quarta-feira, 19 de julho de 2023

Honestidade (des)

Honestidade (des) Parece que o ser humano foi criado com um defeito grave de fabricação – a falta de honestidade. Criado à semelhança dos deuses (a Bíblia, apesar das más leituras, dá-lhe essa origem), parece que essa semelhança ficou mais pelos defeitos do que pelas qualidades. A honestidade seria uma dessas qualidades, mas como era rara entre os deuses, ou inexistente, pois passavam a vida em guerra ou a enganarem-se uns aos outros, o ser humano, mau grado as teorias do macaco original, foi criado para ser completamente desonesto. Quem não conhece os “mitos” gregos e os deuses do Olimpo? Parece exagero o que aqui começo por afirmar, mas se estudarmos bem a história desta humanidade durante os últimos milénios, verifica-se que ela é feita de mentiras, de trapaças, de castas, de gente poderosa e de gente miserável, neste caso a grande maioria, de lutas e guerras por domínio sobre a população do seu país e de outros países. Quanto mais desenvolvida tecnologicamente está a civilização, mais as pessoas se encontram enclausuradas mental e fisicamente em processos que apenas existem pela sede de poder de alguns. Em pleno século XXI assistimos a guerras devastadoras baseadas em mentiras, mostrando a arrogância daqueles que se julgam iguais aos deuses, arrogando-se o poder de vida e morte sobre a população. Uma das coisas que mais me impressiona e é prova de desonestidade, é o sacrifício de toda uma juventude que é obrigada a ir combater, a morrer ou ficar desfigurada, ferida ou deficiente para toda a restante vida, enquanto os que a mandam para lá permanecem nos seus “bunkers” ou afastados a uma distância segura o suficiente para não correrem qualquer risco, acabando alguns por serem considerados heróis sem terem corrido qualquer perigo. Longe vão os tempos em que os reis, imperadores, faraós, comandavam eles próprios os seus exércitos, apesar de serem bem protegidos por uma guarda especial à sua volta. A falta de honestidade ou, mais precisamente, a desonestidade, atinge todos os sectores da vida actual, mas nunca foi diferente, é de todas as épocas. A pior forma de manifestação é a desonestidade intelectual – a pessoa sabe que não sabe, emite considerações como se soubesse, mente ou ignora evidências que podem colocar em causa as suas opiniões e conclusões. Os casos mais constantes desta falta de honestidade são as religiões, supostas ciências como a arqueologia e ideologias políticas. As religiões por dominarem o poder há milénios através de crenças que não podem provar e demonstrar a sua existência; a arqueologia por estar presa a preconceitos sobre a existência histórica humana e por falta de humildade em reconhecer que não pode saber tudo e que conclusões de supostos “mestres” podem estar completamente erradas; as ideologias políticas que se presume servirem a raça humana, mas que na realidade servem apenas os seus ideólogos, com resultados algumas vezes catastróficos para a humanidade. Não é por acaso que está cada vez mais difícil hoje encontrar políticos sérios, não corruptos, que se prestem unicamente a servirem o seu país. Também é provável que sempre tenha sido assim, que salvo raras excepções, nunca tenha havido políticos sérios. A política e a religião sempre andaram de mãos dadas desde a mais remota antiguidade, porque sempre serviram o mesmo propósito de poder mas, era a religião que tinha precedência sobre a política, dado que supostamente tratavam da alma e da salvação, enquanto a política tratava de coisas mais materiais. A separação entre religião e estado, ideia muito fortalecida pela Revolução Francesa de 1789 e que veio a ter grande influência nas sociedades democráticas modernas, tornando os estados laicos, quer dizer, sem influência religiosa na administração e nas leis, uma vez que a parte religiosa pertence ao foro íntimo de cada um, funciona, na verdade, num número reduzido de países. A maior parte dos países, mesmo democráticos, tem a religião como forte suporte do poder ao ponto de ser ela o verdadeiro poder ou, determinar quem deve dirigir os destinos da nação através da sua influência junto da população. A arqueologia é talvez uma das ciências onde a desonestidade intelectual mais impera, seja por influência religiosa, como por exemplo o caso do Antigo Egipto, em que um dos locais do mundo com maior presença da antiguidade através de uma infinidade de peças e monumentos que têm sido descobertos e investigados, está entregue a uma direcção islâmica que recusa qualquer outra explicação a não ser a determinada pela sua religião. A maioria dos arqueólogos em todo o mundo segue as suas pisadas, talvez por orgulho e protecção do seu estatuto de especialista. A construção das pirâmides de Gizé tem sido objecto das maiores fantasias à falta de se saber, exactamente, como é que foram construídas, quem as mandou construir e quando foram construídas. Insiste-se, por exemplo, na ideia de que foram construídas como túmulos de faraós quando nenhuma múmia foi alguma vez encontrada dentro duma pirâmide. Para se poder determinar a antiguidade de determinado objecto ou construção é normalmente usado um processo através do carbono 14, um isótopo instável do carbono. Este tipo de medição necessita da existência de matéria orgânica, como acontece com as múmias e outros artefactos de origem animal ou vegetal. Ora as pirâmides não foram construídas com material orgânico, foram construídas em pedra, por isso não podem ser datadas. Outros processos de datação há, mas todos precisam da existência de matéria orgânica para se poder determinar a sua antiguidade. A atribuição da construção da Grande Pirâmide ao faraó Kéops, ou Kufu, choca-se com problemas matemáticos de impossível solução. Segundo os cálculos efectuados, a pirâmide deve conter cerca de 2,3 milhões de blocos de pedra pesando em média 02 toneladas, alguns chegando a pesar até 60 toneladas. Acredita-se..., termo usado pelos egiptólogos, uma especialidade da arqueologia dedicada ao Egipto, por aqui se vê a importância arqueológica do Antigo Egipto, que a construção da grande pirâmide teria durado cerca de vinte anos. Por contas simples dividindo os 2,3 milhões de blocos por 20 anos, dividindo o resultado por 365 dias e depois por 24 horas, chega-se à conclusão de que teriam de ser colocados 13 blocos por hora durante as 24 horas do dia e durante os 20 anos, sem nenhuma interrupção. Hoje, com toda a tecnologia, não seria possível a sua construção e o assentamento perfeito de cada bloco nesse período de tempo. O mais grave é dizer-se que a construção foi possível devido ao trabalho de centenas de milhares de escravos, ou seja, esses escravos tinham conhecimento duma técnica especial de construção que não passaram à posteridade. Este argumento é semelhante a muitas publicações actuais que defendem que o planeta Terra pode parar de repente a sua rotação, teoria alimentada por uma infinidade de razões de gente que não conhece os conceitos básicos da física. Se a Terra parasse de repente, tudo quanto existisse à sua superfície seria disparado para o espaço pela força duma coisa chamada inércia. Da mesma forma, o uso de milhares de escravos para arrastar as pedras durante a construção da pirâmide tem um limite – a partir de determinado número o peso das pessoas ligadas às cordas para puxar as pedras vira-se ao contrário, quer dizer, vai perdendo força pela inércia de tanta gente a puxar, portanto, uma tarefa impraticável. Há quem afirme que é possível e diz-se engenheiro, mas repito a questão: são 13 blocos pesando no mínimo duas toneladas, dois mil quilos, por hora, ininterruptamente durante vinte anos. Não seria mais honesto dizer-se que não se sabe, verdadeiramente, quem mandou construir a pirâmide, como foi construída e qual a sua verdadeira antiguidade? E dizer-se também que não se sabe para que serviam essa e todas as outras pirâmides? Por que se recusam sistematicamente evidências da existência duma civilização altamente desenvolvida, que na Mesopotâmia receberam o nome de deuses, ou anunnakis, e na Bíblia, antes da sua deturpação por conveniências religiosas, são chamados de elohins? Outro factor importante em relação à grande pirâmide é o conhecimento científico que permitiu a sua construção em termos arquitectónicos tão perfeitos e que não teve nenhuma evolução posterior. Como tudo o que existe sobre a Terra tende para a perfeição, evolui para a perfeição, porque será que esse conhecimento e essa técnica se perdeu definitivamente e nunca mais se construiu nada igual? O planeta inteiro está cheio de vestígios duma era remota em que se construía em pedra e ninguém sabe porquê. A maioria dos especialistas prefere olhar para o lado e agarrar-se aos seus preconceitos estabelecidos em cátedra, como se fossem conhecimento científico. Não, não é conhecimento, é desonestidade. Os poucos que procuram outras explicações, às vezes exagerando nas suas próprias crenças, são descriminados, desautorizados e ridicularizados. Há livros, apoiados em estudos de especialistas de várias universidades espalhadas pelo mundo, que explicam como esta civilização começou na Suméria, como cidades-estado se organizaram à volta dum templo dedicado a determinado deus, mas não explicam como essas populações foram ensinadas, como é que deram nome ao seu deus, como é que aprenderam a organizar-se dessa maneira. Em livro recente, o antigo tradutor de textos antigos no Vaticano, Mauro Biglino, diz-nos coisas muito interessantes que os teólogos e os fanáticos bíblicos não gostam. Ele diz e demonstra que a Bíblia não é um livro sagrado e que não fala nunca em Deus, mas em Elohins. O não ser um livro sagrado, como muitos outros espalhados por outras religiões que não o cristianismo, não surpreende porque a Bíblia tem sofrido ao longo do tempo alterações no texto de modo a conformar-se com a vontade de quem tem o poder religioso na época. Muitas dessas alterações adulteraram completamente os textos e significados originais. Uma das versões muito usada actualmente é a versão do frade João Ferreira de Almeida, que é a preferida das igrejas pentecostais e neopentecostais e que teve a sua última revisão completa em 1956. Mauro Biglino diz o seguinte: “Uma história que os detentores do conhecimento idealizaram, utilizando os textos considerados sagrados como mero pretexto, como inspiração para dar voz a uma criação artificial”. Para mim, o Antigo Testamento só é verdadeiro porque se trata dum conjunto de escritos antigos que relatam, na opinião dos antigos escribas ou de quem os mandou escrever, a história de Israel, ou do povo judeu. Chamar a Jeová, Yahweh ou Javé, nunca foi a intenção de o considerar o Deus criador de todas as coisas, criador do Universo, das galáxias, etc., porque esse Deus não se deve nomear. Quem o transformou nesse Deus criador de todas as coisas foram os cristãos, os rabinos judeus nunca o consideraram com tal. Manuel Pina Julho de 2023

sexta-feira, 26 de abril de 2013

RELEMBRANDO ABRIL Era Primavera, final de Abril, o tempo estava morno. Na noite de 24 fomos ao cinema, ao velho Tivoli, ver o filme chamado “A Golpada”, com Paul Newman – que raio de coincidência... Já madrugada o telefone toca, atendo estremunhado. Uma voz do outro lado: - Já ouviu o rádio? - Que rádio? – perguntei, caiu algum avião? - Não, não é esse rádio. É a emissora. A Rádio Renascença ou a Rádio Comercial. Parece que começou uma revolução. Saltei da cama e fui ouvir o aparelho de rádio. Era verdade. Parecia que havia uma revolução, cujos soldados já tinham ocupado aquelas emissoras de rádio. Ouvi ainda várias vezes o “Depois do Adeus” na voz do Paulo de Carvalho, e o “Grândola Vila Morena” na voz do Zeca Afonso. O dia amanheceu sem eu ter dado conta, colado ao aparelho de rádio, sorvendo todas as notícias que iam chegando. Parecia que o velho regime ia finalmente cair. Não me lembro do que aconteceu a seguir durante aquela manhã. Não sei a que horas liguei a televisão para ter imagens em directo do que se passava no Largo do Carmo e do Terreiro do Paço, que parecia ter sido bombardeado por uma corveta da Marinha. Mas parece que a corveta só tinha disparado dois tiros e a sua tripulação tinha aderido à revolução. Acho que a determinada altura do dia 25 a emissora de televisão tinha sido ocupada pelos revoltosos. Era Abril, era Primavera, parecia que a nação ia finalmente ser resgatada, ia ressuscitar do longo período sombrio de mais de quarenta anos. Renascia a esperança, embora a esperança seja duvidosa, pois não se sabe se é um bem. Os antigos gregos desconfiavam da esperança, pois fora a única coisa que restara no fundo da “Caixa de Pandora” quando esta a abriu e espalhou todos os males pelo mundo. Se a esperança ficou no fundo, é porque também era um mal. As pessoas foram chegando e foram-se sentando, olhando para a pequena tela do aparelho de televisão que continuava a transmitir o que se passava. Alguém tivera a ideia de colocar flores, cravos vermelhos, nos canos das armas, ideia que veio a ficar como o símbolo da revolução de Abril. As pessoas continuaram a chegar. Já não havia cadeiras, sentaram-se no chão. No outro aposento as crianças brincavam ruidosamente. Para o fim do dia tudo estava consumado, Marcelo Caetano tinha sido aprisionado e recolhido num “chaimite” que o levou para algures, juntamente com o então ministro dos Estrangeiros. A nação renascia em flores e festa. Nascia também o “espírito de Abril”, que fez mover multidões, alheias à verdadeira guerra que se estabeleceu entre as várias correntes partidárias, desde a extrema esquerda à extrema direita. O “espírito de Abril” morreu no dia em que mataram o Sá Carneiro e o Amaro da Costa, crime hediondo que ficou impune, pela covardia de muitos e o conluio de outros. Hoje a nação está de novo muribunda. Nas palavras de um grande amigo, podemos estar a assistir à maior tragédia da nossa História. Desapareceu a esperança, o “espírito” há muito morto. Nada resta, somente o nevoeiro como disse Fernando Pessoa. No fim do dia abrimos o champanhe. Afinal... era o dia do meu aniversário. Nesse dia já parecendo tão longínquo, eu fazia trinta e um anos de idade.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Cartas do meu Sanctum O PASSADO DO FUTURO Há quem diga que o tempo não existe, que não é mais do que uma sucessão de percepções da nossa consciência. É bastante difícil compreender isto quando nos deparamos a todo o momento com variações da escala do tempo. Se um dia tem vinte e quatro horas é porque o nosso planeta leva esse tempo a fazer uma rotação completa; se o ano tem mais ou menos trezentos e sessenta e cinco dias é porque a Terra leva esses dias todos a rodear o Sol. Tudo se passa a velocidades vertiginosas das quais não temos a menor consciência. Se o tempo não existe, como compreender a vida desde o seu nascimento até à sua morte, como ocorre com todos os animais e vegetais? Como compreender aquelas fotos de família que nos mostram como éramos quando crianças? Como compreender o desenrolar da História ao longo dos séculos e dos milénios? Para alguns cientistas menos comprometidos com concepções conservadoras, o tempo é uma das dimensões em que vivemos. Assim, não vivemos em três dimensões, mas em quatro. Cientistas mais arrojados nas suas projecções dizem que podemos estar a viver, pasme-se, não em três ou quatro, mas em dezanove ou vinte e uma dimensões. Considerando esta última hipótese, as várias teorias de que estamos a sair da terceira para entrar na quarta ou quinta dimensão estão ultrapassadas. De acordo com alguns elementos da Tradição Primordial que a Teosofia adoptou, o tempo é constituído por uma imensa tela onde tudo é registado. Essa tela é o “eterno presente”, não existindo portanto, nem passado, nem futuro. Então, não existindo passado quer dizer que vivemos sempre nesse “eterno presente”, o que torna a compreensão sobre o tempo um pouco mais complicada. Se o tempo é uma das quatro dimensões em que vivemos, parece-me ser a dimensão da percepção, da mesma forma que só temos a percepção das outras três dimensões através da dualidade de luz e sombra, dos vários cambiantes da luz. Se não houvesse sombras, apenas luz, não conseguiríamos distinguir nenhum objecto. Para aumentar ainda mais a dificuldade de compreensão da natureza do tempo, as recentes teorias das cordas e das supercordas vêm dizer-nos que vivemos simultaneamente em vários universos, que o nosso universo não é único, que existem muitos universos que seriam como bolhas de sabão em contacto umas com as outras. Esta teoria parece disparatada, mas talvez nos ajude a começar a compreender muitos fenómenos para os quais não conseguimos ainda explicações definitivas ou satisfatórias. Refiro fenómenos como os sonhos, a paranormalidade, a mediunidade, as projecções psíquicas para fora do corpo, as memórias que nos chegam sem sabermos de onde. Tal como a teoria de Einstein sobre os buracos de minhoca, que nos permitiriam cortar muito caminho em eventuais viagens espaciais, também esta uma teoria muito difícil de compreender, a dos universos paralelos peca pela mesma dificuldade. No entanto, talvez estejamos no limiar de descobertas espantosas nunca antes imaginadas. Resta saber se a actual humanidade estará preparada para esse verdadeiro novo mundo, ou se terá de haver uma purga, conforme rezam inúmeras mensagens canalizadas por médiuns, assim como também acreditam os espíritas. Acredito sinceramente que depois da imersão, do mergulho na matéria que está a acontecer com a grande maioria dos seres humanos, uma aurora inovadora nos iluminará e transformará a Terra num lugar muito mais aprazível para se viver. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 22h03 de 26 de Março de 2013)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Cartas do meu Sanctum O PAPA HUMILDE Mais uma vez uma profecia saiu “furada”, quero dizer, não se realizou, apesar das eventuais interpretações simbólicas que se possam fazer. De acordo com a profecia dos papas cuja autoria se atribui a São Malaquias, um bispo irlandês do século XII, este papa, Francisco, será o último e a Igreja terminará em grande tribulação. Mas a profecia diz também que o nome dele seria Pedro, o Romano, que tomaria o nome de Pedro II, dado que o primeiro é São Pedro, o apóstolo que, segundo a Igreja de Roma terá sido o seu fundador. O papa agora eleito não tem Pedro no seu nome e não é romano, mas argentino, o que constituiu uma notável surpresa, boa ou má conforme os interesses em jogo, para todo o mundo católico. O papa Francisco (ainda não entendi porque é que não é Francisco I) foi eleito numa altura em que a Igreja atravessa uma crise mais séria do que vulgarmente se pode conceber. A renúncia de Bento XVI, apesar das piedosas explicações de vários integrantes da hierarquia católica, tem razões que o mundo desconhece. Não sou normalmente partidário de teorias de conspiração mas, os sucessivos escândalos que têm abalado o Vaticano, envolvendo muitos daquela hierarquia, fazem-nos pensar que haverá poderosas razões ocultas que obrigaram Bento XVI a desistir de lutar e assim renunciar. Este papa Francisco tem surpreendido pelas várias quebras de protocolo e por actos de humildade pouco comuns na pessoa do Sumo Pontífice da Igreja Católica. Estas atitudes têm entusiasmado o mundo católico, como se isso fosse realmente importante para a missão reservada a Francisco. Era talvez importante quando arcebispo de Buenos Aires e que gostava de ter uma vida simples e de contacto com os pobres, mas não como papa, pois não se pode esquecer que ele agora é um chefe de estado, o chefe de estado do Vaticano. Portanto, recusar o uso de insígnias e a utilização do carro de luxo parece-me mais um processo de “marketing” tentando fazer passar uma imagem de humildade e despojo. O que importa saber é como é que ele vai enfrentar a crise que se vem agudizando nas últimas décadas, como é que vai enfrentar o poder de alguns cardeais e como é que vai agir em relação aos problemas sempre pendentes e que nenhum papa até hoje conseguiu resolver. O único papa que tentou renovar de facto a Igreja foi João XXIII, que conseguiu convocar e iniciar o Concílio Vaticano II, mas morreu antes de ver a sua obra terminada. Logo os sectores mais conservadores tomaram as rédeas e reduziram drasticamente as conquistas desse Concílio. Será que este papa irá aceitar uma maior participação da mulher na Igreja? Será que terá coragem de resolver de uma vez por todas, dado que não se trata de um dogma, a questão do celibato dos sacerdotes? Será que terá uma atitude mais compreensiva em relação à homossexualidade? Será que vai aceitar os processos contraceptivos, como o uso de preservativos, evitando a continuada contaminação pelo vírus da sida (aids), como tem acontecido em várias regiões de grande influência católica? Será que vai conseguir sanar a corrupção financeira que grassa no Vaticano, afastando os seus responsáveis, ou levando-os a julgamento? Será que irá aceitar a “Teologia da Libertação” nascida no continente de onde é natural e condenada por duas vezes pela inquisição moderna e pelo anterior papa, Bento XVI? Será que irá conseguir que a Igreja se volte para os pobres, quando tradicionalmente tem estado sempre ao lado dos ricos, poderosos e opressores, se não de forma explícita, pelo menos implicitamente. É uma enorme e árdua tarefa que espera o papa Francisco. Espero que consiga, realmente, transformar os actuais actos de humildade e quebras de protocolo numa verdadeira revolução dentro da Igreja. Assim o Cósmico o ajude. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h58 de 19 de Março de 2013)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Cartas do meu Sanctum

DA RENÚNCIA DO PAPA AO METEORITO DOS URAIS Há quem veja nestes acontecimentos sinais do final dos tempos. Se entendermos que final dos tempos é o final desta civilização, essas pessoas devem estar certas ou muito próximas de uma verdade que nos escapa, pois de facto, tudo aponta para um certo ocaso desta humanidade. Há algo de caricato na renúncia do papa, habituados a ver essa figura cimeira da Igreja de Roma resistir até os seus actos e aparições em público se transformarem num verdadeiro martírio, num enorme sofrimento, tão do agrado do mundo católico conservador. Há algo de caricato num papa que escolheu vestir-se como o faziam os seus antecessores na Idade Média. Há algo de caricato na figura de um papa que pretende passar uma imagem de bondade, depois de ter sido o cardeal responsável por um dos sectores mais sinistros do Vaticano, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, outrora e não há muito tempo conhecido como Inquisição de muito má memória. Nunca entendi o fascínio de João Paulo II junto da população, especialmente das mulheres. Foi ele um papa também muito conservador e reaccionário, que recusou sempre, para além de outras atitudes do mesmo género, um papel mais efectivo da mulher dentro de Igreja. Ele, como o seu sucessor que agora abdicou, tiveram que enfrentar os escândalos sucessivos que fustigaram a Igreja de Roma, desde os escândalos financeiros com alguns homicídios e suicídios à mistura, até às centenas ou milhares de acusações de pedofilia de padres e bispos. Esquecendo-se que a Igreja não é mais tão poderosa como o foi na Idade Média, estes dois pontífices foram acobertando os escândalos, transferindo para outras paróquias os visados por essas acusações pedófilas. Só muito recentemente Bento XVI aceitou que os padres envolvidos fossem sujeitos às leis civis dos países que habitam. Considerando as fortes e graves divisões que grassam no Vaticano, a Igreja parece ter entrado numa via descendente, cujas consequências ninguém consegue prever. Evidentemente que a crise que se instalou tem nefastos efeitos sobre a sociedade, já muito parca de valores. Para alguns esta situação foi prevista por São Malaquias nas suas profecias, que indicam que o próximo papa, Pedro Romano, será o último. Não sei se Pedro será o nome adoptado pelo próximo papa, como Pedro II, ou se o Pedro Romano tem a ver com o seu nome de baptismo. De notar que dois dos cardeais apontados como possíveis sucessores de Bento XVI, têm Pedro no seu nome. Portanto, estamos às portas do fim dos tempos, para quem acredita nisso. Entretanto o espaço exterior do nosso mundo trouxe-nos algumas surpresas. Por um lado, um asteroide com cerca de 45 metros de diâmetro iria passar numa verdadeira razante à Terra, a cerca de 28 mil quilómetros de distância, um décimo da distância até à Lua. Por outro lado, um meteorito entrou vertiginosamente na nosssa atmosfera e foi despenhar-se na Rússia, nos montes Urais. Não sei quando é que um meteorito passa à condição de asteroide, deve ser uma questão de tamanho, mas esse que caiu na Rússia tinha 17 metros de diâmetro. Não me lembro de ver nenhuma previsão sobre a sua queda, pois talvez o monitoramento que é feito abranja apenas as “pedras” maiores. Esta “pedra” que caiu num lago dos montes Urais, atravessou a nossa atmosfera a uma velocidade de 30 qulómetros por segundo, o que nos leva à fantástica velocidade de mais de 100.000 quilómetros por hora. Não consigo imaginar o que teria acontecido se esse meteorito tivesse caído numa área mais povoada, ou numa cidade. O que fez com que essa “pedra” fosse cair nos montes Urais, evitando uma catástrofe de terríveis dimensões? Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h54 de 19 de Fevereiro de 2013)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cartas do meu Sanctum

MITOLOGIA MODERNA Ou deveria dizer pós-moderna, uma vez que se refere aos tempos actuais? Há quem tenha afirmado que a nossa história, a história desta humanidade, é feita de mitos, em que não se sabe onde acaba a fantasia e começa a verdade. Quando falamos em verdade queremos dizer algo mais próximo daquilo que sucedeu, pois não existe verdade, existe apenas a percepção individual de algum acontecimento. Escusado será aqui enunciar as experiências que têm sido feitas para demonstrar que a verdade é uma coisa muito relativa, que cada um tem a sua verdade. Quando falamos desta humanidade significa que já houve outras, que desapareceram sabe-se lá porquê e em que condições. Para os que não acreditam e acham que somos únicos e fomos criados do pó ou do barro há uns seis mil anos, olhem para o que essas outras humanidades nos deixaram como testemunho espalhado por todo o globo, na forma de monumentos e construções gigantescas de pedra, que continuam a desafiar a nossa imaginação e a nossa capacidade de explicar para que é que serviam. O racionalismo que invadiu as mentes europeias pouco antes da Revolução Francesa, que chamaram de “Iluminismo”, levou-nos a considerar que as histórias de antigas civilizações como a grega, a egípcia e as da região da Mesopotâmia, pricipalmente as suas histórias que envolviam deuses, como mitos, querendo com isto dizer que não eram mais do que resultados da fértil imaginação do povo. Mas sempre suspeitei que a mitologia devia corresponder a algo que se passou e que terá chegado aos nossos dias completamente deturpado, aqui sim, pela imaginação de cada um e pelo controlo e influência religiosa. Os mitos sempre fizeram parte do imaginário popular, aproveitados muitas vezes para se atingir algum objectivo, umas vezes como forma de instrução, outras para reforçar a religiosidade, outras ainda para tentar modificar a sociedade. O melhor exemplo é a saga arturiana e a busca do Graal, que na altura em que foi elaborada pretendia melhorar as condições morais em que se vivia na Europa. Foi uma lenda elaborada com precisão para atingir determinado objectivo, para nós aquele que já referimos, pois não é possível acreditar numa história escrita cerca de quinhentos anos após a presumível existência, nunca confirmada, do rei Artur. O final do século XX e o início do século XXI tem sido uma época pródiga na produção de novos mitos, alimentada por muitas fantasias, alucinações e aproveitamentos abusivos da facilidade e liberdade que a Internet oferece para a difusão das suas ideias. Alguém me disse um dia que o papel aceita tudo quanto lá queira escrever. A Internet também, com a agravante de se arregimentar logo um grupo mais ou menos numeroso de fieis seguidores. Não vamos falar do mais que famoso calendário maia como mito moderno ou pós-moderno, porque já se falou dele exaustivamente, já excitou demasiadas mentes sedentas de que algo de muito grave aconteça com esta humanidade, para que as suas almas descansem, finalmente, em paz. Como não tem acontecido nada do que profetizaram, não conseguem sossegar. A actual crise que grassa na Europa, principalmente nos seus países classificados como periféricos, constitui talvez o mito mais importante com que lidamos neste tempo. Como se pretende escamotear o que realmente está a acontecer, para isso a colaboração dos média (mídia no Brasil), da comunicação social, tem sido excelente, quase ninguém vê que, na verdade, não existe crise nenhuma, existe apenas um processo político e económico que corresponde ao estertor do capitalismo como forma de sociedade, que não me atrevo a chamar de justa. A democracia não existe ou nunca existiu, pois dela temos apenas na liberdade de ir a votos eleger algo já cozinhado anteriormente e com resultados mais do que previsíveis. O capitalismo (selvagem?) usa a democracia, ou a ideia de democracia, para se impor como a única alternativa para esta humanidade, mas está ferido de morte, pois não é possível continuar por muito mais tempo a exploração, conhecida como consumismo, em que esta sociedade foi mergulhada. Alguns espíritos que se julgam a si mesmos de mais esclarecidos, tentam explicar o que se passa no planeta como a consequência da acção de grupos demoníacos, cujo único objectivo será a exploração do ser humano. Falam de uma “Nova Ordem Mundial”, do grupo de Bildelberg, do “Clube de Roma”, da “Comissão Trilateral” e, finalmente, dos “Illuminati”, um grupo satânico interessado em subverter a moral e dominar as nações através daqueles organismos. Mas exerçamos um pouco de lucidez: alguém pode acreditar que aqueles cuja fortuna é muitas vezes superior ao produto interno de alguns países, que dispôem de um poder inimaginável que o dinheiro lhes faculta, estão interessados em fazer parte de uma qualquer associação para dominar o mundo? Uma coisa que já fazem sem terem necessidade de se associarem a ninguém. São “animais” predadores que têm o lucro e a destruição da concorrência como única finalidade, pois não é por acaso que a riqueza está cada vez mais concentrada num reduzido número de indivíduos. Parece-me também que o actual mito dos “illuminati” foi inventado pelo senhor Dan Brown, que os incluiu nas suas obras como figuras do mal. Parece que existiu um grupo assim intitulado no final da Idade Média, durante a época do “Iluminismo” que já referimos, que era chamado de “Iluminados da Baviera” (Bavária no Brasil). A sua existência actual como força para dominar o mundo, acho que é pura fantasia. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h59 de 15 de Janeiro de 2013)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Cartas do meu Sanctum - Mudanças

Estamos a três dias da fatídica data em que, de acordo com um calendário de origem maia e outros oráculos, o mundo vai acabar no meio do estertor de inomináveis cataclismos. Mas como escrevi na última carta, é muito provável que nada de estranho ou maravilhoso vá acontecer, o que não quer dizer que não haja uma mudança em processamento. Na verdade, tudo o que existe está sujeito à lei da impermanência, portanto, em permanente mudança. Isto acontece desde o princípio dos tempos, desde o celebrado “Fiat Lux” que terá dado origem a toda a coisa criada. Como a Natureza foi infiel e não fez a vontade dos oráculos (pelo menos até agora), não estando assim previsto qualquer tipo de cataclismo de colossais dimensões, os mentores do 21/12 dizem agora que haverá uma mudança sim, mas no interior de cada um. Acho que têm razão, só não estou de acordo em que isso vá acontecer de repente, no dia 21 e que atinja todos os seres humanos viventes no planeta. É provável, e eu quero acreditar nisso, que estejamos no fim de um ciclo cósmico e no início de outro, mas estas coisas não cessam de um lado e começam de outro. Quero dizer que talvez estejamos a vivenciar há muito tempo esse final de um ciclo cósmico e, ao mesmo tempo, a vivenciar o início de outro. Isto pode levar muito tempo, várias gerações, apesar de em termos cósmicos o tempo não existir. Trata-se de uma transição onde o fim e o início acontecem em simultâneo. O fim e o início dos ciclos não são eventos separados, interpenetram-se – a Era de Peixes não terminou abruptamente em determinada data, assim como a Era de Aquário não começou numa data específica (ainda não sei se já começou). As mudanças no interior de cada um vêm se processando há muito tempo. O ser humano de hoje não é o mesmo de há cinquenta ou cem anos, ou da Idade Média. O ser humano hoje é um ser completamente diferente por causa das mudanças que se têm operado no seu interior ao longo do tempo. Mas atenção, essas mudanças não têm sido, geralmente, no melhor sentido, basta olharmos para a humanidade actual e ver a prevalência dos apegos à matéria, e a busca do “ter” em detrimento do “ser”. Apesar disso, cresceu bastante a busca por um caminho mais espiritual, ainda que em muitos casos as pessoas sejam levadas a autênticos equívocos. Essa busca existe e esta humanidade tem vindo da ser beneficiada pela elevação espiritual que muitos seres humanos têm conseguido atingir, pois como se sabe e já demonstrado, quando alguém se eleva ajuda a elevar, por pouco que seja, o resto da humanidade. No entanto, o egoismo da maioria prevalece e por isso estamos a viver uma verdadeira época de caos. Não é por acaso que as intituições (criações nossas) estão a falir ou faliram, que não existe confiança em ninguém, que só podemos confiar em nós próprios e no nosso mestre interior. Estamos todos envolvidos neste processo de mudança e talvez o caos em que somos obrigados a viver seja um bem, uma bênção, uma oportunidade cósmica de resgatarmos o “velho homem” e criarmos o “novo homem”, aproximando-nos talvez desse arquétipo chamada Adão, ou Adão Kadmon, que compartilhava com Deus as delícias do Paraíso. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h40 de 18 de Dezembro de 2012)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Cartas do meu Sanctum - 2012

Ora cá estamos todos na recta final do ano e todos somos testemunhas, se quisermos ser honestos, de que nada fora do normal aconteceu no mundo até este momento. Houve umas chuvadas, algumas inundações, um ou outro terramoto, pessoas que morreram de causas naturais (da Natureza...), uns tufões e ciclones, não me lembro se algum vulcão entrou em actividade, enfim, tudo dentro da mais estrita normalidade, inclusive com os seres humanos a continuarem a matar-se uns aos outros em guerras estúpidas, sem tomarem consciência de que colocam as suas vidas à disposição, muitas vezes, de interesses inconfessáveis. Os arautos da desgraça, como os costumo chamar, pois não conheço nenhuma profecia que não fale exclusivamente de desgraças, previram para ontem, dia 3, um alinhamento especial de alguns astros que iria trazer profundas alterações à pobre humanidade e alguns distúrbios ao planeta. Diziam ainda que tudo se passaria no signo de Escorpião (dia 3/12 não é no signo de Sagitário?) e que o oposto, o Touro, estaria com a cauda (??!) virada para as Pleiades. Alinhamentos desta natureza, como os astrónomos podem muito bem explicar, já aconteceram milhares de vezes na história desta humanidade, sem que a Terra ou os seres nela viventes tivessem sofrido algo fora do normal. Mas os delírios continuam. Agora é a data 12/12/12, que está aí à nossa frente e onde podem acontecer algumas coisas, pois só daqui a um século essa data se repetirá. Isto é apenas uma curiosidade matemática, ou de calendário, também tivemos 11/11/11, 10/10/10, e assim sucessivamente até ao 01/01/01. Estas datas acontecem nos primeiros doze anos de cada século. Entretanto aproxima-se a data maior, prevista pelos maias há uma porção de anos e, pasme-se, confirmada hoje até por programas de computador. Será no dia 21 deste mês de Natal que tudo acontecerá. Tenho uma certa desconfiança de que os maias não quiseram continuar o calendário por falta de material ou falta de paciência. Nestas coisas de previsões e profecias os arautos da desgraça não desarmam, têm uma enorme e fiel clientela ávida das coisas que eles anunciam e que se acha a viver momentos de grande espiritualidade. As alucinações aparecem sob a forma de mensagens (todas iguais) de anjos, arcanjos, e até de nomes de Deus segundo a Cabala, já que os espíritos mais humildes deixaram de render. Tudo serve para manter acesa a crença dessa enorme clientela maioritariamente feminina. Mas como até agora não aconteceu nada de especial ao mundo e ao ser humano, o discurso desses “profetas” da desgraça mudou: não, o mundo não vai explodir nem vai acontecer nenhuma das catátrofes anunciadas, o que vai acontecer é a humanidade passar a uma outra dimensão (4ª, 5ª?). Os bons vão poder renascer em outro planeta mais elevado espiritualmente, ou mais elevado na hierarquia (isto existe?) dos planetas, os maus irão para planetas de desterro para poderem reiniciar o seu processo evolutivo através de grandes dificuldades, e não será mais permitida a sua reencarnação na Terra. Isto suscita algumas questões interessantes. Desta forma, parece que não fica ninguém na Terra, dado que tanto os bons como os maus vão para outras paragens. Depois, quem ou o quê vai estabelecer essa separação? Deus? Jesus? Os Senhores do Carma? Quem é que vai definir quem é bom e quem é mau, pois em termos cósmicos o bem e o mal não existem? Os Senhores do Carma também não existem, a não ser que acreditemos numa pleiade de deuses, ou anjos, operando supercomputadores para analisarem a vida pessoal de cada uma dos largos bilhões das nossas almas. Será Jesus o encarregado da tarefa? Desconfio que não, pois o Mestre Jesus já deixou a sua mensagem na época em que por aqui passou e não me parece que esteja muito preocupado com o destino humano. Deus? Tem mais o que fazer, se é que existe como as religiões o pintam, do que tratar da vida pessoal de cada um. Obviamente que nada irá acontecer de extraordinário no dia 21 de Dezembro de 2012, excepto delírios e alucinações de alguns. Não iremos passar a outra dimensão, e é bom que comecemos a tomar um pouco mais de consciência do estado a que estamos a conduzir o mundo e colaborar, de alguma forma, para melhorar as condições de muitos milhões de seres humanos que mal têm possibilidades de sobrevivência. Que cada um possa fazer a sua parte para tornar o mundo um lugar melhor para se viver. Sinceramente, já estou muito cansado dos disparates em que transformámos a nossa vida, e muito cansado também desses pseudoprofetas, que não passam, na verdade, de oportunistas. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h53 de 04 de Dezembro de 2012)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Cartas do meu Sanctum - Em Busca da Perfeição

O ouro já foi chumbo em tempos recuados. Os diamantes e as pedras preciosas já foram pedaços de árvore, sujeitos a tremendas pressões durante milénios até se transformarem em carbono mais ou menos puro. Não sei se isto é bem assim, cientificamente talvez haja alguma incorrecção aqui, mas a ideia está correcta, na Natureza tudo parece conspirar para a perfeição. Um isótopo radioactivo é extremamente instável, mas todo o seu processo tende para a estabilidade. Se observarmos bem, tudo parece perfeito. A plumagem dos pássaros, o pelo dos animais, a imensa variedade floral, mineral, tudo nos parece em estado de perfeição, e parece existir um segredo para essa perfeição. O segredo parece estar numa sequência numérica ou matemática, conhecida como sequência de Fibonacci. A formação de uma folha, de uma flor, de uma árvore, de um mineral, parece seguir um padrão dessa sequência, que até podemos encontrar na casca de alguns moluscos. Não sei se a sequência também se aplica ao mundo animal, mas não ficaria surpreendido se alguém a encontrasse em animais ou em seres humanos. Além da sequência de Fibonacci, mas relacionado com ela, existe um outro segredo que os artistas pintores e “pedreiros” (mestres construtores) da Idade Média conheciam e aplicavam nos seus trabalhos: o número de ouro, ou a proporção áurea, produzindo uma harmonia dificilmente conseguida sem a sua aplicação. Em termos simples, o número de ouro corresponde a mais ou menos ao quociente 1,618 de uma dada divisão. Por exemplo num quadro poderá ser o resultado da divisão da altura pela largura, mas a sua aplicação toma formas bem mais complexas. A famosa “Mona Lisa” de Leonardo Da Vinci está de acordo com esse número de ouro. As catedrais góticas da Idade Média foram construídas também de acordo com a proporcionalidade desse número, por isso nos sentimos bem dentro delas, não é por se tratar de um templo, mas porque as suas proporções originam uma energia que nos faz sentir em harmonia. Por um lado temos a sequência de Fibonacci, que está presente em variadíssimas formas na Natureza, por outro o número de ouro, que permite ao ser humano aproximar-se da perfeição e da harmonia da Natureza. Independentemente da religião que professemos, ou não professemos nenhuma, sentimo-nos geralmente bem, em harmonia, dentro de uma catedral gótica, ou mesmo românica. O motivo está no padrão que presidiu à sua construção, o número de ouro. Infelizmente este conhecimento (ou a sua aplicação) parece ter desaparecido com os antigos “pedreiros livres”, porque hoje se constrói a esmo, sem respeito por nenhuma regra, excepto as referentes aos materiais aplicados e à segurança da construção. E o ser humano como é que fica no meio disto? Estará ele também em busca da perfeição? Claro que está, mas não da forma que muitos podem pensar ao ver o notável desenvolvimento tecnológico que a nossa época conhece. Não sei se o ser humano também está formado de acordo com a sequência de Fibonacci, mas estando ou não, a sua busca da perfeição realiza-se em outro plano, que não o físico. É no seu interior, no diálogo que puder ou souber manter consigo mesmo, que ele busca a perfeição. Pode ser que seja no seu nível psíquico, ou na sua alma, como agrada a alguns, ou até na procura de domínio do seu ego, mas sempre será no seu campo espiritual que o processo acontece. Nunca é do exterior para o interior, do mundo físico para o mundo espiritual. O mundo espiritual manifesta-se no mundo físico pelas acções, palavras e comportamentos de cada um, reflexo de todo um trabalho interior em busca da perfeição. À velha regra de ouro que nos diz que “o que está em cima é como o que está em baixo”, podemos acrescentar “o que está de fora é como o que está dentro, e vice-versa.” Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h58 de 4 de Setembro de 2012)

sábado, 1 de setembro de 2012

Cartas do meu Sanctum - O Bem e o Mal

Muito se tem dito e escrito sobre o bem e o mal, atribuindo-se determinadas definições a um e a outro Há os arautos do bem, porque ninguém assume que é do mal, ou seja, todos temos uma noção do que é o bem e do que é o mal, seja por influência de costumes, de educação ou por um apelo interior, que leva cada um, geralmente, a fazer o bem em vez do mal. Mas… será que o bem existe? O mal existe? Ou trata-se apenas de concepções humanas? Sem dúvida que ambos existem, mesmo que parcialmente ou no todo sejam concepções humanas. Na Natureza não existe nem bem, nem mal, tudo decorre como resultado das próprias leis naturais. Há quem defina o mal como a ausência do bem, numa correlação óbvia com a definição de trevas como ausência da luz. Mas atenção, toda a tradição nos fala que a luz despontou das trevas, basta ler, por exemplo, os primeiros versículos do Evangelho de João. As definições pecam por defeito pois não consideram um imenso leque de variantes. Ninguém é completamente bom, como ninguém é completamente mau, a condição humana é muito complexa, as variações de carácter são imensas, embora haja padrões de aproximação. Uma outra definição que me deixou um pouco perplexo foi a de que “o bem é conhecimento e o mal é ignorância”. Evidentemente que estamos perante um excesso de simplificação, quando nada na vida e especialmente essas concepções de bem e de mal podem ser assim simplificadas. A simplicidade não resulta da simplificação, as coisas mais simples podem ser muito complexas. E a propósito de coisas li recentemente uma frase que contém uma enorme sabedoria: “as coisas importantes da vida não são coisas”. Para podermos afirmar que o bem é conhecimento, temos, antes de mais, de saber o que entendemos por conhecimento. Conhecimento de quê? Conhecimento da vida resultante de experiências da mesma? Conhecimento científico? Conhecimento das leis que regem a Natureza? Conhecimento das leis divinas? Conhecimento do conjunto disto tudo ou de alguma especialidade? Considerando que isto tudo faz parte do conhecimento, não é também sabido que a diferenciação entre o bem e o mal num sábio é muito ténue? Quantos magos e bruxos escolheram o lado da sombra ao atingirem um profundo conhecimento das suas artes? Não se diz que forem eles os responsáveis pela destruição da Atlântida? Os sacerdotes de Amon no antigo Egipto tinham um enorme conhecimento, o que não impediu que muitos se tivessem dedicado à magia negra. Todos conhecemos pessoas com conhecimentos muito precários, mas que se dedicam de alma e coração a fazer o bem, a tratar dos idosos, dos doentes, dos dependentes da droga, e por aí fora. Essas pessoas, à falta de conhecimento que lhes é atribuída, parecem agir por simples impulso do coração. Tenho a felicidade de conhecer algumas pessoas assim. Por outro lado também conhecemos pessoas que se dizem muito espiritualizadas, presumivelmente dedicadas a fazer o bem, mas que vivem presas de um profundo egoísmo e são incapazes de estender uma mão para ajudar os seus irmãos mais desvalidos. Também tenho a infelicidade de conhecer pessoas assim. E por falar em mal, que tal a hipocrisia que regula a nossa sociedade profana e se estende a religiões e organizações místicas e esotéricas? As fáceis definições de bem e de mal escondem uma profunda hipocrisia. Nesta sociedade aceita-se o mal de forma hipocritamente passiva, fazendo lembrar uma frase célebre, julgo que de Luther King, que quando não se combate o mal está-se a colaborar com ele. Digo mais: está-se a fortalecê-lo. Foi assim que chegámos aos níveis de corrupção que envenenam a sociedade de hoje, não só a nível político (não esquecer que os políticos são resultado desta sociedade), mas abrangendo todos os sectores da incrível civilização que ajudámos a construir. O bem e o mal são encontrados em todos os níveis, basta estarmos atentos (e despertos) ao que acontece diariamente e não nos deixarmos alienar por receitas fáceis que pretendem explicar tudo. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 22h12 de 30 de Agosto de 2012)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Cartas do meu Sanctum - A Lei da Atracção

A lei da atracção existe? Ou é apenas mais uma das inúmeras teorias “new age” que nos têm invadido e que não correspondem a nada sério e concreto? É facto que esta lei tem sido profusamente divulgada sob a forma de livros e filmes difundidos na Internet e fazendo a felicidade material (leia-se financeira) dos seus autores. Esta lei existe de facto, mas os autores da sua divulgação, muitas vezes feita como se tratasse de um grande segredo numa aplicação de “marketing” quase perfeita, ter-se-ão esquecido de mencionar que há outras leis cósmicas além dela. Porque efectivamente se trata de uma lei cósmica, não uma lei da física como aquelas descobertas por Sir Isaac Newton e outros. Em termos gerais a lei da atracção tem sido divulgada como uma forma de atingir sucesso material e felicidade, coisas que os milhões de leitores e de crentes não terão conseguido atingir sem saberem porquê. A lei da atracção funciona em dupla polaridade, isto é, tanto pode atrair o bem como o mal, melhor dizendo, tanto pode atrair o aspecto positivo como o negativo. Como mal entendam-se os nossos medos, as nossas angústias, inseguranças, a sombra que faz parte intrínseca da nossa vida. Desejar o bem com fervor e convicção não é eliminar os medos que vivem dentro de cada um de nós. É por este motivo, essencialmente, que a tão propalada lei da atracção muito raramente funciona, pois ao mesmo tempo que desejamos o bem, os nossos receios mais profundos emergem, colocando como que um travão ao sucesso e à felicidade. Por outro lado há também uma lei cósmica que nos diz que, inexoravelmente, cada um irá ter o que merece, ainda que este merecimento possa não ter nada a ver com a vida actual. Aqui entra a questão cármica, a que muito poucos dão atenção e outros poucos dão atenção excessiva. Esta lei do merecimento, se é que podemos assim chamá-la, provoca muitas incompreensões, principalmente porque muitas vezes assistimos ou temos conhecimento de coisas que nos fazem descrer seja do que for. Por exemplo, porque é que uma criança nasce defeituosa, tem uma doença grave e morre, ou é envolvida numa luta fratricida, numa guerra, sofrendo as maiores privações e sendo ferida ou morta. Esta criança fez alguma coisa para merecer aquilo? Obviamente que só o entendimento cármico e de reencarnações poderá dar uma explicação razoável, o que não deixa de ser um sério argumento em favor dos que não crêem em nada, dos ateus, se é que existe algum ateu… Outra lei que não é mencionada é a lei de compensação. Tudo no universo tem que ser compensado, voluntária ou involuntariamente. O universo, tal como todos os seres vivos, manifesta-se permanentemente em dualidade. Por isso aquele que é rico deve compensar a sua riqueza com acções a favor dos pobres e necessitados. Por muito cruel que esta lei possa parecer, não há como fugir dela. A uma grande riqueza corresponde, na outra polaridade, uma grande pobreza. De um lado há os países ricos, do outro os pobres, tudo se completa num equilíbrio perfeito. Dito isto, alguém me perguntou um dia se a humanidade não teria hipóteses de atingir a harmonia, a paz e a felicidade colectiva. Respondi que não, que esta humanidade estava condenada a viver em dualidade e que a superação dessa dualidade nos faria passar a outra dimensão da existência. Mas esta superação seria individual e não colectiva, como alguns apregoam. Embora façamos parte do Todo, contribuindo para o bem colectivo, o caminho de ascensão é individual, tal como quando nascemos ou morremos. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h52 de 7 de Agosto de 2012)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Cartas do meu Sanctum - O CAMINHO DO MEIO

Todos nós já ouvimos falar e vimos escrito em textos e livros de várias tendências, do “caminho do meio”. O que é de facto esse “caminho do meio” e será que existe realmente? Em termos cabalísticos esse caminho seria representado pela coluna central da “árvore sefirótica”, também denominada por alguns como “árvore da vida”. Essa coluna central será o encontro ou união das energias emanadas das várias “sefiras” confluindo para a realização material ou o “Reino” em “Malkuth”. Visto assim, o caminho do meio está perfeitamente representado, desde a “Kether” (Coroa) até “Yesod” cuja ideia se manifestará em “Malkuth”, passando antes por uma “sefira” bem especial denominada “Tiphareth” à qual se atribui o simbolismo do coração. Mas se repararmos bem na representação da “árvore sefirótica”, excluindo pretensas interpretações de quem dela tem um conhecimento reduzido, verificamos que não existe nenhuma coluna do meio, ou que a mesma se acha cortada por uma “sefira” fantasma chamada “Daat”, também conhecida como o “Abismo”. Realmente trata-se de uma interrupção do caminho entre “Kether” e “Tiphareth”, separando o mundo da criação do mundo da manifestação, grosso modo. A ausência da coluna do meio ou a interrupção dela parece encerrar um ensinamento a que poucos dão atenção: que esse caminho do meio, sendo o ponto de equilíbrio entre o da esquerda e da direita, só poderá ser atingido fora do mundo da matéria e que está guardado por esse guardião eterno chamado “Daat”. Em termos materiais, o caminho do meio não existe. Ele não existe na “árvore sefirótica” da Cabala, como não existe entre as colunas do Templo de Salomão, cuja simbologia foi transposta para muitos templos maçónicos e martinistas. São as colunas “Boaz” e Jachim” cujo significado faz parte dos seus ensinamentos. Esta ausência de representação do caminho do meio mostra-nos a dualidade do ser humano, pois todas estas representações e interpretações referem-se à nossa vida e à forma como a desenvolvemos. Para haver um caminho do meio circunscrito, quer dizer, com regras rígidas e delimitadas para ser seguido, teria que o caminho esquerdo e o direito se anularem mutuamente, originando o vazio, portanto, não haveria nada no meio. No Budismo esta situação corresponde ao estado de “nirvana”, que é o estado livre de todo o sofrimento e existência individual. É um estado que os budistas referem como iluminação. Dizem ainda que ao atingir-se o “nirvana” se quebra o ciclo interminável de reencarnações. Embora perfeitamente definidos na ´”árvore sefirótica” e nas colunas do Templo de Salomão, os caminhos esquerdo e direito também não podem ser delimitados, pois são apenas reflexos de comportamentos e tendências. Isto significa que vivemos permanentemente em dualidade, entre duas forças opostas que podemos chamar de esquerda e direita, de negativa e positiva, de sombra e luz. É entre estas duas polaridades que vamos vivendo, ainda que delas tenhamos pouco conhecimento ou medo de as conhecer. Precisamos de ambas, da sombra e da luz, sem as quais não poderíamos viver. O mundo em que estamos inseridos, toda a existência material, é feita de sombra e luz, pois se fosse apenas sombra, ou apenas luz, não conseguiríamos distinguir nada. O caminho do meio será então um equilíbrio dinâmico, pois nada existe estático na natureza, entre a sombra e a luz. Dependendo de um infindável número de factores, entre os quais a nossa natureza íntima, o nosso ser interno, a sociedade a que pertencemos, podemos ser atraídos por um ou outro lado, dependendo do momento, das circunstâncias e, principalmente, da nossa consciência. Um autor americano escreveu que os monstros existem e vivem dentro de nós (sombra), e que às vezes vencem. A sombra contém os nossos demónios, a luz a nossa natureza mais nobre e elevada. A nossa consciência determinará se somos mais sombra ou mais luz. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h45 de 3 de Julho de 2012)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Cartas do meu Sanctum - O Medo da Morte

O medo da morte parece ser exclusivo dos seres humanos, pois enquanto animal é o único que tem consciência dela. Os animais possuem apenas o instinto de sobrevivência comum a toda a Criação e portanto, também comum ao ser humano através daquela parte do cérebro que herdámos dos dinossauros e que fica localizada na ligação da coluna com o cérebro. Este medo da morte tem provocado ao longo dos milénios em que esta sociedade tem existido, as mais diversas teorias acerca da continuação da vida para além da existência física terrena. Essas teorias têm formado um corpo a que poderíamos chamar de espiritualidade, dentro do qual vicejam as religiões, uma infinidade de seitas e muitos grupos de natureza ocultista, iniciática e esotérica. Na verdade a espiritualidade resulta da imensa preocupação do ser humano em relação ao propósito da vida física terrena e do medo enorme de que a morte seja o fim de tudo e que nada mais haja para além dela. Os não crentes e os ateus tentam ludibriar um sentimento que é comum a todos, pois no fundo têm tanto medo como os outros. Assim surgiram as religiões que, ao contrário dos avatares sobre os quais elas foram criadas e que existiram para dar um sentido mais elevado à existência humana (Jesus, Buda, Khrisna, etc.), basearam os seus ensinamentos ou a sua doutrina na pretensão de responder à pergunta sempre presente – o que haverá depois que eu morrer – e construíram toda uma estrutura social e política sobre esse eterno questionamento. A resposta das religiões permanecerá sempre na crença, pois nada do que possam tentar ensinar a respeito pode ser demonstrado. As organizações iniciáticas, ocultistas e esotéricas procuram reservar os seus ensinamentos apenas para os seus membros os quais, após serem “preparados” durante algum tempo estarão em condições de os compreender. Embora nem todos os ensinamentos ministrados por essas organizações digam respeito a essa questão suprema, a questão da morte, ela também é parte importante da sua nomenclatura. Muitas dessas sociedades iniciáticas e esotéricas reportam a sua origem ao Antigo Egipto onde, aparentemente, tudo terá começado em termos de espiritualidade. No Antigo Egipto as pessoas mais esclarecidas e de maior cultura tinham um medo terrível de morrer antes de terem feito as pazes com os seus inimigos. O antigo egípcio acreditava que a morte era uma passagem para a “terra dos mil anos”, que seria atingida depois de uma viagem tormentosa na barca que os transportaria. Chegados a essa “terra” ali ficariam durante os mil anos para depois renascerem. Tinham um medo terrível de ficar esse tempo todo a olhar para a cara dos seus inimigos, e assim esforçavam-se por estabelecer a paz com todos antes de partirem para essa viagem. Esta ideia tinha implícita a noção de renascimento ou reencarnação, ainda que ao fim de um longo período de mil anos. O cristianismo primitivo herdou esta noção de renascimento, mas depois a Igreja transformou-a em ressurreição dos mortos o que, na opinião de muitos, passou a constituir uma autêntica aberração, pois a ideia de ressurreição trás consigo a ideia de que é realizada com o corpo físico que nos serviu em vida. O cristianismo tenta demonstrar que é assim mesmo, e dá o exemplo da ressurreição de Lázaro e do próprio Jesus, que mais tarde aparece aos apóstolos com o mesmo corpo que tinha em vida. Evidentemente que não pode tratar-se do mesmo corpo, apesar da tumba ter sido encontrada vazia. Esta ideia de ressurreição, assim como as ideias de renascimento e reencarnação, pretende que a morte não existe, que a vida continua para lá dessa passagem tão temida. Mas a morte existe, o corpo físico morre, desaparece com o tempo. Se a morte existe para o corpo físico, o que é que transita afinal para um plano a que, principalmente grupos espiritualistas chamam de continuação da vida? A consciência? Os vários corpos subtis de acordo com teorias orientais? A alma? Na verdade quando uma luz se apaga por a lâmpada se ter fundido, a energia eléctrica continua lá, na ponta dos fios. Se colocarmos uma lâmpada nova teremos luz novamente, não a mesma luz antiga, mas uma nova usando a mesma energia (alma, espírito). Esta forma de renascimento ou reencarnação é a que faz sentido para mim. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 22h00 de 26 de Junho de 2012)

domingo, 10 de junho de 2012

Cartas do meu Sanctum - Segredos

O segredo é uma coisa inerente ao ser humano, pelo menos desde que a história humana é conhecida. Mas há diversas espécies de segredo. Há aqueles pequenos segredos individuais que revelam um pequeno vício, algo que se procura esconder do conhecimento dos outros, porque isso seria constrangedor. Há os segredos de alcova, alguma coisa que se procura esconder da mulher ou do marido, normalmente envolvendo algum relacionamento exterior o qual, quando descoberto, pode acarretar sérias consequências para a permanência do casal. Há os segredos de família, algo incómodo que permanece apenas no seio de uma família, vulgarmente ligado a posses materiais ou na taras genéticas. O segredo tem sido também uma forma de protecção das pessoas envolvidas em alguma actividade não permitida pela sociedade da altura. Estão neste caso organizações como a Maçonaria e as ordens iniciáticas, cujos membros corriam sérios riscos de vida, podiam cair sob a alçada da Inquisição, (activa na Europa até pelo menos o início do século 19 e só foi abolida pelo Vaticano em 1965) ou desagradar de alguma maneira às autoridades da região. Hoje, apesar da abertura que existe no ocidente, há ainda países e regiões onde a prática que não esteja de acordo com a religião vigente conduz geralmente à morte dos envolvidos. As próprias religiões têm os seus segredos que revelam apenas a uma elite, presumivelmente constituída por aqueles mais preparados para os compreender e não deixar que os segredos possam ameaçar a estrutura religiosa. Como exemplo claro desta situação temos a Biblioteca do Vaticano, cujo acesso a áreas mais restritas só é permitido a alguns privilegiados. Depois temos os chamados segredos de estado, que muitas vezes passam de governo para governo sem nunca termos a possibilidade de os conhecer. Este tipo de segredo, para além de outras consequências, tem provocado sérios embaraços a historiadores que, procurando compreender determinados acontecimentos, esbarram em situações para as quais não encontram motivo. A história desta humanidade está cheia de segredos deste tipo. Só para dar alguns exemplos, o papa João XXIII era ou não era rosacruz? E Napoleão Bonaparte era rosacruz? Se não era, porque é que existe um colar rosacruz cuja posse lhe é atribuída? Qual foi o motivo real que deu origem à primeira grande guerra? Nos tempos mais recentes, quem foi que assassinou Kennedy? Nos tempos actuais e graças especialmente à Internet, tem vindo a desenvolver-se uma forte campanha de informação (ou desinformação) relacionada com a Terra sobre as nossas possibilidades de sobrevivência num universo que se revela extremamente perigoso. Por um lado a poluição que causamos e que tem provocado o chamado “aquecimento global”, por outro lado a aproximação de uma grande catástrofe anunciada pelo famoso calendário maia e confirmada pelo “I-Ching” e até por programas de computador. Como previsões desta natureza atraem sempre muitos alucinados, as receitas são inúmeras acerca de como poderemos sobreviver e das modificações que iremos sofrer no nosso ADN (DNA). Não participando da “loucura” dos profetas da Nova Era anunciando o fim do mundo das e nas mais diversas formas, há no entanto algo que foge ao nosso entendimento. Apesar dos sucessivos desmentidos por parte de governos e de instituições governamentais, como por exemplo a NASA, temos a estranha sensação de que alguma coisa se passa, inexplicada, e que parece contradizer esses desmentidos. Parece-nos que estamos a lidar com segredos que ultrapassam o nível de estado, parece-nos que os segredos agora são de nível planetário. Se não é assim, porque é que se insiste no “aquecimento global” quando a ciência já demonstrou que o que está a acontecer é um “arrefecimento global” que nos pode conduzir para uma nova “idade do gelo”? Se não está prevista nenhuma catástrofe global a curto ou médio prazo, porque é que foi construída a nova “Arca de Noé”, enterrada sob o gelo do norte da Noruega e destinada a preservar as espécies vegetais terrestres? Se não existe nenhuma aproximação de um planeta intruso chamado Nibiru ou outro nome qualquer, porque é que se mandou construir dois ou três observatórios no pólo sul, na Antártida, cujas antenas estão viradas também para sul? Será porque as tabuinhas de argila da Mesopotâmia em escrita cuneiforme nos contam que esse planeta intruso invade o nosso sistema solar pelo sul? Porque é que os EUA da era Obama cancelaram todo o seu programa de viagens espaciais? Foi só por uma questão de poupança financeira? Estes são alguns casos que nos perturbam pois são sintomas de que algo grave vive escondido e não é do conhecimento geral. Parece que só agora, e mercê do progresso científico que atingimos nos últimos tempos desta humanidade, tomámos consciência de que a Terra gira sobre si e à volta do Sol a velocidades vertiginosas, de que o Universo em que estamos inseridos é muito perigoso. Tão perigoso que já por diversas vezes a vida na Terra foi praticamente eliminada, e não falo apenas dos dinossauros. Podemos estar à beira de uma situação semelhante, mas também não sei se a divulgação de algo que esteja para acontecer em breve ao planeta seria benéfica, gerando o pânico a nível global com trágicas consequências. Pessoalmente não estou nada preocupado, pois sei que a lei cósmica se cumprirá sempre, que poderei viver novamente neste planeta se houver condições para a vida, ou em outro qualquer planeta onde o Cósmico me permitir continuar a minha senda evolutiva. (Escrito em Birigui, São Paulo, às 22h10 de 5 de Junho de 2012)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Cartas do meu Sanctum - Recomeços

Alguém disse e escreveu que a vida é uma sequência de recomeços, e assim é, de facto. Todos os dias, quando acordamos, recomeçamos a nossa vida, depois de uma noite em que estivemos ausentes, no sono. Quando digo ausentes, quero dizer isso mesmo, pois ninguém sabe, exactamente, por onde andamos quando dormimos e sonhamos – a teoria dos universos paralelos está cada vez mais presente nas nossas conjecturas. Mas quando despertamos o nosso corpo ganha vigor, encaramos as coisas de cabeça um pouco mais fresca, mas não eliminamos nada do que constitui a nossa vida, tudo permanece na nossa memória, os problemas, as preocupações, as alegrias, porque o novio dia é apenas a continuação de tudo. Carregamos sempre connosco o “fardo” que constitui a nossa vida. O termo “fardo” aqui não tem sentido pejorativo, significa apenas o conjunto que constitui a nossa vida, conjunto esse que pode ser mais ou menos pesado, ou até bem leve, dependendo do que fazemos no tempo em que nos é permitido viver. É assim também o renascimento ou reencarnação. Quando nascemos de novo, é um recomeço das vidas que deixámos para trás e, tal como quando acordamos de manhã, carregamos o “fardo” dessas nossas vidas passadas. Pesado ou leve, esse “fardo” irá condicionar os eventos da nossa vida. Mas ao contrário do que acontece quando despertamos de uma noite de sono, a memória parece ter desaparecido, não conseguimos lembrar-nos de nada das nossas vidas passadas. Ou lembramo-nos? Não nos lembramos de forma objectiva, mas algo nos diz que existe uma memória que reside no íntimo do nosso ser, de que não temos consciência, mas que, afinal, acaba por presidir ao nosso destino. Não é por acaso que tomamos uns caminhos em vez de outros; não é por acaso que determinadas acções nos repugnam ou seduzem; não é por acaso que escolhemos o bem e repudiamos o mal, ou o contrário. Porque somos o resultado acumulado de um infindável número de experiências de vida que expressamos na actualidade, contribuindo para a construção de uma humanidade mais fraterna, ou exercendo actividades prejudiciais ao ser humano e ao planeta, ou ainda permanecendo inerte e alienado de tudo o que se passa à volta. Quando recomeçamos a vida de manhã, quando acordamos, podemos lembrar-nos de algo bom que fizemos ontem, ou há dias, ou podemos continuar a alimentar o ódio que trazemos de conflitos absolutamente desnecessários e inapropriados. Podemos decidir-nos a fazer o possível por estabelecer a paz e a concórdia com quem se julga nosso inimigo, ou podemos acrescentar “achas à fogueira”, alimentando o conflito. Tudo isto depende de nós, depende do que o nosso mestre interior nos sugerir. De igual modo, quando nascemos, trazemos connosco o que os orientais nos ensinaram a chamar “carma”. Esse carma irá pontuar a nossa vida, ainda que disso não tenhamos consciência. Podemos dedicar-nos a construir uma vida equilibrada onde resida essencialmente o bem ou o amor, ou podemos divergir para actos menos correctos, para expressões e demonstrações de egoísmo, para pouca caridade e pouco amor. Em muitos casos podemos cair na atracção sedutora das trevas. Há quem se preocupe permanentemente com o carma, como se este fosse uma espécie de “espada de Dâmocles” sobre a cabeça, fazendo o possível por não agravar esse carma, temendo talvez uma espécie de julgamento final. Acho exagerada e desnecessária essa preocupação. A únikca preocupação que deve existir é a das nossas escolhas, se optamos ou não pelo bem. Depois, o carma se ajustará por si mesmo. Ad rosen! (Escrito em Birigui, São Paulo, às 22h17 de 31 de Maio de 2012)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cartas do meu Sanctum - Sem Tema

Nem sempre temos um tema que possamos desenvolver, talvez por falta de inspiração, ou porque os temas mais conhecidos já estejam demasiado vulgarizados que, falar outra vez sobre eles não acrescenta nada nem estimula o interesse de quem lê.
Desta vez parece que não tenho tema, ou então, porque não, desenvolver várias ideias que, por sua vez, se transformem num tema mais abrangente?
Poderia falar sobre sonhos, por exemplo, uma coisa que interessa bastante às pessoas apegadas a tentar decifrá-los ou a tentar ver neles algo de profético, de previsão do futuro. Escrevi na última carta que o futuro não existe, assim como o passado, que tudo é eterno presente, ou a duração permanente, uma ideia que nos foi transmitida pela brilhante Helena Blavatsky. Mas a ideia da inexistência do futuro e do passado confunde-nos, porque não conseguimos abstrairmo-nos da sequência lógica do tempo.
Actualmente, segundo as pesquisas sobre universos paralelos, há quem defenda a teoria de que vivemos simultaneamente em vários universos, o que serviria para explicar alguns sonhos, viagens astrais, mediunidade, canalizações, todos esses fenómenos que somos habitualmente levados a considerar como objectos de crença, por não conseguirmos compreender e explicar como se manifestam, e porque é que se manifestam. Por outro lado esta teoria de universos paralelos ajudaria talvez a compreender melhor a sucessão de reencarnações ou renascimentos. Mas enquanto teoria nada ainda foi demonstrado, estando apenas na mente de alguns cientistas.
Carl Jung dedicou grande parte da sua vida aos sonhos, que ele considerava serem muito importantes na vida das pessoas. Jung via nos sonhos a projecção do subconsciente ou do inconsciente, esse “poço” que reside no nosso interior e nos faz, muitas vezes, tomar atitudes impensadas, que nos faz agir por instinto ou intuição.
Obras recentemente publicadas falam-nos da sombra e das projecções da sombra, querendo dizer que muitas atitudes agressivas ou pensamentos menos bondosos em relação aos outros, não são mais do que projecções da nossa sombra, daquilo que não gostamos em nós. Neste sentido, os sonhos como projecções da sombra ajudam a resgatar o inconsciente.
Os sonhos chamados de premonitórios ou proféticos são algo muito discutível, pois essa ideia coloca problemas à nossa capacidade de gerir a nossa própria vida. Acreditar em algo profético significa abdicarmos do nosso livre arbítrio, uma vez que independentemente do que fizermos, algo vai acontecer. Esses sonhos proféticos podem ser avisos que recebemos dessa forma e nos permitem tomar medidas para evitar que aconteçam. Conheço alguém que há muitos anos sonhou com a data da sua transição (morte), que aconteceria em meados de 2010. Já lá vão cerca de dois anos e não aconteceu essa transição, provavelmente porque a pessoa soube tomar as medidas adequadas em relação à sua saúde.
Em termos de profecias sabemos quanta especulação tem havido com o ano corrente de 1012, encontrando-se muita gente convencida de que não veremos o próximo ano. No entanto, a maior parte da população do planeta que já ultrapassou os 7 mil milhões (7 bilhões), não quer saber disso para nada, ou não sabe mesmo, preocupada apenas com a sua sobrevivência, como conseguir sustentar a família, ou até como conseguir ter água e alimento todos os dias. As especulações ficam para quem não tem mais preocupações ou tem pouco que fazer, e distrai-se morbidamente a tentar aterrorizar os outros.
O fim do mundo tem sido tema predominante na história humana. Desde o Cristo que terá anunciado que estaria connosco até ao fim dos tempos, à psicose colectiva de viradas de milénio, primeiro no ano 1000, depois em 2000. Quando os manifestos rosacruzes apareceram afixados nas paredes de Paris, no início do século XVII, grande parte da população e principalmente pessoas ligadas a religião ou esoterismo, estavam convencidas do fim do mundo próximo, pois o céu havia mostrado sinais inequívocos de que uma grande calamidade ia acontecer, devido à configuração especial de alguns planetas.
Para quem não tinha nenhum tema para desenvolver, parece acabei por tocar alguns.
Ad rosen!

(Birigui, São Paulo, 21h50 de 10 de Abril de 1012)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Cartas do meu Sanctum - Os Registos Acásicos ou Akasha

Já muito se escreveu sobre este assunto e muitas teorias foram desenvolvidas, levando por vezes a alguns pequenos equívocos.
Todos podemos equivocar-nos acerca de qualquer assunto, ninguém está livre de incorrer nesse erro. Assim, apesar do que escrevo ser o resultado de profunda reflexão, não tenho a menor pretensão de estar dentro da verdade. Estar dentro da verdade significa, para mim, estar próximo da verdade, na assunção de que esta, a verdade, ou a verdade absoluta, pode ser que exista, mas muito dificilmente temos acesso a ela. Quando muito conseguimos atingir a nossa verdade, que não é necessariamente a mesma verdade para os outros – cada um tem a sua verdade.
Acerca dos famosos arquivos ou registos acásicos, a que alguns dizem ter acesso, onde está realmente a verdade? Há também quem confunda arquivos acásicos com a aura ou o campo energético das pessoas, quando na realidade o que estes campos mostram é a saúde física e psíquica das pessoas, nada mais do que isso.
Mas há quem leia os arquivos acásicos, tenha acesso a eles e depois nos conte o que ali leu. Há alguns livros que foram assim escritos, segundo os seus autores. Paremos um pouco por aqui para poder explicar o que, no meu entender, são os arquivos ou registos acásicos: são registos feitos no Cósmico (ou no astral para algumas escolas), de tudo quanto aconteceu e acontece na Terra, de todos os pensamentos criados, de amor, ódio ou de qualquer outra natureza.
Para Helena Blavatsky, que disse ter tido acesso ao livro mais antigo do mundo, o “Livro de Dzyan”, o tempo e o espaço estão contidos numa imensa tela onde tudo é registado, desde o carma, com os seus débitos e créditos, a tudo quanto se pensa e acontece. Essa tela imensa é a “duração eterna”.
De acordo com essa tradição antiga, o tempo é uma ilusão que se produz pela sucessão dos nossos estados de consciência na nossa viagem através da duração eterna, e só existe onde há consciência, em que esta possa produzir a ilusão. O presente é uma linha matemática que separa a eternidade em duas partes, uma chamamos de passado e outra de futuro, mas trata-se da mesma duração eterna. O futuro e o passado são uma e a mesma realidade, se lhe podemos chamar assim. É o “Eterno Presente” dos místicos. Na nossa consciência, o tempo corre do futuro para o passado porque, à medida que vamos tomando consciência do «vir a ser» (futuro), passamos a ter consciência do «foi» (passado). Isto quer dizer que nem o futuro nem o passado existem, pois são ambos a duração eterna onde tudo permanece imóvel. Eles, o passado e o futuro, assim como o tempo, só existem como uma ilusão que é percebida pelos nossos sentidos.
Por muito difícil que seja a compreensão disto, algo nos diz que podemos estar dentro ou a rondar a verdade. A própria ciência encaminha-se a passos largos para essa compreensão, senão não faria sentido a teoria da relatividade de Einstein, a teoria das cordas ou super cordas, a nanotecnologia (já em aplicações práticas) e a percepção, cada vez mais presente de que o tempo não existe, que resulta apenas dos nossos estados sucessivos de consciência.
Tudo o que pensarmos e fizermos fica registado nessa tela da “duração eterna” a que chamam arquivos ou registos acásicos. Estes registos vão-se reforçando à medida em que mais pessoas forem elaborando formas-pensamento semelhantes, ou seja, quando muitas pessoas acreditam em determinado acontecimento, esse acontecimento passa a ser considerado verdadeiro, passa a ser verdade – está neste caso, como exemplo, a génese, o desenvolvimento e a solidificação de conceitos de algumas das principais religiões.
A possibilidade de consulta dos registos acásicos não nos garante a sua natureza, e deve haver o maior cuidado de não tirar conclusões precipitadas da sua leitura. Porque quando se diz que ali fica tudo registado, quer dizer tudo, a verdade e a mentira, o verdadeiro e o falso, as criações mentais mais elaboradas, os sentimentos de raiva, de ódio, de prazer e de amor, enfim tudo. Numa qualquer biblioteca podemos encontrar livros com os temas mais diversos, podemos encontrar romances criados pela imaginação dos seus autores, biografias geralmente muito subjectivas, livros técnicos e de ciências. Podemos encontrar também documentos ali depositados, nem sempre verdadeiros, podemos encontrar falsificações, fraudes várias, descrições mentirosas. Como exemplo bem esclarecedor, temos as cartas de Paulo incluídas no Novo Testamento da Bíblia, em que praticamente todos os teólogos concordam que, pelo menos metades delas são falsas, que foram escritas tardiamente por padres da Igreja.
Assim são os arquivos acásicos, tudo ali está registado, o bem e o mal, a verdade e a mentira, pensamentos construtivos e destrutivos, tudo, por isso deve haver o maior cuidado na interpretação dos factos que nos são relatados provenientes da sua consulta.
Ad rosen!


(Escrito em Birigui, São Paulo, às 23h00 horas de 3 de Abril de 2012)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Cartas do meu sanctum - Peregrinação

- O que procuras, peregrino?
- Não sei, Mestre. Talvez a minha alma, que sinto perdida.
- Não procures fora o que não podes encontrar. Procura dentro de ti.
A peregrinação é uma prática, normalmente de natureza religiosa, que remonta aos primórdios da humanidade. Consiste essencialmente numa viagem a um local considerado sagrado. Essa viagem pode ser feita de vários modos, usando diferentes meios de transporte ou simplesmente a pé.
A verdadeira essência da peregrinação a um lugar sagrado implica um sacrifício, por isso as longas caminhadas a pé, exigindo do caminhante grande força de vontade para prosseguir através das dores do corpo e, quantas vezes, as da alma.
Existem no mundo numerosos locais de peregrinação, incluindo os centros marianos, sobre os quais falaremos em outra altura, quando abordarmos o culto de Ísis e das suas ramificações dentro do paganismo, até ao desembocar no culto mariano cristão.
No cristianismo os lugares de peregrinação mais conhecidos são Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela. Neste último caso a tradição é anterior ao cristianismo, pois a região do cabo Finisterra foi sempre considerada um local sagrado desde a mais remota antiguidade. Jerusalém é simultaneamente um lugar sagrado para as três religiões do “Livro”, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo.
O local mais sagrado do islamismo é Meca, cidade procurada por milhões de muçulmanos na sua peregrinação anual. Outros locais, Jerusalém como já foi dito acima e Medina.
Outros lugares há no mundo que atraem essa vontade de os procurar, lugares sagrados por algum motivo, por uma lenda, pela força de uma aparição, por ser um lugar de suplício, por se acreditar que ali existe uma energia diferente, por se achar que ali existe uma porta para uma outra dimensão, enfim, os motivos são inúmeros e muitos desses lugares ganham de repente grande projecção por algum factor externo que os faz sair da obscuridade e serem procurados por autênticas multidões. A peregrinação a Santiago de Compostela ganhou um incremento extraordinário após a publicação do livro de Paulo Coelho, “O Diário de um Mago”. Neste caso, já não é apenas uma peregrinação religiosa, mas também mágica, onde acontecem coisas extraordinárias ao caminhante.
Mas essas coisas extraordinárias não acontecem somente ali, acontecem em todo o lado na nossa vida quotidiana, das quais mal nos apercebemos ou sequer lhes prestamos atenção. No entanto, se estivermos atentos, descobrimos que afinal a magia existe, que faz parte da nossa vida.
A verdadeira peregrinação, como diria o Mestre, é a peregrinação ao nosso interior. Para isso precisamos de nos centrar no nosso ser, sem influências externas que nos desviem o foco. O sacrifício que se exige ao caminhante de Santiago faz com que ele se centre em si mesmo, as dores do corpo e as feridas dos pés, mais o silêncio das longas estradas e das serranias, fazem com que ele se centre na sua pessoa, no verdadeiro ser que é.
Mas para a peregrinação ao nosso interior não precisamos das dores das grandes caminhadas. Pode ser conseguida, tranquilamente, através da meditação, no recolhimento num local tranquilo em algum lugar da nossa casa. Não deve ser uma meditação conduzida por outrem, mas uma meditação solitária, onde se possa, no segredo do coração, entrar em contacto com o nosso mestre interior, nosso verdadeiro guia ao longo da vida.
É difícil chegar lá. Às vezes são necessários anos de prática e muita coragem para ultrapassarmos os obstáculos que nos impedem de olharmos para o nosso verdadeiro “eu”, o principal dos quais é a nossa sombra, o lado mais obscuro do nosso ser, que temos de enfrentar e aprender a lidar com ele, porque ele faz parte intrínseca da nossa vida, é necessário à nossa vida assente na dualidade – não seria possível viver se fossemos só luz ou só sombra. Se não houvesse sombras os nossos olhos não conseguiriam distinguir nenhum objecto.
O verdadeiro peregrino é aquele que não precisa de locais externos mais ou menos sagrados. O verdadeiro peregrino é aquele que mergulha para dentro de si mesmo, em busca do anjo, do guia, do guardião, que eu prefiro chamar de mestre interior, com quem pode estabelecer um diálogo silencioso, aprendendo o que não pode aprender em nenhum manual, nem com nenhum auto-denominado mestre.
A vida é a grande peregrinação que nos foi sugerida no momento em que nascemos, queiramos nós aprender com os ensinamentos que ela nos oferece de graça.
Ad rosen!

Cartas do meu Sanctum - Ano Novo R+C

Neste Equinócio da Primavera, no Hemisfério Norte, ou do Outono, no Hemisfério Sul, inicia-se mais um ano R+C, será o ano 3365. Este número pode ser reduzido a 8 ou 17 (3+3+6+5=17=8).
Ambos os números correspondem a cartas importantes no Tarot. O número 8 é o Arcano maior denominado “Ajustamento” ou “Justiça”. Representa, esotericamente, as forças de equilíbrio do Universo, o “Caminho do Meio” e também, em algumas leituras, a “Consciência Crística”
O número 17 é o Arcano Maior chamado “A Estrela”, e à semelhança do número 8, representa a visão cósmica e global. É o princípio de renovação e consciência de integração no Universo.
Sabemos assim, por esta pequena análise dos Arcanos do Tarot, que este será um ano muito especial para a Ordem, provavelmente o inicio de um tempo em que comece a prevalecer uma maior consciência universal, uma renovação da nossa forma de encarar a vida no seu contexto alargado, global e universal, talvez a caminho da aquisição de uma consciência cósmica.
Estas lâminas do Tarot falam-nos de renovação e elevação da nossa consciência. Que melhor projecto para darmos as boas-vindas a esse Ano Novo, para o recebermos com alegria e certeza de que estamos a caminhar para uma melhor humanidade?
Renovação não significa negar ou destruir o que foi feito, pois muito foi construído com muita força de vontade e muito sacrifício. A renovação não é fazer de novo, é continuar a “Obra” que já vem de alguns milénios, desde o tempo em que Tutmés III governava o Egipto. Renovação é dar-lhe uma roupagem nova mas não desmerecer dos nossos ancestrais, daqueles que através dos séculos souberam preservar o conhecimento antigo e doá-lo a quem o merecesse receber.
Neste início de Ano Novo, para além das comemorações que muito acertadamente devem ocorrer, recolho-me no meu sanctum e procuro sintonizar-me com os Mestres e com a Egrégora, pedindo a sua bênção (porque não a sua presença?) para todos os rosacruzes que fazem desta via a sua senda espiritual.
Que a harmonia do número 3365 (8, 17) se estabeleça em todo o universo rosacruz, nos seus organismos afiliados, nas suas Grandes Lojas, e que os seus responsáveis possam dirigir os destinos da Ordem com harmonia (caminho do meio), com rigor, justiça e visão cósmica.
A todos os “trabalhadores” místicos, oficiais e membros dos organismos afiliados, membros de sanctum, o desejo sincero de um excelente trabalho e que todos possam colher benefícios espirituais.
Ad rosen!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cartas do meu Sanctum - Pode haver uma religião sem Deus?

O mais interessante é que Deus, seja lá o que for que se entenda por este nome, não criou nenhuma religião. Da mesma forma, o cristianismo não foi criado por Cristo, o islamismo não foi criado por Muhammad (Maomé) e o budismo não foi criado por Buda. Foram os homens (em sentido literal) que criaram as religiões. O feminino não está presente, ou tem um papel diminuto, nas chamadas religiões reveladas. O mesmo não acontece com muitas das religiões pagãs.
Foram também os homens que criaram a imagem de Deus, algo parecido com eles, uma figura com que se pudessem identificar e pudessem usar para domínio dos outros homens. Portanto, este conceito de Deus é uma criação puramente humana e tem muito pouco a ver com a verdade. Isto já foi devidamente explicado à antiga Sociedade Teosófica que, apesar de toda a inspiração recebida, caiu no entendimento comum do conceito de Deus.
A ideia de alguma maçonaria e de algum martinismo de substituir o conceito de Deus pelo do Grande Arquitecto do Universo é mais correcta mas peca ainda por imperfeita. Procura-se aqui, com o abstracto, dar uma ideia mais inteligente do conceito, mas é em função dele que essa ideia é criada.
A ideia do budismo sobre Deus, ou a divindade, embora não reconhecendo Deus como tal, e a divindade como um ser, apesar do culto de numerosas divindades, é uma ideia semelhante à da Cabala, principalmente à da sua “Árvore Sefirótica” onde, acima de “Kether” (A Coroa) não existe nada, é o imanifestado, o incognoscível. Esta ideia cabalística coloca a questão sobre a existência de Deus em parâmetros mais correctos, quer dizer, que ninguém pode conceber Deus pois Ele é o inominável, o incognoscível.
O budismo fala do vazio, ou vacuidade, como origem de tudo o que foi e é criado. Embora parecida com a ideia do “Ein Soft”, onde nada é dito acerca de vazio, mas de imanifestado, no budismo diz-se que é vazio, e que do vazio tudo foi e é criado.
Mas o vazio ou vacuidade entende-se como ausência de tudo, inclusive de qualquer forma de energia. Ora se nada ali existe, como é que pode ser criada alguma coisa? Os rosacruzes sabem isto e conhecem muito bem a parte de um ritual em que é dito que das trevas nada pode ser criado, que é precisa a luz para que a criação aconteça.
Pode haver uma religião sem Deus? Claro que não, porque o conceito de religião, apesar do seu significado de “religar”, está intimamente associado ao da divindade, seja ela um deus único ou um panteão de deuses – a ideia é sempre a mesma.
Uma das coisas mais difíceis que existem na actualidade é fazer com que as pessoas, quando falam de Deus ou o imaginam, entendam que a ideia desse Deus é um arquétipo muito poderoso que domina as suas mentes e controla as suas vidas. Destruir esse arquétipo é uma tarefa impossível, uma vez que está tão arraigado na sociedade e cimentado em inúmeros séculos até um passado remoto. Tarefa tão impossível que, em algumas ordens iniciáticas, apesar de se afirmar que o entendimento de Deus está no interior de cada um, o arquétipo permanece ligado à imagem arquetípica. Aqueles que conseguem libertar-se dessa imagem, libertam-se de um peso que carregam há muitos milénios, desde a época em que os deuses e os homens habitavam a mesma Terra.
Ad rosen!

(Escrito em Birigui, São Paulo, às 21h45 de 15 de Março de 2012, sob a inspiração de Mestre K.)