pontos de ligação. Entretanto o judaísmo, o cristianismo e, mais tarde, o islamismo, tiveram a sua génese primordial no Egipto.
Inicialmente, no Egipto, a religião tomou a forma de “Mistérios”. Havia os “Mistérios de Osíris” e os “Mistérios de Ísis”, pois foram estes dois seres, pela sua história tornada mítica, que impregnaram a mente egípcia. Por outro lado, havia os “Mistérios Interiores”, só acessíveis a uma elite, e os “Mistérios Exteriores” de acesso público.
Para Timothy Freke e Peter Gandy, no seu livro extremamente bem documentado, “Os Mistérios de Jesus – seria o Jesus Original um Deus Pagão?”, na essência dos “Mistérios Interiores” estavam os mitos relativos a um deus-homem que morria e ressuscitava e que era conhecido por muitos nomes na região do Mediterrâneo oriental: era Osíris no Egipto, Dionísio na Grécia, Átis na Ásia Menor, Adónis na Síria, Baco em Itália, Mitra na Pérsia. O Cristianismo nasce assim destes “Mistérios”. Veja-se a relação entre os “Mistérios de Osíris” e a biografia de Jesus que nos foi transmitida nos Evangelhos:
• Osíris é Deus tornado carne, o salvador e “Filho de Deus”.
• O seu pai é Deus e sua mãe uma virgem mortal.
• Nasce numa gruta ou numa humilde manjedoura a 25 de Dezembro perante três pastores.
• Oferece aos seus seguidores a oportunidade de renascerem através dos ritos do baptismo.
• Transforma milagrosamente água em vinho numa cerimónia de casamento.
• Entra triunfalmente na cidade montado num burro enquanto as pessoas acenam com folhas de palmeira para o exaltar.
• Morre na Páscoa como sacrifício pelos pecados do mundo.
• Depois da sua morte desce ao inferno, depois do terceiro dia ressuscita e sobre ao céu em glória.
• Os seus seguidores aguardam o seu regresso como juiz dos Últimos Dias.
• A sua morte e ressurreição são celebradas numa refeição ritual de pão e vinho que simbolizam o seu corpo e o seu sangue.
Estes “Mistérios Interiores” não correspondem exactamente ao que se passava nas antigas Escolas de Mistérios egípcias. Na realidade chegaram até nós através dos movimentos gnósticos de Alexandria, portanto já complementados e modificados pelas crenças gnósticas. No entanto, sabendo-se que estes movimentos gnósticos já exerciam a sua actividade antes do cristianismo, pois conhecem-se grupos gnósticos que existiram uns bons 100 anos antes da nossa era, é espantosa a semelhança das suas crenças e do que transmitiam através de iniciações, com a história de Jesus que nos é contada nos Evangelhos.
O ponto que poderia tornar-se mais polémico é aquele que se refere à morte na Páscoa, uma vez que a Páscoa era uma festa judaica que celebrava o êxodo do Egipto do povo judeu liderado por Moisés. Embora a história de Moisés seja também polémica, que irá ser tema de uma destas crónicas dedicadas aos mistérios, esses grupos gnósticos eram essencialmente constituídos por judeus que viviam em Alexandria. Nada mais natural, assim, que eles tivesses acrescentado a questão da Páscoa.
No fascínio egípcio pelo mistério da alma da mulher, Ísis era a esposa leal, a amante, a mãe, a sedutora, a bruxa, a prostituta, a guia, a protectora, a enfermeira, a irmã, a companheira e sempre, acima de tudo, o poder leal ao lado do trono.
Ísis representava todas as formas de ligação, de amizade, de amor e de sexo criados entre as pessoas. Ela era a electricidade, a magia, a química desses laços e de todos os seus perigos.
No antigo Egipto havia muitas deusas, cada uma com a sua devoção especial. Na verdade, não eram deusas diferentes, eram manifestações diferentes de uma única deusa, Ísis. Era algo de semelhante com o que se passa no mundo católico, onde as várias virgens e Nossas Senhoras são aspectos diferentes de Maria, mãe de Jesus.
Maria, na tradição cristã, corresponde a uma pessoa que realmente existiu. Quanto a Ísis, há a tendência de se pensar que não era mais do que uma deusa criada pelo imaginário egípcio e, portanto, fazendo parte da mitologia. Mas essa é uma leitura fácil e pouco atenta pois, por detrás dos mitos esconde-se uma verdade que temos alguma dificuldade em aceitar. Essa verdade é a de que em épocas remotas, os deuses viveram na Terra juntamente com os homens. Isto é confirmado pela Bíblia (Génesis, 6.4). Desta forma Ísis não é apenas o fruto da fértil imaginação egípcia, deve ter sido alguém que existiu de facto, e que os homens consideraram tratar-se de uma deusa.
Os gregos identificavam Ísis com as suas próprias deusas, também aqui nas várias expressões da mesma divindade: como fornecedora do grão e protectora das colheitas, ela era Demeter; como deusa do amor, ela era Afrodite; como esposa do rei dos deuses, ela era Hecate, a deusa grega da magia, cujo nome derivava directamente do egípcio, onde “palavras mágicas” era “heka”; como protótipo da mulher humana, ela era Io, amada por Zeus e transformada numa vaca, que é a mesma deusa egípcia, uma das expressões de Ísis, Hathor.
Não sabemos como é que eram os egípcios antigos. Sabemos como são hoje, uma população predominantemente árabe, resultado de grandes migrações e guerras de conquista que ocorreram no Médio Oriente, mas que não tem nada a ver com a população egípcia do tempo dos faraós. Há quem lhes atribua a cor vermelha, algo semelhante aos índios da América do Norte, e há quem afirme que os antigos egípcios eram negros, ainda que as características negróides não sejam evidentes nas imagens que nos deixaram gravadas nos seus monumentos. No entanto, essas características negróides como, por exemplo, os lábios grossos, não são típicas de toda a raça negra. A rainha de Sabá, que terá seduzido Salomão com a sua extraordinária beleza, era, aparentemente, negra. São Bernardo, autor de muitos poemas e sermões, num dos seus poemas dedicados a Salomão e à rainha de Sabá, manifesta a sua grande devoção pela cor negra: “O, filhos de Jerusalém, sou negra, mas sou bela.”
Ísis é muitas vezes representada com a cor negra ou escura. O seu culto foi extremamente importante no Egipto antigo. Nos tempos de Ptolomeu (300 a. C.), a comunidade devotada a Ísis era chamada de Ecclesia, uma estrutura e organização adoptadas pela assembleia-geral grega e, através de Bizâncio e Alexandria, pela Igreja Cristã. No entanto, somente as formas exteriores foram preservadas. Perdeu-se o que de mais íntimo havia no culto da Senhora, como Ísis era chamada. O verdadeiro significado da Senhora foi enterrado debaixo das camadas patriarcais e dos dogmas da interpretação cristã. Isis era mostrada como mulher completa em todos os seus aspectos e estágios da vida. A sua feminilidade era estudada tão ao pormenor que as muitas das suas faces ou expressões eram personificadas em outras tantas divindades numa combinação de diferentes coroas e ornamentos da cabeça. Toda a expressão masculina tem uma contraparte feminina no reconhecimento da dualidade universal da natureza, mas os muitos aspectos de Ísis, identificados pelas coroas e vários atributos, representam as muitas faces do amor experimentado no mundo humano.
A questão de ser irmã e, ao mesmo tempo, esposa de Osíris, choca um pouco a nossa cultura ocidental de origem judaico-cristã, pois trata-se, efectivamente, de uma situação incestuosa. Mas esta questão tem algumas explicações que nos poderão ajudar a compreendê-la.
Os faraós, ainda que pudessem dispor de concubinas ou até de haréns com dezenas de mulheres, só podiam ter como esposa oficial uma sua irmã ou meia-irmã. Como a faraó se assumia como filho dos deuses, sendo ele próprio também um deus, só podia casar-se com quem tivesse a mesma origem divina, portanto uma sua irmã de sangue. A origem mais remota deste costume vamos encontrá-la na mitologia da Suméria, onde os deuses para poderem herdar o poder tinham que estar casados com irmãs ou meias-irmãs. Entre eles o incesto não era um assunto tabu, era antes recomendado.
Não sabemos qual a razão deste comportamento, talvez uma forma de evitar que os deuses e seus filhos se cruzassem com os seres humanos, o que, apesar de tudo e como confirma a Bíblia, não conseguiram evitar.
Os hábitos sexuais dos deuses chocam os nossos conceitos da cultura ocidental. O incesto era normal e recomendado, houve até um deus, o principal do panteão sumério, Anu, que teve relações sexuais com uma sua neta. O adultério era uma situação vulgar, tanto da parte masculina como da feminina. Nos templos dedicados a Ishtar praticava-se a chamada “prostituição sagrada”. Não se tratava propriamente de prostitutas que ali exerciam a sua profissão, eram mulheres mães de família que, para aumentarem os rendimentos da casa se prostituíam, com o conhecimento e apoio do marido. Ou então, raparigas que pretendiam casar e constituir família, prostituíam-se para conseguirem um dote.
Embora não haja referências de que estes costumes tenham sido levados para o Egipto, sabemos no entanto que a vida dos egípcios decorria com grande liberdade. O drama conhecido de Ísis e Osíris, em que este foi morto por Seth, tem origem nesses costumes.
Os deuses egípcios eram os mesmos da Suméria ou, pertenciam à mesma família. Os deuses sumérios eram doze e, de certa forma, dividiram a Terra entre eles. O chefe desses deuses chamava-se Anu, o qual tinha dois filhos, Enki e Enlil. Na divisão da Terra, coube a Enki o governo das terras que viemos a conhecer como Egipto. No Egipto, Enki tomou o nome de Ptah, e governou, segundo a crónica impressa nas tabuinhas de argila sumérias, durante 9.000 anos. Ptah passou o poder a seu filho RA, que na suméria se chamava Marduk. A RA sucedeu seu filho Shu, casado com sua irmã Tefnut. Segundo a tradição egípcia, foram estes deuses que estabeleceram o modelo adoptado pelos faraós: a esposa oficial do rei era a sua própria irmã. Shu e Tefnut cederam o governo a dois dos seus filhos, irmão e irmã, Geb e Nut.
Com os descendentes de Geb e Nut, tudo se complicou. Com os seus dois filhos casados com as próprias irmãs, Geb e Nut não tiveram outra solução senão dividir o reino entre eles: Asar (Osíris) e Ast (Ísis) ficaram com o Baixo Egipto, Seth e Néftis ficaram com o Alto Egipto. Isto foi uma grande complicação. Os deuses, tal como nos é descrito em toda a mitologia grega, sofriam das mesmas paixões que mais tarde os humanos vieram a receber por herança. Eram gananciosos, sedentos de poder, cometiam adultérios, incestos, eram ciumentos, etc. Assim, como nos conta Plutarco, historiador grego do 1º século da nossa era, Osíris era filho de Ra, numa relação que este manteve com sua neta Nut. Ísis era filha de Thot, que também se relacionara com Nut. Desta forma, Osíris, que era filho do grande deus Ra era o herdeiro principal. Mas pelas regras dos deuses, o herdeiro deveria ser Seth, pois ele e sua irmã e esposa Néftis, eram filhos legítimos de Geb.
Sabemos o que se seguiu. Set acabou por assassinar Osíris e tomar o poder sobre todo o Egipto para si. Para que Osíris não pudesse ser ressuscitado, separou o seu corpo em vários pedaços, 14 segundo uns, 42 segundo outros, e atirou-os ao Nilo. Ísis partiu em busca desses pedaços de Osíris e conseguiu reunir quase todos, menos um, o falo. Mas mesmo assim, por artes mágicas, conseguiu ser impregnada por Osíris e dar à luz o filho Hórus. Criado em segredo, Hórus ficou com a incumbência de, quando chegasse à idade adulta, vingar o pai.
Aparentemente, Osíris morrera sem deixar herdeiro. Seth tentou forçar Ísis a dar-lhe esse herdeiro, o que garantiria o poder no Egipto para a sua descendência. Mas Ísis, apesar de feita prisioneira por Seth, recusou-se e conseguiu fugir com a ajuda de Thot. Procurou o filho Hórus onde o deixara escondido e descobriu que ele agonizava devido à picada de um escorpião. Ela não tinha o poder de o curar e pediu a ajuda dos céus. Thot, senhor das artes mágicas e do conhecimento, desceu dos céus e curou o menino.
Quando Hórus se tornou adulto e depois de aprender tudo quanto tinha a aprender com os deuses que se tinham mantido fiéis a Osíris e Ísis, apresentou-se perante o Conselho dos Deuses e reclamou para si o trono do seu pai. Depois de várias peripécias em que tentou desacreditar Hórus, e não conseguindo convencer a assembleia, Seth saiu furioso gritando que somente pelas armas o assunto poderia ser resolvido. E assim foi, depois de várias e sangrentas batalhas aéreas, terrestres e marítimas, Seth foi derrotado. O Conselho dos Deuses deliberou então entregar todo o poder sobre o Egipto a Hórus e Seth recebeu um novo território a leste. Na Bíblia, Caim depois de ter assassinado Abel e ter caído em desgraça perante Deus é também enviado para terras do leste: “Caim saiu da presença de Javé, e habitou na terra de Nod, a leste do Éden”.
Como acontecera na Mesopotâmia, também no Egipto os deuses transmitiram aos homens as formas de adoração religiosa. Inicialmente, acredito que essa foi uma maneira dos deuses tentarem ensinar aos homens os mistérios da vida e do universo, mas também vejo nisso uma forma de dos deuses manterem o controlo sobre os destinos humanos. Através de rituais e sacrifícios, mantinham os humildes e ignorantes seres humanos sob a sua estrita observação e controlo. Tirando os ritos da natureza desenvolvidos um pouco por toda a Europa e os ritos xamânicos, estes também da natureza mas espalhados por todo o planeta, foi no Egipto que o sistema religioso atingiu a sua forma mais expressiva. No Egipto, pode-se dizer, nasceram as grandes religiões que têm controlado o mundo nos últimos milénios. Não sabemos até que ponto as ideias religiosas egípcias terão influenciando de forma decisiva as religiões do Oriente, nomeadamente da Índia e da China, mas acredito que, se procurarmos bem, somos capazes de encontrar pontos de ligação. Entretanto o judaísmo, o cristianismo e, mais tarde, o islamismo, tiveram a sua génese primordial no Egipto.
Inicialmente, no Egipto, a religião tomou a forma de “Mistérios”. Havia os “Mistérios de Osíris” e os “Mistérios de Ísis”, pois foram estes dois seres, pela sua história tornada mítica, que impregnaram a mente egípcia. Por outro lado, havia os “Mistérios Interiores”, só acessíveis a uma elite, e os “Mistérios Exteriores” de acesso público.
Para Timothy Freke e Peter Gandy, no seu livro extremamente bem documentado, “Os Mistérios de Jesus – seria o Jesus Original um Deus Pagão?”, na essência dos “Mistérios Interiores” estavam os mitos relativos a um deus-homem que morria e ressuscitava e que era conhecido por muitos nomes na região do Mediterrâneo oriental: era Osíris no Egipto, Dionísio na Grécia, Átis na Ásia Menor, Adónis na Síria, Baco em Itália, Mitra na Pérsia. O Cristianismo nasce assim destes “Mistérios”. Veja-se a relação entre os “Mistérios de Osíris” e a biografia de Jesus que nos foi transmitida nos Evangelhos:
• Osíris é Deus tornado carne, o salvador e “Filho de Deus”.
• O seu pai é Deus e sua mãe uma virgem mortal.
• Nasce numa gruta ou numa humilde manjedoura a 25 de Dezembro perante três pastores.
• Oferece aos seus seguidores a oportunidade de renascerem através dos ritos do baptismo.
• Transforma milagrosamente água em vinho numa cerimónia de casamento.
• Entra triunfalmente na cidade montado num burro enquanto as pessoas acenam com folhas de palmeira para o exaltar.
• Morre na Páscoa como sacrifício pelos pecados do mundo.
• Depois da sua morte desce ao inferno, depois do terceiro dia ressuscita e sobre ao céu em glória.
• Os seus seguidores aguardam o seu regresso como juiz dos Últimos Dias.
• A sua morte e ressurreição são celebradas numa refeição ritual de pão e vinho que simbolizam o seu corpo e o seu sangue.
Estes “Mistérios Interiores” não correspondem exactamente ao que se passava nas antigas Escolas de Mistérios egípcias. Na realidade chegaram até nós através dos movimentos gnósticos de Alexandria, portanto já complementados e modificados pelas crenças gnósticas. No entanto, sabendo-se que estes movimentos gnósticos já exerciam a sua actividade antes do cristianismo, pois conhecem-se grupos gnósticos que existiram uns bons 100 anos antes da nossa era, é espantosa a semelhança das suas crenças e do que transmitiam através de iniciações, com a história de Jesus que nos é contada nos Evangelhos.
O ponto que poderia tornar-se mais polémico é aquele que se refere à morte na Páscoa, uma vez que a Páscoa era uma festa judaica que celebrava o êxodo do Egipto do povo judeu liderado por Moisés. Embora a história de Moisés seja também polémica, que irá ser tema de uma destas crónicas dedicadas aos mistérios, esses grupos gnósticos eram essencialmente constituídos por judeus que viviam em Alexandria. Nada mais natural, assim, que eles tivesses acrescentado a questão da Páscoa.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
No Reino dos Equívocos
Para todos os que estão ao par da palhaçada que se tem passado nos últimos dias com o Portugalclub, eis mais um texto que escrevi há dois dias, 23 de Abril de 2007, e que o Sr. Casimiro Rodrigues resolveu não divulgar.
Este é mais um dos muitos que não foi divulgado, embora o Sr. Casimiro Rodrigues minta dizendo que publica tudo quanto recebe.
NO REINO DOS EQUÍVOCOS
Por: Manuel O. Pina
De repente, domingo à tarde, recebe-se uma mensagem informando o fim do Portugalclub. Dizia que o Portugalclub tinha perdido a razão de existir. Depois informava algumas razões de tão dramática acção. Acusava o Procurador Geral da República de que não encontrava indícios da farsa do diploma do Sócrates e das negociações entre Sócrates e a Uni. Que o Partido Socialista, apelidado de "Largo dos Ratos" negociava a venda de Portugal à Espanha. Que o Presidente da República, Cavaco Silva era só sorrisos e ninguém entendia a sua felicidade. Acrescentava ainda que não valia a pena manter os cidadãos informados, que não valia a pena toda a recolha de informação e divulgação para esclarecer a verdade.
Primeiro equívoco: pelo que li na Estatuto do Portugalclub, não se consegue ver onde é que perdeu a razão de existir. Se o Portugalclub foi criado para manter os cidadãos portugueses informados, vivam eles onde viverem, não se vê como é que as razões apontadas podem justificar a sua não existência.
Segundo equívoco: O Portugalclub é um órgão de comunicação e divulgação de informações. Está no mesmo patamar que um jornal, uma rádio ou um canal de televisão. Os órgãos de informação não têm poder político para forçar qualquer acção política. A única coisa que podem fazer é denunciar as situações que lhe parecem irregulares, nada mais do que isso. Um órgão de informação procura esclarecer a verdade, mas não é dono da verdade.
Depois, na segunda-feira recebe-se outra mensagem dizendo que afinal o Portugalclub não acabou pelos motivos expostos, suponho que se referia à primeira mensagem. Diz que não foi por causa do Sr. Potêncio (?) nem do Sr. Gabriel (?). Os pontos de interrogação querem dizer que estes senhores não foram referidos na primeira mensagem. Afinal parece que foi por culpa de várias personalidades oficiais, no caso o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. Que instituíu um concurso denominado "Talentos 2006", mas cujo resultado não saiu até agora, porquê? Porque de acordo com um INFORMADOR dentro da SECP o Sr Casimiro Rodrigues teria ganho por 147 indicações em 167 possíveis. Não se percebe como é que 12 jurados seleccionam 12 vitoriosos e o resultado é aquele. Trata-se da multiplicação dos pães e dos peixes? Depois diz que a eleição do extinto CCP era para ser no último domingo de Março. Se o CCP foi extinto, como é que há eleição? Refere ainda o ÚLTIMO, que não se sabe quem é, que se pavoneia com dr. e eng. falsos e não vai ser preso. Termina de forma bombástica decretando luto pesado no dia 25 de triste lembrança.
Terceiro equívoco: Nesta segunda mensagem continua a pretensão de forçar soluções, como no caso do CCP ou de se prender um senhor chamado ÚLTIMO. A função de um órgão de comunicação ou informação não é essa.
Quarto equívoco: Parece que, afinal, os interesses pessoais do Sr. Casimiro Rodrigues se sobrepôem à função para que o Portugalclub foi criado. Como aparentemente a sua eleição não terá sido aceite pelo SECP, de acordo com um determinado INFORMADOR, então a solução é encerrar o Portugalclub.
Comentários finais: O Sr. Casimiro Rodrigues, que aparentemente é o dono do Portugalclub, tem todo o direito de o fechar se assim o entender. É um mau serviço que presta aos cidadãos portugueses espalhados pelo mundo, os quais viam no Portugalclub um meio de se manifestarem publicamente. O Portugalclub, que diz no seu Estatuto ser apartidário, pelo que eu vi ao longo do tempo em que nele participei, nunca foi apartidário. Defendeu sempre o Estado Novo, o Salazar, e foi sempre contra os partidos legalmente instituídos na actual democracia portuguesa. O próprio Presidente, o Sr. Casimiro Rodrigues, manifestou-se sempre de uma forma reaccionária, retrógrada e antidemocrática. Basta ver a parte final da sua segunda mensagem, ao pretender decretar luto pesado no dia 25 de Abril, que eu acho, sinceramente, uma vergonha e um anátema contra a nação portuguesa, cuja esmagadora maioria não comunga das suas ideias. É absolutamente inaceitável que o presidente de um órgão de comunicação e informação como é o Portugalclub, saia com uma proposta destas. Se era para continuar assim, com propostas desta natureza, então é melhor que acabe e feche. Ele gostaria muito que fosse o governo a mandar fechar o Portal devido ao teor da informação que por ele circula, aos insultos e às difamações. Mas não, o governo é um governo democrático e não age como antigamente, deixa os parvos serem parvos à vontade pois no final, são eles mesmo que vão ter que lidar com a própria parvoíce.
Acreditei que a minha participação pudesse trazer algum equilíbrio ao que circulava e era divulgado no Portugalclub. Engano meu, não vale a pena lutar contra moínhos de vento. Nunca pertenci nem pertenço a nenhum partido político, mas tenho da democracia a noção de que é o sistema que melhor pode servir os povos na nossa actual civilização, embora não seja um sistema perfeito e continue eivado de defeitos graves. É, quando muito, o sistema menos mau. Os problemas porque o país atravessa têm que ser solucionados dentro da democracia e não fora dela. A função de um órgao de informação ou comunicação, ainda que seja via Internet, é o de denunciar problemas e situações e propondo soluções exequíveis, e não aquelas que o delírio de alguns tem aqui apresentado.
Cumprimentos
Manuel O. Pina
Este é mais um dos muitos que não foi divulgado, embora o Sr. Casimiro Rodrigues minta dizendo que publica tudo quanto recebe.
NO REINO DOS EQUÍVOCOS
Por: Manuel O. Pina
De repente, domingo à tarde, recebe-se uma mensagem informando o fim do Portugalclub. Dizia que o Portugalclub tinha perdido a razão de existir. Depois informava algumas razões de tão dramática acção. Acusava o Procurador Geral da República de que não encontrava indícios da farsa do diploma do Sócrates e das negociações entre Sócrates e a Uni. Que o Partido Socialista, apelidado de "Largo dos Ratos" negociava a venda de Portugal à Espanha. Que o Presidente da República, Cavaco Silva era só sorrisos e ninguém entendia a sua felicidade. Acrescentava ainda que não valia a pena manter os cidadãos informados, que não valia a pena toda a recolha de informação e divulgação para esclarecer a verdade.
Primeiro equívoco: pelo que li na Estatuto do Portugalclub, não se consegue ver onde é que perdeu a razão de existir. Se o Portugalclub foi criado para manter os cidadãos portugueses informados, vivam eles onde viverem, não se vê como é que as razões apontadas podem justificar a sua não existência.
Segundo equívoco: O Portugalclub é um órgão de comunicação e divulgação de informações. Está no mesmo patamar que um jornal, uma rádio ou um canal de televisão. Os órgãos de informação não têm poder político para forçar qualquer acção política. A única coisa que podem fazer é denunciar as situações que lhe parecem irregulares, nada mais do que isso. Um órgão de informação procura esclarecer a verdade, mas não é dono da verdade.
Depois, na segunda-feira recebe-se outra mensagem dizendo que afinal o Portugalclub não acabou pelos motivos expostos, suponho que se referia à primeira mensagem. Diz que não foi por causa do Sr. Potêncio (?) nem do Sr. Gabriel (?). Os pontos de interrogação querem dizer que estes senhores não foram referidos na primeira mensagem. Afinal parece que foi por culpa de várias personalidades oficiais, no caso o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. Que instituíu um concurso denominado "Talentos 2006", mas cujo resultado não saiu até agora, porquê? Porque de acordo com um INFORMADOR dentro da SECP o Sr Casimiro Rodrigues teria ganho por 147 indicações em 167 possíveis. Não se percebe como é que 12 jurados seleccionam 12 vitoriosos e o resultado é aquele. Trata-se da multiplicação dos pães e dos peixes? Depois diz que a eleição do extinto CCP era para ser no último domingo de Março. Se o CCP foi extinto, como é que há eleição? Refere ainda o ÚLTIMO, que não se sabe quem é, que se pavoneia com dr. e eng. falsos e não vai ser preso. Termina de forma bombástica decretando luto pesado no dia 25 de triste lembrança.
Terceiro equívoco: Nesta segunda mensagem continua a pretensão de forçar soluções, como no caso do CCP ou de se prender um senhor chamado ÚLTIMO. A função de um órgão de comunicação ou informação não é essa.
Quarto equívoco: Parece que, afinal, os interesses pessoais do Sr. Casimiro Rodrigues se sobrepôem à função para que o Portugalclub foi criado. Como aparentemente a sua eleição não terá sido aceite pelo SECP, de acordo com um determinado INFORMADOR, então a solução é encerrar o Portugalclub.
Comentários finais: O Sr. Casimiro Rodrigues, que aparentemente é o dono do Portugalclub, tem todo o direito de o fechar se assim o entender. É um mau serviço que presta aos cidadãos portugueses espalhados pelo mundo, os quais viam no Portugalclub um meio de se manifestarem publicamente. O Portugalclub, que diz no seu Estatuto ser apartidário, pelo que eu vi ao longo do tempo em que nele participei, nunca foi apartidário. Defendeu sempre o Estado Novo, o Salazar, e foi sempre contra os partidos legalmente instituídos na actual democracia portuguesa. O próprio Presidente, o Sr. Casimiro Rodrigues, manifestou-se sempre de uma forma reaccionária, retrógrada e antidemocrática. Basta ver a parte final da sua segunda mensagem, ao pretender decretar luto pesado no dia 25 de Abril, que eu acho, sinceramente, uma vergonha e um anátema contra a nação portuguesa, cuja esmagadora maioria não comunga das suas ideias. É absolutamente inaceitável que o presidente de um órgão de comunicação e informação como é o Portugalclub, saia com uma proposta destas. Se era para continuar assim, com propostas desta natureza, então é melhor que acabe e feche. Ele gostaria muito que fosse o governo a mandar fechar o Portal devido ao teor da informação que por ele circula, aos insultos e às difamações. Mas não, o governo é um governo democrático e não age como antigamente, deixa os parvos serem parvos à vontade pois no final, são eles mesmo que vão ter que lidar com a própria parvoíce.
Acreditei que a minha participação pudesse trazer algum equilíbrio ao que circulava e era divulgado no Portugalclub. Engano meu, não vale a pena lutar contra moínhos de vento. Nunca pertenci nem pertenço a nenhum partido político, mas tenho da democracia a noção de que é o sistema que melhor pode servir os povos na nossa actual civilização, embora não seja um sistema perfeito e continue eivado de defeitos graves. É, quando muito, o sistema menos mau. Os problemas porque o país atravessa têm que ser solucionados dentro da democracia e não fora dela. A função de um órgao de informação ou comunicação, ainda que seja via Internet, é o de denunciar problemas e situações e propondo soluções exequíveis, e não aquelas que o delírio de alguns tem aqui apresentado.
Cumprimentos
Manuel O. Pina
sábado, 21 de abril de 2007
MISTÉRIOS
I – O Caminho de Santiago
Já todos, geralmente, ouvimos valar do Caminho de Santiago, que se tornou ainda mais conhecido do grande público depois da publicação da obra de Paulo Coelho “O Diário de um Mago”. Muitos já fizeram o Caminho, uns a pé, que é como deve ser feito, outros de bicicleta, alguns de motocicleta e, os que não dispensaram a menor comodidade fizeram-no de carro. O uso dos vários meios de transporte significa apenas que as pessoas não têm a menor noção, ou têm um noção adulterada pelos valores actuais, do significado do Caminho e do que ele pode acrescentar às suas vidas perdidas no mundo do consumismo actual. Houve até uma famosa actriz americana que fez o Caminho a pé mas, seguida de perto por um pequeno autocarro provido de todas as comodidades, banho quente, cama relaxante e mesmo um massagista particular. Ao fim de cada jornada recolhia-se ao autocarro, banhava-se, relaxava e o massagista encarregava-se de a aliviar de todas as dores e de a preparar para o próximo dia de caminhada.
Não sei quantas vezes, ao longo dos anos, fui a Santiago. Foram tantas que lhes perdi a conta. Mas nunca fiz o Caminho, nem a pé nem de outra maneira qualquer. Conheço parte do Caminho por ter lá passado de carro, mas nunca o fiz verdadeiramente. Nunca senti necessidade de o fazer.
Hoje o Caminho está demasiadamente vulgarizado e transformou-se, praticamente, numa atracção turística. Quem visita hoje a Catedral de Santiago de Compostela vê apenas turistas, raramente consegue encontrar um peregrino, alguém que tenha caminhado penosamente ao longo dos dias e tenha chegado, finalmente, ao seu destino final, coberto de poeira, os pés inchados e feridos, uma luz diferente no olhar. Mas vamos à história do Caminho e dos seus mistérios, que é esse o tema desta crónica.
Segundo a lenda divulgada acerca do Caminho, São Tiago o Maior, discípulo de Jesus, teria vindo para a Península Ibérica em missão de evangelização. Devido ao seu carácter irascível tinha dificuldade em arregimentar seguidores, por isso andava apenas acompanhado por poucos discípulos e por um cão. Enquanto caminhava pregando a nova religião entre os gentios, apoiava-se num cajado. Não se sabe bem como, terá morrido algures e o seu corpo aparecido numa das numerosas rias próximas de Compostela, coberto de vieiras. O seu corpo teria sido transportado para o alto de um monte próximo e ali sido enterrado. Esta é a lenda que justifica para a Igreja a existência do Caminho mas, para além da lenda esconde-se a verdadeira história.
Primeiro que tudo, São Tiago o Maior nunca esteve na Península Ibérica e, muito menos na Galiza. Nunca saiu de Jerusalém, onde acabou por ser decapitado. O corpo que terá aparecido na ria coberto de vieiras não era o dele. Confrontados com este facto, logo os promotores da lenda, para reforçarem a ideia de que se tratava mesmo do corpo de São Tiago, inventaram uma história fantasiosa, Segundo eles, depois da morte de São Tiago em Jerusalém, o seu corpo teria sido colocado numa barca que, à deriva através de Mediterrâneo e do Atlântico, teria ido encalhar naquela ria. Ninguém explica onde estava a barca quando encontraram o corpo, nem como é que o corpo tinha saído da barca. É claro que esta história é uma fantasia, pois ninguém acredita, mesmo por milagre, que uma barca colocada na água na costa da antiga Palestina pudesse, à deriva, ir parar à Galiza.
Mas se não era o corpo dele que apareceu naquela ria, de quem era? E havia mesmo um corpo, que foi encontrado coberto de vieiras?
No século IV surgiu um movimento gnóstico cristão que marcou de forma indelével a religiosidade dos povos da Galiza e da Lusitânia. A este movimento chamou-se “priscilianismo. Este movimento está na base do cristianismo português que mais tarde os Templários, a Ordem de Cister, a rainha Stª Isabel, os frades franciscanos e a Ordem de Cristo modelaram.
Aquele que deu o nome ao movimento, Prisciliano, era um galego rico, instruído e de estirpe nobre. Aparentemente viajou pelo Egipto e pela Síria onde se terá iniciado nas doutrinas gnósticas. Ao chegar ao território que mais tarde veio a ser Portugal, encontrou já um grupo de gnósticos liderado por um Mestre Marcos. O priscilianismo, logo catalogado de heresia pela Igreja de Roma, teve forte implantação no território e durou até à fundação de Portugal.
O priscilianismo era uma Confraria formada por uma elite muito culta e que, paradoxalmente, teve também forte adesão popular. Praticavam o ideal da fraternidade humana, tinham reuniões nocturnas e secretas e o seu ensinamento era iniciático, razão pela qual o voto de silêncio era total. A Confraria era formada por homens e mulheres, estando estas em total igualdade com aqueles, tendo muitas um papel activo nas liturgias, como era norma entre os movimentos gnósticos. Defendiam o livre exame e a investigação individual das escrituras e adoptaram muitos dos Evangelhos apócrifos.
Este movimento foi considerado herético pela Igreja de Roma, que não podia permitir que a sua doutrina prosperasse, pois já suscitara a atenção de gente tão importante como Sto. Agostinho. Prisciliano acabou por ser assassinado legalmente pela Igreja de Roma, em nome de Deus e do cristianismo.
Todos sabemos como é que a Igreja combateu o que considerava serem heresias. Na altura do priscilianismo a Inquisição ainda não fora criada, mas esta não fez mais do que aplicar, de forma sistemática, os processos que a Igreja sempre seguiu. E não haja ilusões, se hoje mantivesse o poder temporal que teve durante séculos, os processos seriam os mesmos. Apesar da mudança de discurso, a fim de manter o rebanho de fiéis a todo o custo, a Igreja mantém-se, em essência, igual ao que sempre foi, extremamente conservadora e dogmática. Como exemplo temos o último Papa, João Paulo II, uma figura de um conservadorismo militante. O actual Papa, Bento XVI, era o chefe da tristemente célebre Inquisição, hoje com o nome alterado para Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. E se ainda subsistirem dúvidas sobre a postura da Igreja do nosso tempo, basta dizer que, em pleno século XX foi elevado à santidade o cruel inquisidor de Saragoça, Pedro Arbués, assassinado pelos cidadãos daquela cidade de Aragão, numa das poucas rebeliões contra o poder discricionário da Inquisição na Espanha dos reis católicos, Isabel e Fernando.
Portanto, Prisciliano foi assassinado pela Igreja e terá sido o seu corpo que apareceu próximo de Compostela, coberto de vieiras. Mas era preciso ocultar aquela dramática ocorrência. Isto ficou a cargo, entre outros, dos frades de Cluny, principais responsáveis pela cristianização do Caminho, construindo inúmeras igrejas e capelas ao longo da sua rota. Foram eles que inventaram a lenda de Santiago, tal como é contada dentro do cristianismo.
À semelhança do que, mais tarde, os muçulmanos fizeram, a Igreja criou três lugares sagrados de peregrinação. Os muçulmanos têm Meca, Medina e Jerusalém como destinos sagrados dos seus peregrinos. A Igreja tinha, e ainda tem, Santiago, Roma e Jerusalém. No entanto, há algo muito importante que diferencia Santiago dos outros dois: o Caminho já existia antes da chegada do cristianismo. Mas antes de falarmos na antiguidade do Caminho, vamos contemplar um pouco mais a lenda cristã de Santiago de Compostela.
Quando se diz que São Tiago era acompanhado por um cão e por uns poucos discípulos, dando o seu carácter irascível como justificação para tão poucos seguidores, na verdade trata-se da adaptação de uma questão astronómica. O Caminho tradicional faz-se de oriente para ocidente, mais ou menos ao longo do paralelo 42 do Hemisfério Norte. Os caminhantes tinham sobre si o esplendor da Via Láctea, pelo que também se chama ao Caminho, o Caminho das Estrelas. Como guia e referência no horizonte tinham a Constelação de Cão Maior, na qual resplandece a estrela mais brilhante do nosso firmamento, Sírius.
Sírius é uma estrela com profundas referências esotéricas e místicas. Era especialmente venerada no Egipto antigo. Nada melhor do que aproveitar essa antiga tradição e transformá-la na lenda de Santiago. Assim, o cão que o acompanhava não era mais do que a Constelação de Cão Maior, e os poucos discípulos, as poucas estrelas que compõem, juntamente com Sírius, essa Constelação, três a cinco, consoante as fontes.
Isto tudo não quer dizer que o Caminho de Santiago seja apenas uma mistificação, uma lenda inventada pela Igreja para atrair os peregrinos. Sendo o Caminho bem mais antigo do que a existência da própria Igreja, esta, de certa forma e apesar das adaptações, herdou muito do misticismo e esoterismo que fazem o Caminho ser tão especial.
Inicialmente o Caminho era uma via puramente iniciática. Ali, o viajante se encontrava absolutamente só em todos os aspectos: só perante a imensidão do universo, com a Via Láctea pejada de estrelas sobre a sua cabeça; só perante os obstáculos que tinha de ultrapassar e os perigos que tinha de enfrentar; só em contacto com a natureza e os seres dessa mesma natureza; só perante o grande mistério da Criação; só, completamente só, perante a sua própria consciência. Afinal, o grande aprendizado do Caminho era o de que o homem, só por si e contando apenas com os seus recursos, era capaz de superar qualquer obstáculo e enfrentar qualquer desafio. Mas o mais importante era o de que, estando completamente só, se sentia, como que por magia, uno com tudo ao seu redor, uma incrível sensação de fazer parte do todo.
Fosse pelo tremendo sacrifício de caminhar centenas de quilómetros, ou pela sensação, por um lado esmagadora, por outro altamente vitalizante, de se encontrar só e ser uno com tudo, havia realmente uma ampliação da consciência. Ao fim de cada jornada diária processavam-se mudanças interiores imperceptíveis que, no final da grande caminhada, no lugar em que a terra terminava, o ser aí chegado não era o mesmo que tinha iniciado a viagem nas alturas dos Pirinéus. Nenhuma experiência era igual a outra, nenhum caminhante experimentava as mesmas coisas, cada um era a sua própria história, diferente de todas as outras, mas no final, a sensação de se ter superado a si próprio era semelhante.
Primordialmente o Caminho aponta-nos outros motivos que podem preencher o nosso imaginário e levar-nos a cenas de uma grande antiguidade. As lendas não são puras criações humanas, baseadas apenas na imaginação. Elas assentam em factos acontecidos e depois, transmitidas oralmente de geração em geração, ao longo de milénios, acabam por perder a sua verdade original, transformando-se em mitos que consideramos, geralmente, frutos da imaginação humana. Segundo a lenda mais arcaica, O Caminho existe há mais de doze mil anos. Era percorrido por caminhantes que iam em busca de conhecimento, que lhes era transmitido por seres vindos de além Atlântico, e que eles consideravam deuses. Esta lenda está patente em muitas tradições ancestrais. No antigo Egipto aquele ocidente remoto era a terra de “Amenti”, para a qual viajavam os mortos para se reunirem aos seus antepassados.
Esses seres vindos de além Atlântico não podiam ser outros do que os sobreviventes da antiga Atlântida. Teriam ensinado àqueles que os procuravam, vários rudimentos civilizacionais e ideias sobre as relações com as forças divinas. Digo forças divinas porque na antiga Atlântida não havia o conceito de Deus como é hoje considerado, o qual pode ser uma deturpação desses antigos ensinamentos.
Várias histórias compõem esta lenda antiga, como por exemplo, a cidade de Noya teria sido o lugar onde Noé desembarcou da sua arca.
Inúmeros sinais gravados em pedra e encontrados ao longo de toda a costa galega têm desafiado as eras e as tentativas de decifração. São sinais com mensagens herméticas que o caminhante deve procurar entender. Dentre todos há dois grupos de sinais que requerem uma atenção especial: sinais de morte e ressurreição, significando que o caminhante terá que morrer simbolicamente para ressuscitar numa nova vida; sinais de identificação dos opostos, a partir dos quais se terão constituído outras lendas, como a de Castor e Polux, Caim e Abel, Rómulo e Remo, etc., numa chamada de atenção de que somente por uma percepção incorrecta os mesmos poderiam ser contrários e distintos.
De acordo com Juan G. Atienza, no seu livro “La Ruta Sagrada”, as transformações que o Caminho nos apresenta podem resumir-se na seguinte estrutura:
“a) – O Caminho constitui um itinerário sagrado em direcção a mitos que nos dão conta de um arcaico centro do mundo, onde se encontravam supostamente implantadas chaves fundamentais do conhecimento transcendente.
b) – O Caminho foi concebido como uma via dolorosa que servirá em primeira instância para reforçar a vontade de saber do peregrino, pondo à prova a sua capacidade de superar os sofrimentos e propiciando a sua vitória sobre os seus próprios condicionamentos físicos, mentais e espirituais.”
O Caminho é assim, mau grado a exploração comercial e turística da actualidade, uma via de expiação e iniciação. Transformado numa via dolorosa cristã, não perdeu contudo o seu objectivo primordial iniciático, o de abrir portas insuspeitas para todo aquele que busca as chaves de um conhecimento ancestral, talvez legado pelos deuses vindos de além-mar, de uma terra também mítica chamada Atlântida.
(Escrito in memoriam de António Fonseca Matos, aos 13 de Abril de 2007)
Já todos, geralmente, ouvimos valar do Caminho de Santiago, que se tornou ainda mais conhecido do grande público depois da publicação da obra de Paulo Coelho “O Diário de um Mago”. Muitos já fizeram o Caminho, uns a pé, que é como deve ser feito, outros de bicicleta, alguns de motocicleta e, os que não dispensaram a menor comodidade fizeram-no de carro. O uso dos vários meios de transporte significa apenas que as pessoas não têm a menor noção, ou têm um noção adulterada pelos valores actuais, do significado do Caminho e do que ele pode acrescentar às suas vidas perdidas no mundo do consumismo actual. Houve até uma famosa actriz americana que fez o Caminho a pé mas, seguida de perto por um pequeno autocarro provido de todas as comodidades, banho quente, cama relaxante e mesmo um massagista particular. Ao fim de cada jornada recolhia-se ao autocarro, banhava-se, relaxava e o massagista encarregava-se de a aliviar de todas as dores e de a preparar para o próximo dia de caminhada.
Não sei quantas vezes, ao longo dos anos, fui a Santiago. Foram tantas que lhes perdi a conta. Mas nunca fiz o Caminho, nem a pé nem de outra maneira qualquer. Conheço parte do Caminho por ter lá passado de carro, mas nunca o fiz verdadeiramente. Nunca senti necessidade de o fazer.
Hoje o Caminho está demasiadamente vulgarizado e transformou-se, praticamente, numa atracção turística. Quem visita hoje a Catedral de Santiago de Compostela vê apenas turistas, raramente consegue encontrar um peregrino, alguém que tenha caminhado penosamente ao longo dos dias e tenha chegado, finalmente, ao seu destino final, coberto de poeira, os pés inchados e feridos, uma luz diferente no olhar. Mas vamos à história do Caminho e dos seus mistérios, que é esse o tema desta crónica.
Segundo a lenda divulgada acerca do Caminho, São Tiago o Maior, discípulo de Jesus, teria vindo para a Península Ibérica em missão de evangelização. Devido ao seu carácter irascível tinha dificuldade em arregimentar seguidores, por isso andava apenas acompanhado por poucos discípulos e por um cão. Enquanto caminhava pregando a nova religião entre os gentios, apoiava-se num cajado. Não se sabe bem como, terá morrido algures e o seu corpo aparecido numa das numerosas rias próximas de Compostela, coberto de vieiras. O seu corpo teria sido transportado para o alto de um monte próximo e ali sido enterrado. Esta é a lenda que justifica para a Igreja a existência do Caminho mas, para além da lenda esconde-se a verdadeira história.
Primeiro que tudo, São Tiago o Maior nunca esteve na Península Ibérica e, muito menos na Galiza. Nunca saiu de Jerusalém, onde acabou por ser decapitado. O corpo que terá aparecido na ria coberto de vieiras não era o dele. Confrontados com este facto, logo os promotores da lenda, para reforçarem a ideia de que se tratava mesmo do corpo de São Tiago, inventaram uma história fantasiosa, Segundo eles, depois da morte de São Tiago em Jerusalém, o seu corpo teria sido colocado numa barca que, à deriva através de Mediterrâneo e do Atlântico, teria ido encalhar naquela ria. Ninguém explica onde estava a barca quando encontraram o corpo, nem como é que o corpo tinha saído da barca. É claro que esta história é uma fantasia, pois ninguém acredita, mesmo por milagre, que uma barca colocada na água na costa da antiga Palestina pudesse, à deriva, ir parar à Galiza.
Mas se não era o corpo dele que apareceu naquela ria, de quem era? E havia mesmo um corpo, que foi encontrado coberto de vieiras?
No século IV surgiu um movimento gnóstico cristão que marcou de forma indelével a religiosidade dos povos da Galiza e da Lusitânia. A este movimento chamou-se “priscilianismo. Este movimento está na base do cristianismo português que mais tarde os Templários, a Ordem de Cister, a rainha Stª Isabel, os frades franciscanos e a Ordem de Cristo modelaram.
Aquele que deu o nome ao movimento, Prisciliano, era um galego rico, instruído e de estirpe nobre. Aparentemente viajou pelo Egipto e pela Síria onde se terá iniciado nas doutrinas gnósticas. Ao chegar ao território que mais tarde veio a ser Portugal, encontrou já um grupo de gnósticos liderado por um Mestre Marcos. O priscilianismo, logo catalogado de heresia pela Igreja de Roma, teve forte implantação no território e durou até à fundação de Portugal.
O priscilianismo era uma Confraria formada por uma elite muito culta e que, paradoxalmente, teve também forte adesão popular. Praticavam o ideal da fraternidade humana, tinham reuniões nocturnas e secretas e o seu ensinamento era iniciático, razão pela qual o voto de silêncio era total. A Confraria era formada por homens e mulheres, estando estas em total igualdade com aqueles, tendo muitas um papel activo nas liturgias, como era norma entre os movimentos gnósticos. Defendiam o livre exame e a investigação individual das escrituras e adoptaram muitos dos Evangelhos apócrifos.
Este movimento foi considerado herético pela Igreja de Roma, que não podia permitir que a sua doutrina prosperasse, pois já suscitara a atenção de gente tão importante como Sto. Agostinho. Prisciliano acabou por ser assassinado legalmente pela Igreja de Roma, em nome de Deus e do cristianismo.
Todos sabemos como é que a Igreja combateu o que considerava serem heresias. Na altura do priscilianismo a Inquisição ainda não fora criada, mas esta não fez mais do que aplicar, de forma sistemática, os processos que a Igreja sempre seguiu. E não haja ilusões, se hoje mantivesse o poder temporal que teve durante séculos, os processos seriam os mesmos. Apesar da mudança de discurso, a fim de manter o rebanho de fiéis a todo o custo, a Igreja mantém-se, em essência, igual ao que sempre foi, extremamente conservadora e dogmática. Como exemplo temos o último Papa, João Paulo II, uma figura de um conservadorismo militante. O actual Papa, Bento XVI, era o chefe da tristemente célebre Inquisição, hoje com o nome alterado para Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. E se ainda subsistirem dúvidas sobre a postura da Igreja do nosso tempo, basta dizer que, em pleno século XX foi elevado à santidade o cruel inquisidor de Saragoça, Pedro Arbués, assassinado pelos cidadãos daquela cidade de Aragão, numa das poucas rebeliões contra o poder discricionário da Inquisição na Espanha dos reis católicos, Isabel e Fernando.
Portanto, Prisciliano foi assassinado pela Igreja e terá sido o seu corpo que apareceu próximo de Compostela, coberto de vieiras. Mas era preciso ocultar aquela dramática ocorrência. Isto ficou a cargo, entre outros, dos frades de Cluny, principais responsáveis pela cristianização do Caminho, construindo inúmeras igrejas e capelas ao longo da sua rota. Foram eles que inventaram a lenda de Santiago, tal como é contada dentro do cristianismo.
À semelhança do que, mais tarde, os muçulmanos fizeram, a Igreja criou três lugares sagrados de peregrinação. Os muçulmanos têm Meca, Medina e Jerusalém como destinos sagrados dos seus peregrinos. A Igreja tinha, e ainda tem, Santiago, Roma e Jerusalém. No entanto, há algo muito importante que diferencia Santiago dos outros dois: o Caminho já existia antes da chegada do cristianismo. Mas antes de falarmos na antiguidade do Caminho, vamos contemplar um pouco mais a lenda cristã de Santiago de Compostela.
Quando se diz que São Tiago era acompanhado por um cão e por uns poucos discípulos, dando o seu carácter irascível como justificação para tão poucos seguidores, na verdade trata-se da adaptação de uma questão astronómica. O Caminho tradicional faz-se de oriente para ocidente, mais ou menos ao longo do paralelo 42 do Hemisfério Norte. Os caminhantes tinham sobre si o esplendor da Via Láctea, pelo que também se chama ao Caminho, o Caminho das Estrelas. Como guia e referência no horizonte tinham a Constelação de Cão Maior, na qual resplandece a estrela mais brilhante do nosso firmamento, Sírius.
Sírius é uma estrela com profundas referências esotéricas e místicas. Era especialmente venerada no Egipto antigo. Nada melhor do que aproveitar essa antiga tradição e transformá-la na lenda de Santiago. Assim, o cão que o acompanhava não era mais do que a Constelação de Cão Maior, e os poucos discípulos, as poucas estrelas que compõem, juntamente com Sírius, essa Constelação, três a cinco, consoante as fontes.
Isto tudo não quer dizer que o Caminho de Santiago seja apenas uma mistificação, uma lenda inventada pela Igreja para atrair os peregrinos. Sendo o Caminho bem mais antigo do que a existência da própria Igreja, esta, de certa forma e apesar das adaptações, herdou muito do misticismo e esoterismo que fazem o Caminho ser tão especial.
Inicialmente o Caminho era uma via puramente iniciática. Ali, o viajante se encontrava absolutamente só em todos os aspectos: só perante a imensidão do universo, com a Via Láctea pejada de estrelas sobre a sua cabeça; só perante os obstáculos que tinha de ultrapassar e os perigos que tinha de enfrentar; só em contacto com a natureza e os seres dessa mesma natureza; só perante o grande mistério da Criação; só, completamente só, perante a sua própria consciência. Afinal, o grande aprendizado do Caminho era o de que o homem, só por si e contando apenas com os seus recursos, era capaz de superar qualquer obstáculo e enfrentar qualquer desafio. Mas o mais importante era o de que, estando completamente só, se sentia, como que por magia, uno com tudo ao seu redor, uma incrível sensação de fazer parte do todo.
Fosse pelo tremendo sacrifício de caminhar centenas de quilómetros, ou pela sensação, por um lado esmagadora, por outro altamente vitalizante, de se encontrar só e ser uno com tudo, havia realmente uma ampliação da consciência. Ao fim de cada jornada diária processavam-se mudanças interiores imperceptíveis que, no final da grande caminhada, no lugar em que a terra terminava, o ser aí chegado não era o mesmo que tinha iniciado a viagem nas alturas dos Pirinéus. Nenhuma experiência era igual a outra, nenhum caminhante experimentava as mesmas coisas, cada um era a sua própria história, diferente de todas as outras, mas no final, a sensação de se ter superado a si próprio era semelhante.
Primordialmente o Caminho aponta-nos outros motivos que podem preencher o nosso imaginário e levar-nos a cenas de uma grande antiguidade. As lendas não são puras criações humanas, baseadas apenas na imaginação. Elas assentam em factos acontecidos e depois, transmitidas oralmente de geração em geração, ao longo de milénios, acabam por perder a sua verdade original, transformando-se em mitos que consideramos, geralmente, frutos da imaginação humana. Segundo a lenda mais arcaica, O Caminho existe há mais de doze mil anos. Era percorrido por caminhantes que iam em busca de conhecimento, que lhes era transmitido por seres vindos de além Atlântico, e que eles consideravam deuses. Esta lenda está patente em muitas tradições ancestrais. No antigo Egipto aquele ocidente remoto era a terra de “Amenti”, para a qual viajavam os mortos para se reunirem aos seus antepassados.
Esses seres vindos de além Atlântico não podiam ser outros do que os sobreviventes da antiga Atlântida. Teriam ensinado àqueles que os procuravam, vários rudimentos civilizacionais e ideias sobre as relações com as forças divinas. Digo forças divinas porque na antiga Atlântida não havia o conceito de Deus como é hoje considerado, o qual pode ser uma deturpação desses antigos ensinamentos.
Várias histórias compõem esta lenda antiga, como por exemplo, a cidade de Noya teria sido o lugar onde Noé desembarcou da sua arca.
Inúmeros sinais gravados em pedra e encontrados ao longo de toda a costa galega têm desafiado as eras e as tentativas de decifração. São sinais com mensagens herméticas que o caminhante deve procurar entender. Dentre todos há dois grupos de sinais que requerem uma atenção especial: sinais de morte e ressurreição, significando que o caminhante terá que morrer simbolicamente para ressuscitar numa nova vida; sinais de identificação dos opostos, a partir dos quais se terão constituído outras lendas, como a de Castor e Polux, Caim e Abel, Rómulo e Remo, etc., numa chamada de atenção de que somente por uma percepção incorrecta os mesmos poderiam ser contrários e distintos.
De acordo com Juan G. Atienza, no seu livro “La Ruta Sagrada”, as transformações que o Caminho nos apresenta podem resumir-se na seguinte estrutura:
“a) – O Caminho constitui um itinerário sagrado em direcção a mitos que nos dão conta de um arcaico centro do mundo, onde se encontravam supostamente implantadas chaves fundamentais do conhecimento transcendente.
b) – O Caminho foi concebido como uma via dolorosa que servirá em primeira instância para reforçar a vontade de saber do peregrino, pondo à prova a sua capacidade de superar os sofrimentos e propiciando a sua vitória sobre os seus próprios condicionamentos físicos, mentais e espirituais.”
O Caminho é assim, mau grado a exploração comercial e turística da actualidade, uma via de expiação e iniciação. Transformado numa via dolorosa cristã, não perdeu contudo o seu objectivo primordial iniciático, o de abrir portas insuspeitas para todo aquele que busca as chaves de um conhecimento ancestral, talvez legado pelos deuses vindos de além-mar, de uma terra também mítica chamada Atlântida.
(Escrito in memoriam de António Fonseca Matos, aos 13 de Abril de 2007)
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